No plano das competições nacionais da 26.ª edição do Curtas Vila do Conde, direcciono a minha atenção para “Anteu”, a mais recente curta-metragem realizada por João Vladimiro, que nos conta a história de uma família que vive isolada numa aldeia, algures no interior do país. Anteu, que aparece no início da história, ao colo dos pais com os avós ao seu redor, como que numa fotografia de família, cresce e vai-se deparando com a morte de todos os seus familiares, acabando por ficar sozinho, com dezassete anos de idade. Entregue à solidão, Anteu resolve começar a engendrar uma tecnologia que possibilite o seu enterro, após a sua morte. Anteu representa a desertificação do interior e o êxodo moderno para as cidades, que passam a ser o único foco de atenção e desenvolvimento. Mas esta visão é-nos dada com belos planos, numa combinação de cores e preto-e-branco, de lentidão e movimento, que compõem uma estética visual singular, captando bem os corpos e os rostos das personagens que habitam a paisagem natural onde estão envolvidos, ou de certa forma, aprisionados. Apesar do destino trágico de Anteu, o filme está repleto de situações de humor até ao seu desconcertante desfecho, que nos retira uma risada, quando a geringonça criada por Anteu é, finalmente, colocada à prova.

Uma boa surpresa, vinda das competições internacionais, foi a curta “La Chanson”, de Tiphanie Raffier. O filme junta alguns documentos sobre a origem da Disneylândia com a história de Pauline, que procura, em conjunto com duas amigas, afirmar-se no mundo da música, através da participação num concurso musical de imitações. A parte documental traz-nos a verdade sobre uma actualidade onde proliferam os simulacros, as realidades estéreis, plenas de vazio, que apenas servem aqueles que criam uma contra-cultura cuja finalidade, inicial e última, é a espectacularização massiva do mundo. Pauline irá tentar escapar a esta fauna despojada de vitalidade e começar a compor as suas próprias músicas, cujo lirismo está impregnado de referências às tecnologias modernas que se vão sobrepondo, gradualmente, a uma espessura de realidade que elas próprias vão consumindo – como, por exemplo, a distância entre um cigarro verdadeiro e um cigarro electrónico.  A forma como a realizadora passa a sua ideia está cheia de humor, ou o humor é a própria forma do filme, como se essa forma humorística se apropriasse da própria forma espectacular para melhor a criticar e desconstruir.

Na competição “Take One!”, destaco a curta “A Ver o Mar”, de Ana Oliveira e André Puertas. O título remete para o local onde foi filmada e, ao mesmo tempo, para a essência da história: casais que levam os seus carros até à beira mar para conversar e namorar. Antes da sessão, ao lermos a sinopse ou ao ouvirmos os realizadores a falar um pouco sobre o filme e a ideia, ficamos curiosos por ver as imagens perante uma premissa tão inusitada. E é precisamente aí que nasce a boa surpresa que é “A Ver o Mar”, na forma como tudo foi tão bem concretizado. O trabalho de realização acompanha perfeitamente o conteúdo que transmite, adotando planos fixos, maioritariamente no interior dos carros onde os casais se encontram, colocando ainda o espectador como um terceiro elemento, voyeurista, que se regozija por poder presenciar cada conversa. A naturalidade é omnipresente e as conversas versam sobre as coisas mais simples: sobre as escalas, de zero a cem, que esperamos que possam medir o amor que sentem por nós; sobre o tempo que faz; sobre um corpo jovem que se fixou em fotos, ou, simplesmente, sobre o trabalho ou a família. Esta é aquela curta que sentimos vontade de mostrar a toda a gente, pois existe nela uma universalidade que talvez se traduza naquele sorriso que tão facilmente nos rouba.