desterro-doclisboa-6

«Desterro» – Agora na ficção, Maria Clara Escobar usa suspense para questionar papéis sociais

“Desterro” é a primeira longa-metragem de ficção da roteirista e realizadora brasileira Maria Clara Escobar. Exibido nesta segunda fase do 18º Doclisboa, chamada “Deslocações”, o filme deve entrar em cartaz no circuito comercial, mas ainda sem data definida.

Sete anos após o documentário “Os dias com ele”, em que entrevista seu pai, um intelectual brasileiro, preso e torturado durante a ditadura militar, Escobar agora aborda de outra forma o tema da família tradicional.

Em “Os dias com ele”, a realizadora deixa bem claro o distanciamento entre pai (Carlos Henrique de Escobar Fagundes) e filha (ela). Já em “Desterro” ela mostra o incómodo de uma mulher pelos papéis que precisa de desempenhar quando constitui uma família.

Na trama, a protagonista Laura (interpretada pela dramaturga, atriz e poeta Carla Kinzo) desaparece de casa um dia, deixando em desordem a rotina de seu companheiro Israel (Otto Jr.), de quem não é casada “no papel”, e do filho Lucas. Essa atmosfera de suspense, com pesadelos que fazem despertar, conversas sobre a morte, sirenes muito altas e personagens que não se olham nos olhos, anda junto com um questionamento das funções que indivíduos exercem na sociedade e das instituições (casamento, profissão, relacionamentos).

Laura, Israel e Lucas são uma família branca heteronormativa da classe média (eu diria média-alta, pela casa com piscina) paulistana. Ao conversar com uma amiga, da mesma classe social, Laura desabafa sobre algo que mentiu para Israel e elas se perguntam “por que agimos deste jeito?”. Uma ruptura é necessária para percebermos o quanto as mulheres são silenciadas e isoladas pelas instituições.

As interações sociais no filme não são à toa. Quando Laura interage com a mãe que está a servir a mesa (“senta que depois eu te ajudo”), quando ela se sente relapsa por deixar de prestar atenção no filho por um minuto na piscina ou até mesmo quando pega o metro de São Paulo com um rosto apático e um corpo inerte. A realizadora questiona o tempo todo elementos que estão impregnados, como a tradição católica, a burocracia, a classe média intelectual que não é ativa politicamente e não reflete sobre os discursos que cria. Dentro disso, ela destaca as representações das mulheres sempre ligadas aos papéis de mãe, casada/solteira, monogâmica, dona de casa/dupla jornada, filha, irmã, amiga, devassa, aventureira, sem filhos, sem destino. O que a sociedade sempre espera das mulheres?

O auge de “Desterro” se passa num autocarro, em direção à Argentina, em que a câmara de Escobar interage com outras passageiras além de Laura. Cada uma delas apresenta vivências com opressões diferentes. As atrizes dão depoimentos que podem ser reais ou criados por elas (provavelmente são reais) e mostram como querem ser lembradas. Vê-se Isabél Zuaa a falar que “se preciso, eu fujo para o mato” e Georgette Fadel a declarar que “estava presa numa família”. Bárbara Colen recita alguns dos poemas feministas mais famosos da brasileira Angélica Freitas, que abrem o livro “Um útero é do tamanho de um punho” (2012):

uma mulher insanamente bonita
um dia vai ganhar um automóvel
com certeza vai
ganhar um automóvel

e muitas flores
quantas forem necessárias
mais que as feias, as doentes
e as secretárias juntas

já uma mulher estranhamente bonita
pode ganhar flores
e também pode ganhar um automóvel

mas um dia vai
com certeza vai
precisar vendê-lo

Maria Clara Escobar, que também é poeta, encerra essa jornada desterrada da Laura com uma metáfora visual, a atear fogo, para explicitar que é preciso morrer para renascer, destruir para transformar qualquer coisa. Não adianta apenas mudar algumas peças do que já é estabelecido pelas estruturas sociais.

«Desterro» – Agora na ficção, Maria Clara Escobar usa suspense para questionar papéis sociais
Classificação dos Leitores0 Votes
4