Da secção Competição Internacional da 27.ª edição do Curtas Vila do Conde destaco três curtas-metragens: “Bicicletas”, da Cecilia Kang e “O Verão e Tudo o Resto”, de Sven Bresser; e a curta vencedora “Los Que Desean”, de Elena López Riera.

A curta-metragem da cineasta argentina, Cecilia Kang, conta-nos uma pequena história sobre uma cineasta num momento de crise de criatividade. Enquanto o namorado tem a sua rotina diária como um comum trabalhador, levantar cedo, pegar na bicicleta e voltar para descansar, Lila passa o seu dia, sozinha em casa, e como qualquer artista tem a ilusória esperança que irá chegar aquele instante inesperado em que a inspiração lhe trará ao espírito uma torrente inesgotável de criatividade. Candi chega a casa com uma história para contar a Lila: uma “rapariga gira” – nas palavras de Candi – terá danificado o aloquete que usa para amarrar a sua bicicleta; Lila passa mais um dia “à espera”, mas enquanto aquilo que espera não chega, o seu computador serve para muitas outras coisas tais como a visualização de vídeos engraçados ou outros vídeos que lhe despertem o desejo enquanto se masturba; há tempo, ainda, para um banho de chuveiro que pode sempre ajudar as ideias a saírem daquele lugar obscuro onde teimam em ficar ou, simplesmente, olhar-se ao espelho apenas para queimar mais algum tempo. Candi chega cansado, mas com um novo aloquete oferecido pela rapariga “gira” e Lila resiste ao sono e entra madrugada dentro numa galeria de arte onde se imagina a tocar na banda que vê actuar. Enquanto Lila precisa da noite para partir em busca de algo que ela mesma não sabe bem o que é, Candi aproveita recuperar energias para fazer frente a um novo dia de trabalho – e mais uma viagem de bicicleta?  A originalidade da curta de Cecilia Kang reside na forma como mostra o contraste entre as formas distintas de viver do casal. O final deixa o espectador a pensar se essas diferenças pesaram, se a tal rapariga voltou a contactar Candi e abalou a relação ou se a história ficou fechada nos aloquetes e nas viagens de bicicleta. Esta indeterminação final deixa o argumento a pairar, suspenso, algures entre o coração aberto das personagens e a flecha cerebral da nossa expectativa, captando com mais intensidade aquele ponto sem retorno onde a vida não se deixa agarrar.

A curta-metragem de Sven Bresser, “O Verão e Tudo o Resto”, é um coming of age que se foca na personagem de Marc-Antoine. A ilha de Córsega abandonada pelos turistas torna-se o local onde o jovem vive a sua vida pacata, na companhia de um amigo, onde partilham o desejo de voltar ao continente. No entretanto, os dois vão-se ocupando a aparar sebes com os motores das cortadoras a rugir ao som de uma música ou dentro de um antigo Volkswagen que acelera o suficiente para dançar sobre a terra. Marc-Antoine encontra-se numa fase decisiva da sua vida em que tem de escolher permanecer na ilha ou partir para o continente em busca de uma nova vida. No final, o seu amigo parte para o continente, mas Marc-Antoine decide ficar. Decide ir à festa da aldeia, num café à medida do lugar, com um DJ pronto a dar música e animação aos presentes. Marc-Antoine senta-se e tem um momento contemplativo, olhando para a simplicidade da festa com uma expressão que nos comunica uma feliz inocência. Inicia uma dança com uma rapariga e, nesse momento, talvez compreendamos a decisão de Marc-Antoine, pela forma como ambos se entregam àquela singela forma de vida. A curta do realizador norueguês consegue condensar um momento vital decisivo na vida de um jovem, um instante que exige uma forte capacidade de leitura da realidade envolvente e, ao mesmo tempo, um projecto de futuro bem definido. Porém, nem sempre essa agudeza da consciência prevalece, por vezes, as coisas do coração acabam por comandar os nossos passos, mesmo quando pensamos que seguimos autonomamente as leis mais racionais que damos a nós mesmos.

A curta-metragem vencedora dá-nos a conhecer uma peculiar competição de pombos, onde o objectivo não é a rapidez mas quanto tempo um macho consegue passar com a única fêmea do bando. A realizadora traz para a tela uma realidade que lhe é próxima, pois a competição columbófila que assistimos acontece no sudeste de Espanha, na sua terra natal. Este facto faz com que este vídeo se torne num pedaço de memória que Elena decide preservar, que faz parte da identidade colectiva do lugar que a viu nascer. Mas, este seu registo não se esgota nesse arquivo de uma memória colectiva, abrindo portas a outras interpretações sobre a lógica que preside ao jogo. Ao longo da curta, vamos sabendo quais as regras que devem ser cumpridas para encontrar o vencedor. Sabemos que os machos, aos três meses de existência, têm o seu primeiro contacto com a fêmea, que é também o único, pois a abstinência sexual do pombo dura até ao dia de competição. As regras foram implementadas pelos homens que habitam a comunidade e talvez aquelas sejam o inevitável reflexo destes. O animal passa a ser visto como objecto de competição humana, e a própria fêmea torna-se símbolo de troféu, o objecto dos objectos. Os pombos são forçados a deixar a sua natureza para se submeterem a esta lógica humana, que tão amiúde vemos à nossa volta: imaginem um cruzamento entre esta competição columbófila e uma analogia com documentos vindos de uma discoteca. Ou, talvez eu, tal como os pombos, esteja a sobrevoar a obra e a profanar com moralismos uma realidade bastante concreta que em nenhuma das suas partes contém tais abstracções.