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Diários de calamidade: (re)ler Maio de 2020 (Parte 2)

Uma calamidade (ainda) do presente: um alerta do passado para o futuro do sector cultural

18 de março de 2020: num passado (não tão) distante, as portas fecharam e o país parou. Um inimigo (in)visível comum alastrava-se pelo território, ameaçando as vidas de todos aqueles que conhecemos e de todos aqueles que, agora, nunca poderemos conhecer. A paralisação determinou inevitavelmente a queda e a destruição de tudo aquilo que tomávamos como garantido: a possibilidade de abraçar um amigo, a possibilidade de dançar em comunhão, a possibilidade de ver – e fazer – um filme.

Mas um inimigo nunca vem só: em Portugal e pelo mundo, as inúmeras fragilidades do sistema pelo qual nos regemos tornaram-se não só evidentes mas, acima de tudo gritantes. As raízes das falhas do chão – já de si frágil – que todos os dias pisamos brotaram na criação de um terramoto que avassalou territórios, comunidades e indivíduos.
A denúncia da emergência de solução, de auxílio, em pouco resultou. E, no caso do setor da cultura, muitos gritaram para um vazio preenchido de ecos, mas com poucas – ou ineficazes – respostas.

6 de julho de 2020: neste presente de reintegração nesta nova realidade condicionada – em que ainda não devemos abraçar um amigo, ainda que ainda não devemos dançar em comunhão -, em que questionamos, a todo o momento, a nossa posição no tempo e no espaço, urge revisitar o passado. Devemos fazer filmes, devemos ver filmes, mas devemos, acima de tudo, não esquecer esse passado que ainda domina todos os passos que damos em frente. Urge repensar e questionar o sistema vigente, para que esse passado – não tão distante – seja também, um dia, uma lembrança do início de uma revolução, do início de uma mudança. O primeiro passo de luta contra as diversas calamidades (que não começaram só este ano e) que ainda hoje enfrentamos.

Neste artigo, serão apresentados dois depoimentos de elementos do setor cultural, escritos em maio de 2020. Uma pequena amostra que pretende servir de documento do passado, para (re)leitura no presente e no futuro.

Liliana Gaito (Escritora/argumentista e produtora audiovisual freelance)

Sou freelancer e desde o inicio de fevereiro que estava a trabalhar na pré-produção de um filme. Assim que o vírus chega a Portugal, logo no inicio de março, fui enviada mais os meus colegas de escritório para casa.

A situação manteve-se assim: trabalhar a partir de casa até ao fim do mês de março. Esta situação de quarentena/vírus não ajudou nada porque o dono da produtora decidiu pagar um valor completamente irrisório pelo meu trabalho, que mesmo sendo feito em casa era executado. Valor esse de 200€ que só recebi (após fazer diariamente pressão) a meio de abril. O filme ficou então suspenso até tudo isto acalmar. Ou seja, até lá, eu fiquei à minha mercê.

Não faço parte do conjunto de pessoas que recebe os apoios do estado, pois as regras assim o ditam. Não tenho três meses consecutivos de recibos verdes em 2019. De momento, estou totalmente dependente dos meus pais.

Estou neste momento a enviar CV para todo o tipo de trabalho que posso fazer a partir de casa, pois não me sinto segura em voltar para uma atividade que ponha em risco a minha saúde e dos demais.

Espero puder receber esse apoio, pois, mesmo que pouco, já é uma ajuda e até lá é continuar a fazer o que tenho feito: mantendo-me ocupada nos meus projetos e encontrar algo onde possa trabalhar a partir de casa e que me dê um pouco mais de independência.

Acho que o setor artístico (abrangendo cinema e por aí) é sempre o mais prejudicado por ser precário e por na cultura portuguesa ninguém valorizar o quão importante é o cinema, a música, o teatro e por aí adiante.  É triste muitos de nós ficarmos sem qualquer tipo de apoio, pois há quem tenha de pagar casa ou outras despesas. Eu tenho a sorte de ainda viver com os meus pais e não ter esse tipo de “preocupação”, mas torna-se insuportável e frustrante não ter qualquer fundo de maneio para a minha independência.

Não querendo ser negativa, mas eu acredito que está situação só melhora após uma vacina e até lá iremos viver em quarentena, pois os números já aumentaram após o desconfinamento. Por isso, não sei muito bem o que pensar e dizer sobre isto porque é tudo muito frustrante e incerto.

Miguel de Jesus (Realizador)

Mudei-me para a Austrália em Julho de 2019. Inicialmente fui viver para a Tasmânia, local de onde a minha esposa é natural.

Estamos a viver em Melbourne desde Novembro – a minha esposa deixou a universidade por acabar quando foi para Portugal e a produtora australiana com quem trabalho está sediada em Melbourne.

A nível pessoal, casei-me em maio de 2019 de uma forma muito formal e célere na conservatória em Lisboa, uma semana antes da minha esposa partir. A intenção era termos uma cerimónia este ano na Tasmânia com membros da minha família e amigos mais próximos vindos de Portugal e essa cerimónia foi adiada indefinidamente.

Um amigo muito próximo também se irá casar em setembro em Portugal e não sei se o casamento ainda irá acontecer na data prevista, em que termos e se poderei estar presente.

Felizmente não tenho conhecimento de perda de trabalho por parte dos meus familiares, apenas se estão a adaptar ao trabalho a partir de casa.

O meu pai, que é o centro da ação do meu primeiro filme e que padece de um cancro sem cura, está seguro pelo facto de viver numa aldeia remota de vinte habitantes onde a pandemia não chegou. No entanto, requer cuidados médicos com grande regularidade e nem sequer sei de que forma ele está a gerir essa situação. O mais provável é que não estará neste momento a ser visto ou monitorizado.

A nível profissional, é mais complexo. O meu primeiro filme estreou no Doclisboa e recebeu o prémio do Júri da Competição Portuguesa. Perspetivava uma estreia internacional de uma forma um tanto ou quanto natural, mas os festivais têm sido cancelados, adiados ou seguem para o formato online, escolhendo um número muito reduzido de filmes comparativamente ao que costumam selecionar. Neste momento, a estreia internacional ainda não tem local ou data marcada e nem sequer faço ideia se terá uma.

O meu próximo filme será rodado numa localidade remota na Tasmânia, e conta com produção portuguesa e australiana e apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Está em processo de financiamento – ICA, Screen Australia, etc -, e para tal, tenho de me deslocar à Tasmânia para desenvolver o projeto, algo que é impossível visto que a Tasmânia tem regras muito próprias, neste momento. Ao chegar, serei escoltado para um hotel perto do aeroporto e terei de fazer quarentena obrigatória de duas semanas num quarto de hotel guardado pelo exército, algo que neste momento não posso fazer. O concurso do ICA é em junho e não sei se me posso candidatar ou em que termos me irei candidatar. As conversações para apoio logístico ou financeiro por parte das entidades competentes na Tasmânia estão neste momento em completo standby.

Para além disso, o filme acompanha uma pequena comunidade em nenhures na ilha e todo o seu modus operandi está comprometido nos tempos vindouros.

Filmei uma curta-metragem com o apoio da GDA, que está em processo de finalização. Foi filmada entre Portugal, Qatar e Austrália e todo o processo para acabar o filme foi adiado, devido a todas as restrições vividas deste lado. Parte da finalização era para ser feita em Portugal e, neste momento, é tudo uma grande interrogação.