«Cruella» – o apagamento dos vilões (e o que isso tem de errado)

Cruella, de Craig Gillespie, estreou-se no Disney+ em Maio de 2021 com a premissa de desconstruir uma das vilãs mais temidas do universo fílmico. Em jeito de prequela, o filme conta a vida de Cruella de Vil antes de se tornar numa famosa estilista viciada em peles, mas vai além disso, reconstruindo a própria narrativa de 101 Dalmatas, sob o pretexto de nos contar “o que realmente aconteceu”.

Não é nova esta tendência da Disney, que desde há um tempo para cá – e ao contrário do que nos habituou até ao virar do século -, nos tem apresentado personagens mais complexas, que tentam fugir aos papéis que sempre lhes foram atribuídos: heróis que também têm um lado mau, vilões com fragilidades e inseguranças, que viram protagonistas. Em Maléfica (2014), por exemplo, Angelina Jolie dava uma nova cara à fada má de A Bela Adormecida, explicando o seu comportamento com um desgosto amoroso e acabando por ser ela mesma quem, no final, retira a maldição, numa inesperada reviravolta de personalidade. Em Frozen (2013), temos o expoente desta redistribuição de papéis: Elsa é ao mesmo tempo a princesa querida por todos e a responsável pela maldição que assola o seu Reino, o príncipe encantado torna-se no mau da fita, e o amor verdadeiro que quebra a maldição vem não do beijo do príncipe, mas do amor fraterno entre a princesa e a sua irmã.

Esta criação de personagens menos bidimensionais, que aproxima ficção de realidade, foi ainda seguida pela Warner Bros em Joker (2019) que conseguiu, melhor do que qualquer outro filme, justificar a demência de um vilão, pondo-nos ao mesmo tempo a reflectir sobre a impotência das sociedades modernas em manter um sentido de comunidade, (clique para (re)ler a Crónica de Diogo Ferreira), ostracizando e sacrificando minorias.

Cruella (Emma Stone) segue, portanto, esta linha, mas vai um pouco mais além, naquilo que se torna o calcanhar de Aquiles deste filme. Mais do que tentar explicar o que leva Estella – que descobrimos agora ser o nome verdadeiro da personagem – a tornar-se Cruella de Vil, o filme tenta reinventá-la totalmente: ela não fuma, não usa peles e evita a todo o custo o mau-trato animal.  Estella é uma estilista em ascensão que cria o alter-ego Cruella para tentar destronar a famosa e estabelecida Baronesa Von Hellman, uma estilista de alta-costura, pedante e autoritária para quem Estella tem estado a trabalhar. Nesta guerra, serve-se da sua excêntrica e recém-criada imagem para desestabilizar as festas e apresentações de colecções da Baronesa e lhe retirar protagonismo junto da imprensa e dos seus seguidores.

Desta forma, a malvadez de Cruella passa a ser direcionada para a sua Némesis, deixando de ser a perigosa raptora e assassina de animais que tão bem conhecíamos. Cruella falha, assim, precisamente, onde Joker tem sucesso: em vez de explicar os factores sociais que constroem um vilão – e que nos deixa a todos susceptíveis a tornarmo-nos num -, Cruella tenta aniquilar a própria existência do vilão – manobra que, na verdade, acaba por ser mal sucedida se tivermos em conta que o comportamento de Estella é uma resposta à Baronesa Von Hellman, que se torna, assim, numa nova vilã da Disney.

Se a bidimensionalidade de personagens é pouco credível, e apesar de ser louvável e necessária a existência de personagens mais complexas, que apresentem fragilidades e motivações para os seus comportamentos, com os quais o público se possa identificar e relacionar; a inexistência de vilões também é um erro.  Enquanto os comportamentos da Cruella de Vil dos anos 50 levavam a um questionar dos direitos e bem-estar animal, assim como o uso de peles pela indústria da moda, ao eliminar tudo aquilo que faz dela uma vilã, o novo filme deixa de ter qualquer componente moral, que é aquilo que, afinal, caracteriza os contos de fadas, tornando-se numa obra básica de entretenimento.

«Cruella» – o apagamento dos vilões (e o que isso tem de errado)
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