“A Doce Vida” é um dos vários clássicos do cinema que podem encontrar online na plataforma Filmin.

Em “A Doce Vida”, Fellini não está preocupado em contar uma história coerente ou linear, e isso é bastante visível neste filme – assim como em “Oito e meio”. O realizador constrói uma série de blocos narrativos que vão sendo moldados à medida que o seu protagonista se vai aventurando; ele não busca grandes finalidades na sua acção, o que ele busca, até à exaustão, são acontecimentos.

Marcello Rubini é um jornalista em tempos de máximo despudor na invasão da vida privada, que vive numa tensão entre a monotonia da sua vida doméstica – quase ausente – e o frenesim boémio do mundo das artes, para onde é arrastado pelas vicissitudes do seu trabalho. É este contraste que atravessa todo o filme. Todas as personagens com quem Marcello se cruza têm algo a dizer sobre si mesmas, sobre a vida; todas elas lhe vão acrescentando algo novo e a trama avança ao sabor da contingência dos encontros do jornalista.

O encontro com Sylvia (Anita Ekberg) reflecte o poder de encantamento da beleza. Rubini não consegue resistir ao charme da bela atriz e segue-a numa aventura nocturna pelas ruas de Roma: a jornada começa com os estranhos uivos de Sylvia, passando por uma fontana di trevi, cheia de luz e água jorrante, mas que com a chegada da luz do dia, e com o cessar do movimento das águas, depressa se torna um lugar monótono, cortando o sentido de toda a efusividade e excitação dos protagonistas; porém, a jornada nocturna acaba com uma outra animalidade, mais violenta, vinda desde o egocentrismo de Robert (Lex Barker) – marido de Sylvia – mostrando que a moral pode ser o pior dos vazios, pelo seu grande poder destrutivo… Nada parece escapar ao olhar atento de Fellini: o estrelato, o dinheiro, o vazio da mera espontaneidade, o vazio do moralismo…

O outro episódio que pretendo destacar, por fazer contraste com o anterior, é o encontro com Steiner (Alain Cuny), um amigo que Rubini não viu muitas vezes, mas com quem criou uma forte empatia. São duas pessoas com personalidades e modos de estar na vida bastante diferentes. Marcello admira Steiner por este conseguir aquilo que ele não consegue, ter uma vida aparentemente pacífica, dedicada ao lar e à família. Porém, na noite em que Rubini e a sua namorada Emma (Yvonne Furneaux) passam um serão na casa dos Steiner, estranhos sintomas vêm à tona, que nos dão a entender que toda aquela calma e felicidade pode esconder uma forte angústia.

Marcello vive nesta procura constante por algo que parece não ter resposta, pois é a própria vida que retorce os caminhos e os encurva para que nós possamos aprender algo com a componente caótica e imprevisível da vida, sem aí nos afundarmos à procura de nós mesmos. Esta é a forma de estar moderna, é a intensificação do desespero hedonista e frenético ou de uma angústia paralisante, que são formas diversas de reagir à perda das velhas e sagradas transcendências que nos impunham o sentido da vida e nos diziam como viver.

Fellini é um mestre da grandiosidade, da alegria, da simplicidade, da beleza… e quando alguém tão pleno faz cinema, seria difícil não espelhar nas suas imagens todo esse génio que em si vive. Talvez não existam grandes critérios teóricos para distinguir os bons e os maus filmes, porque os bons provocam-nos uma estranheza imediata: nós não os vemos, são eles que nos vêem a nós…

Realização: Frederico Fellini
Argumento: Frederico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Brunello Rondi, Pier Paolo Pasolini
Elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée
Itália, França/1960 – Comédia, Drama
Sinopse
: Marcelo é um colunista social. Numa das suas reportagens reencontra Maddalena e passa a noite com ela num quarto de prostitutas. Quando regressa a casa descobre que a sua namorada, Emma, se envenenou por causa dele. Logo a seguir vai ao aeroporto esperar a famosa estrela Sylvia. Irá com ela para fora uns dias… “A Doce Vida” é a crónica de uma sociedade decadente sem valores para além do sexo e álcool e sem soluções exceto o suicídio. Uma das obras primas de Fellini.

«A Doce Vida» - Viver entre a escassez de humanidade e o seu excesso
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