“Diamantino”, produção luso-brasileira-francesa, é o novo filme escrito e realizado por Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Esta dupla de jovens cineastas já tinha assinado várias curtas, mas nunca antes uma longa-metragem.

A estreia mundial deu-se no Festival de Cannes 2018, na secção paralela “A Semana da Crítica”. O júri, presidido pelo realizador norueguês Joachim Trier (“Ensurdecedor”, “Thelma”), premiou “Diamantino” com o Grande Prémio. Nos Palm Dog Awards, que premeiam as melhores actuações caninas nos filmes de Cannes, o filme venceu a segunda maior honra, o Grande Prémio do Júri. O primeiro lugar – a Palm Dog (sim, um trocadilho com Palme d’Or) – foi atribuído ao elenco canino de Dogman”, do italiano Matteo Garrone.

“Diamantino” abre com uma imagem do espaço sideral, povoado por astros – o que é adequado, dado que o que estamos para assistir é de outro mundo. A personagem principal é Diamantino, uma estrela do futebol.

Ora uma breve sinopse do filme: vários episódios traumáticos levam Diamantino a desistir da carreira futebolística e adoptar um refugiado como filho. Mal sabe ele que este filho é na verdade uma agente dos Serviços Secretos portugueses, destacada para investigar o seu envolvimento em lavagem de dinheiro. Paralelamente, as irmãs de Diamantino negoceiam um esquema de manipulação genética com um grupo nacionalista extremista. Parece confuso? Por certo.

O filme é essencialmente uma paródia e uma sátira. Comecemos pelo carácter paródico. A personagem de Diamantino é sem dúvida uma caricatura de Cristiano Ronaldo. Carloto Cotta (ator em “Arena” de João Salaviza, e no fascinante “Tabu” de Miguel Gomes) interpreta um futebolista excepcional, dito mesmo o melhor do mundo, que é também rosto de numerosas campanhas publicitárias e modelo da sua própria marca de cuecas. Vive com as duas irmãs mais velhas e, ainda que não especificada a sua naturalidade, o sotaque aponta para um dos arquipélagos portugueses. Em casa – antes, em casarão – não faltam almofadas e lençóis estampados com a cara de Diamantino, uma ideia cómica e porventura uma realidade no clã Aveiro.

A grande diferença entre os dois está na personalidade: a confiança e pompa de Ronaldo opõem-se à vulnerabilidade e simplicidade de Diamantino. A personagem é também muito ignorante, o que proporciona tanto os melhores como os piores momentos do filme. Diamantino alimenta-se de Um Bongo e Nutella, guarda no computador uma fotografia de um cãozinho com o título “Ai lindo.jpeg”, e levanta 7 dedos da mão quando fala do Samsung 9. Porém, o seu vocabulário inclui palavras como “cerne” e “epifania”. É um contraste hilariante, que muito deve ao desempenho de Cotta, que se entrega completamente ao papel. Infelizmente, a infantilidade da personagem é frequentemente tão extrema que o efeito pretendido não é o alcançado: o espectador não se simpatiza, nem se comove com Diamantino. O filme não é capaz de navegar a ténue linha entre tolo enternecedor e irrisoriamente estúpido.

Analisemos agora a natureza satírica do filme. A dupla de cineastas pretendera com “Diamantino” fazer um retrato do mundo actual, um comentário sobre o momento da história que vivemos. Para tal, socorreram-se não de um, não de dois, mas de uma dezena de temas. Durante os seus 90 minutos de duração, o filme faz referência à crise dos refugiados, ao Brexit, à eleição de Donald Trump, à construção do muro na fronteira com o México, à clonagem, aos “Panama Papers” e aos paraísos fiscais, à desconstrução do género e do sexo, ao ressurgimento do nacionalismo, ao papel das redes sociais e até à cultura de memes. Não só nenhum destes assuntos é devidamente aprofundado, como o diálogo é jamais subtil. É constrangedor o quão óbvio o argumento consegue ser ao incluir falas como “Vamos tornar Portugal grande outra vez” ou “Vote sim à muralha”. Não há nuance.

O que o filme tem de mais interessante é a fotografia de Charles Ackley Anderson. Colaborador frequente de Schmidt, incluindo em 2016 como cinematógrafo do videoclipeHopelessness”, de Anohni, Anderson confere ao filme um certo encanto visual, recorrendo a cores berrantes que condizem com o tom absurdo de “Diamantino”. A sequência mais memorável é seguramente a dos cãezinhos em tamanho gigante que envolvem o campo em nuvens cor-de-rosa para ajudar Diamantino a marcar golo. Constitui também uma forma criativa de salientar a infantilidade do protagonista. Oxalá houvesse mais momentos assim.

“Diamantino” foi a primeira longa-metragem de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Mais virão, assim esperamos, pois que bom que é ter novas vozes no cinema português. Contudo, a vontade de apoiar uma nova geração não é desculpa para apoiar um filme saturado de ideias, que exagera na caricatura e que carece de subtileza. Melhores virão, assim esperamos.

Realização: Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt
Argumento: Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt
Elenco: Carloto Cotta, Cleo Tavares, Anabela Moreira
Portugal/2018 – Comédia
Sinopse
: O maior astro de futebol do mundo perde o seu toque especial e termina a sua carreira em desgraça. Em busca de um novo propósito, o craque inicia uma odisseia delirante onde enfrenta o neofascismo, a crise dos refugiados, a modificação genética e a busca pela fonte do génio.

«Diamantino» – Paródia de Ronaldo tem ideias a mais e piadas a menos
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