Os verões em Camp Jened foram verões de mudança, semente inegável de uma revolução cultural e política que mudou para sempre a vida de uma comunidade. “Crip Camp: Uma Revolução na Inclusão” é uma tentativa de narrar, através de imagens de arquivo e entrevistas, essa mesma revolução.

O filme, realizado por James LeBrecht e Nicole Newman, apresenta-se como uma partilha do conjunto das experiências e vivências de um grupo de jovens deficientes que frequentam Camp Jened, um campo de férias para jovens portadores de deficiência nas Catskills, zona montanhosa no estado de Nova Iorque, no final dos anos 60 e início dos anos 70. Os anos passados no campo de férias – anos esses que coincidem com o Verão do Amor, Woodstock e uma revolução cultural na América que ultrapassa fronteiras – transformam Camp Jened num “campo de verão dirigido por hippies”, uma “utopia”, um espaço seguro para descobrimento e definição do eu onde os jovens, cujas histórias de vida estão marcadas desde muito cedo por dificuldades de aceitação entre os seus pares e por uma sociedade que lhes é hostil, podem finalmente sentir-se livres. James LeBrecht, um dos realizadores, foi ele próprio um dos frequentadores de verões em Camp Jened, um carismático narrador seja na atualidade como também em miúdo adolescente das imagens de arquivo, com uma expressão reguila que guia a equipa de filmagem pelo campo e age como ​gatekeeper para uma comunidade vibrante e politicamente consciente.

Se este contexto do filme é já em si mesmo apaixonante, misturando momentos de discussão e maturação política com tensões tão próprias da adolescência (e que relembram, em alguns momentos, um filme de coming of age), o verdadeiramente extraordinário acontece depois de Camp Jened: impulsionados pelo espaço de debate e consideração da sua condição que o campo de férias lhes oferece, este grupo de jovens desenvolve uma vida política, tornando alguns em ativistas que transformam o panorama político no que toca aos direitos dos​handicapped – ou deficientes – nos Estados Unidos. Liderados por Judy Heumann, ativista política e atualmente uma das principais figuras da luta pelos direitos dos deficientes nos Estados Unidos, ela própria participante dos verões no Camp Jened, o filme acompanha assim o devir de um extraordinário movimento político nos anos de rescaldo do movimento dos direitos civis americanos, que ocorrera apenas uma década antes. O filme circula e acompanha as atividades reivindicativas dos participantes de Camp Jened à medida que estes abandonam as Catskills e espalham os seus esforços pelo país e um pouco por toda a América, entre Nova Iorque e Washington DC, passando por San Francisco, Berkeley, Oakland e outras cidades da zona da Baía de San Francisco, na Califórnia, aquele que seria um dos principais campos de batalha pelos direitos da comunidade ​handicapped​ na América.

O filme leva-nos por uma incrível viagem de sacrifícios, protestos, lutas e uma incansável vontade de ocupar espaço por parte desta comunidade; luta essa que culminaria, algumas décadas mais tarde, com a aprovação do ​Americans with Disabilities Act em 1990, legislação que não só ilegaliza qualquer tentativa de discriminação contra os portadores de deficiência, como também torna obrigatório que sejam providenciadas condições para que estes mesmos possam trabalhar, usar os transportes públicos, frequentar escolas e estabelecimentos comerciais e, no fundo, consigam ter a vida normal que a sociedade lhes tinha negado até aquele momento.

“Crip Camp” é um filme emocionante e despretensioso que embora não seja formal ou estilisticamente revolucionário, encontra nas imagens de arquivo – particularmente naquelas recolhidas nos verões quentes em Camp Jened, em estilo colaborativa com os campistas – a sua verdadeira revolução. ​”Crip Camp” também não nos poupa a momentos de potencial desconforto, obrigando-nos a refletir sobre as nossas próprias ignorâncias e preconceitos quanto à comunidade de portadores de deficiência, levando-nos às lágrimas – de felicidade ou de desespero – em vários momentos. O filme está pleno de momentos tocantes, sejam as narrações das primeiras descobertas sexuais da adolescência em Camp Jened (como histórias de primeiros beijos, ou de uma epidemia de “chatos” que percorre o campo e que obriga a uma desinfeção geral de todos os campistas), ou o discurso apaixonante de Judy Heumann nos momentos finais do filme, em imagens de arquivo dos anos 80, em que afirma estar farta “(…) de se sentir grata por agora ter acesso a casas de banho para deficientes (…) Enquanto me obrigarem a sentir assim, jamais me poderei sentir integrada na sociedade”. Mas o momento mais tocante do filme é talvez aquele em que Nancy Rosenblum, uma das participantes no Camp Jened, recebe a oportunidade de falar numa assembleia sobre dificuldades de relacionamentos entre pais e jovens. Devido à sua paralisia cerebral, o discurso de Nancy é difícil, ou mesmo impossível, de entender. Embora exista um reconhecimento dessa dificuldade tanto para o espectador como para os próprios campistas, não é por isso que lhe é cortada a palavra: é lhe cedido o microfone, pelo tempo que for necessário, e uma plateia interessada ouve em silêncio um discurso que, embora não seja inteiramente compreensível, tem uma reconhecida importância. Existe um reconhecimento do direito ao espaço para comunicar opiniões e o direito a que qualquer indivíduo tem a ser ouvido – independentemente das suas dificuldades de expressão.

Camp Jened já não existe hoje, mas a herança desses anos de transformação e descoberta persiste seja na memória do documentário como na memória política de quem o viveu. “​Crip Camp” é, nesse sentido, não apenas um documento da importância de Camp Jened e das suas repercussões políticas, mas também um ​gentle reminder de que vale sempre a pena lutar por aquilo em que acreditamos, e por aquilo que achamos ser um futuro melhor.

“Crip Camp: Uma Revolução na Inclusão” - A Crónica de um Verão Inigualável
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