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«Da 5 Bloods – Irmãos de Armas» – Spike Lee em busca dos tesouros que precisam ser resgatados

Depois de «BlacKkKlansman», Spike Lee regressa ao grande ecrã com «Da 5 Bloods – Irmãos de Armas». Sem deixar o tom vincadamente político dos seus filmes anteriores, Lee pretende mostrar como o número de soldados afro-americanos enviado para combater no Vietnam mostrava já como a intensa segregação racial se tornou uma jogada política para criar uma espécie de escudo humano na guerra do Vietnam.

Quatro ex-combatentes afro-americanos decidem reencontrar-se no Vietnam com uma nova missão: resgatar os restos mortais do quinto blood, Stormin’ Norman (Chadwick Boseman) e recuperar as barras de ouro que ficaram por resgatar durante a missão em que Norman foi morto. A chegada dos 4 bloods sobreviventes ao território vietnamita suscita a alegria do reencontro assim como reanima algumas marcas do passado como a perda de Stormin’ Norman, o líder espiritual do grupo de soldados que possuía a força ideológica capaz de unir o grupo. Para Norman, as barras de ouro seriam a justa recompensa para a comunidade afro-americana, aquela que verdadeiramente “construiu o país e se sacrificou pela bandeira”. Porém, após tantos anos separados, o duplo objectivo da missão vem fazer resvalar os princípios que Norman deixou ao grupo. Toda a força espiritual que Norman deixou como legado aos seus companheiros de guerra começa a ser posta à prova pelo destino incerto das barras de ouro.

É esta dualidade que Lee coloca em cena para melhor mostrar a tensão entre os valores espirituais e materiais. A ausência de Norman tende a quebrar o princípio agregador dos seus ideais políticos. Se a força espiritual de Norman deve significar união, por sua vez, as barras de ouro, tornam-se o derradeiro teste a essa moral proclamada por Norman.

As barras de ouro vão viajando entre as mãos dos 4 irmãos de sangue e todos os gangues de mercenários que vão aparecendo com o único intuito de colocar gananciosas mãos numa parte do tesouro. Dentro desta luta que os bloods travam para não perderem o ouro, são os fantasmas do passado que vão ressurgindo, principalmente em Paul (Delroy Lindo), a personagem mais complexa e matizada. A presença da selva vietnamita faz Paul viver algumas memórias dolorosas, fazendo com que desconfie das intenções do grupo e deserte sozinho pela selva. A câmara de Lee volta-se directamente para o rosto de Paul, num estilo quase documental, acompanhando a sua jornada e as várias provações que vai experimentando nessa caminhada solitária e perigosa.

A realização de Lee mantém um estilo ao qual já habituou o seu público. A história é entrecortada pela a presença de várias imagens foundfootage, com testemunhos de várias personalidades afro-americanas que foram críticas em relação à guerra do Vietnam –  Muhammad Ali, Malcolm X, Kwame Toure e Martin Luther King .  Para situar o espectador no tempo, Lee coloca na tela uma fraternidade de formatos em constante metamorfose:  colocando as imagens do passado em película de 16mm e as do presente, num formato actual que usa o tamanho do ecrã em toda a sua largura; no meio deste vai e vem entre distintos formatos, entre o presente e passado, ainda se vêm juntar as imagens em Super 8 e a fotografia.

Spike Lee mostra, mais uma vez, o quanto algumas imagens são necessárias, que devem ser repetidas até que os olhos finalmente vejam nelas a mensagem que há muito se quer propagar: “nós fazemos parte”. Para além de um profundo amor ao cinema que Lee sempre consegue de alguma forma colocar nos seus filmes, é esta voz política omnipresente que incansavelmente o realizador traz para dentro de todos os seus filmes, que mostra o poder de um medium que tão bem trabalha e compreende, ao denunciar uma américa que tanto tem desprezado, esquecido e mal tratado um tesouro construído à força de resistência e sofrimento. Spike Lee tem sempre um precioso contributo para acrescentar dentro desse baú, fazendo-o, orgulhosamente, reluzir.

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