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“Distrito 9” – O Transcorpo e a Racialidade

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A mutação dos corpos, a sua transcorporalidade, a sua transferência de fluidos, peles, órgãos e funções é uma quimera da técnica: como se pode passar de uma máquina para outra, como se pode instituir uma nova corporalidade sobre uma outra que é também uma consciência de um corpo já existente? Território fértil para essas indagações, a Ficção Científica sempre foi um género mostrador e questionador das corporalidades dúbias e múltiplas, trocadoras e transferidoras, e neste “Distrito 9”, de Neill Blomkamp, ela encontra uma formulação que muito se imbrica com o transcorpo dos tempos contemporâneos.

Mas, o que é o corpo neste filme? É um objeto-sujeito de mutação completa, um que passa do um-corpo para o corpo-outro, quer na sua completa transfiguralidade externa, quer na sua ambiguidade auto-figural e ontológica. Wikus van de Merwe (Sharlto Copley) transforma-se de humano em não-humano enquanto combinação do corpo de si e do corpo fora de si. Ele torna-se um outro mas, efetivamente, fica como si enquanto outra entidade duplicada: ele é sua anterioridade corporal e a sua novidade de corpo e é a sua consciência de si, na forma da lembrança-interioridade e consciencialização da nova exterioridade. Ele é outro e ele próprio, um novo si dentro de um (lembrado) anterior si. Ele é a terra de ninguém da sua subjetividade, a positivação de uma humanidade pela negação da sua forma humana. É um corpo-estranho pela positivação e humanização de uma forma outra, e essa é a sua fertilidade: no corpo-outro, espaço vazio desprovido de uma significação de reconhecimento (a absorção/transformação corresponde a um apagamento ou a uma reformulação sígnica), mas que tem em si a semente de uma re-significação, não só biológico-corporal, mas também simbólica: o seu corpo-terra de ninguém, retirado de uma subjetividade anterior (não reconhecida, pela negação da forma) torna-se um espaço de construção de uma outra – pelo equilíbrio da negação-positivação – forma subjetiva de um reconstruído eu, ele é tanto humano como não humano porque é ambos (e não é nenhum), ele é tanto si como tanto um outro (porque é e sempre será a mescla e absorção de um no outro, não obstante a forma de fora. Poderá sempre ser o novo que quiser vir a ser porque contém em si as peles e os fluidos daquele que foi. E, num pleno filme de género, o transcorpo é signo contemporâneo, é alegoria e, ao mesmo tempo, clareza das mutações da forma-corpo e do modo-corpo que definem as lógicas atuais do biológico humano e que podem sempre ser – e para sempre ficar – no domínio do intermutável, do inter-mesclável, do diferencial e do binário. Para além da mera transformação de humano em alienígena, o sedimento alegórico é cristalino: o corpo biológico, forma e subjetividade, é transmutável, mantedor, construtor e reconstrutor das percepções da singularidade da consciência que transmuta a sua corporalidade.

Mas a alegoria é também outra: a da racialidade. Por transferência e substituição, e um setting insuspeito que é a África do Sul, Blomkamp fala sobre a segregação, a separação, a classificação, a agregação e movimentação social dos corpos raciais. Se os extraterrestres não são os negros do apartheid, são a sua manifestação espelhada: esse mesmo Distrito 9 é um gueto, é um espaço de empobrecimento e de desurbanização, é o grande bairro – uma ultra-suburbanidade negativa – das barracas e do lixo espalhado. E, sempre por entre esse mesmo filme de género que é este Distrito 9, o comentário vai sendo desfilado de forma clara e sem enganos: é o maltratar do corpo outro, o seu segregar, o seu não compreender, o seu não permitir a inscrição, que definem a postura de decréscimo, de involução civil e civilizacional.

A ironia é tanto maior quando a raça-outra (denominados como “Camarões”, numa referência de derisão morfológica) é mais avançada tecnologicamente do que a raça agora dominante. O facto de que um ser biologicamente mais idoso e proficiente (só com mais idade temporal absoluta pode uma civilização ser, técnica e tecnologicamente, mais evoluída e, em comparação, com um maior avanço sobre uma outra) como o extraterrestre Christopher Johnson (Jason Cope) – nomeação e classificação de um corpo pela lógica de uma outra linguagem que não a sua – tenha que se baixar e que esboroar, por entre todo o lixo, para poder encontrar o fluido tecnológico que é a marca da sua superioridade (e forma de movimentar a nave-mãe que paira sobre Joanesburgo) sobre quem o domina, efetiva realmente uma função-racialidade que só se pode basear na negação da obtenção da riqueza e do uso da materialidade técnica a quem se quer subjugar.

Mais ainda se cristaliza esse olhar auto-irónico sobre a função- racialidade – e como ela, no seu modo económico-social de subjugação do outro, esvazia de sentido o humano enquanto figura civil – na forma como Wikus, e para além da sua extrema transformação corporal, experiência uma outra mutação, bem mais profunda: passa de ser o burocrata desumanizado que tem a função de expulsar os extraterrestres das suas barracas, sempre mal tratador e rebaixador daqueles outros, para passar a ser – de uma forma progressiva – um ser cada vez mais humanizado, na exata medida em que vai deixando de ser, no exterior, um corpo humano. Ele torna-se, por sua vez, racializado: passa a ser o outro, o dominado, o mal chamado, o segregado. A sua subjetividade – pessoal, civil, existencial – é reconstruída, ele é mais capaz de compreender as verdades do corpo outro e da língua outra: Christopher (qual será o seu nome real, o da sua corporalidade morfológica própria?) é também um pai, o seu filho CJ (Jason Cope – voz) é também um ser, também ambos querem e podem regressar ao seu espaço-terra de origem.

E estas são as reflexões/amostragens que perpassam este filme, um que nunca se esquece de que é um enérgico filme de ação, mas um que, para lá da sua formulação de género, é também um profundo estudo alegórico dos tempos e modificações contemporâneas.

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