Com três curtas já realizadas, “Paulo Neves – Cucujães, The Center of my World” (2011), “Píton” (2011) e “Torres” (2013), todas elas documentos de um olhar progressivamente mais apurado sobre as temáticas do real, André Guiomar revelou-nos o seu quarto projeto, “Pele de Luz”, no DocLisboa 2018.

“Revelar” lembra a expressão “trazer à luz”: retirar da sombra e encher de claridade. “Pele de Luz” é um filme quase orgânico neste sentido, como que se de uma fotossíntese se tratasse, em particular no plano em que Isa seca o cabelo à luz do sol, imagem destacada no póster do filme, com a sua pele a irradiar e a encher o plano como que afastando as trevas da magia negra.

“Pele de Luz” é a história de Anifa, que sobrevive a uma tentativa de rapto em Maputo, e Isaura, a sua irmã, conhecida por Isa, que vive com o medo que brota da magia negra e do tráfico dos corpos de africanos albinos com a promessa de trazerem boa sorte e riqueza.

“Pele de Luz” venceu o Prémio Kino Sound Studio do Júri da Competição Portuguesa na edição de 2018 do DocLisboa.

Nuno Sousa Oliveira: De onde nasceu “Pele de Luz”?

André Guiomar: Estava há quatro anos sem realizar. Trabalhei noutros projetos como diretor de fotografia e editor, senti que já tinha amadurecido o meu olhar por Moçambique. Ideias tive-as desde que cheguei cá, mas fazê-las nos primeiros meses ou quatro anos depois, é bem diferente.

Pouco tempo depois de me assentar em Moçambique, aceitei criar um projeto de retratos e pequenas histórias com um amigo. Era um passatempo, mas aproveitei-o para descobrir bons temas. Quando estava a conceber uma longa documental com a junção de seis dessas pequenas histórias, uma delas era a história da Anifa, uma albina que tinha sobrevivido a um rapto em pleno coração de Maputo. Antes do meu regresso a Portugal, surgiu finalmente a oportunidade de realizar uma curta-documental e escolhi-a porque era essa história que interessava aprofundar naquele momento. 

NSO: Documentar é estabelecer um diálogo de proximidade. Como foi a reação inicial de Anifa e Isa em relação a deixarem-se filmar?

AG: Para a Anifa foi muito fácil, ela é bastante social e confiante. Está envolvida no parlamento juvenil onde levanta questões sobre os direitos das mulheres e dos albinos, portanto o filme acabava por ser outra forma de se envolver nessas questões.

Para Isa foi um bocado diferente. Ela é mais tímida e nos primeiros dias só aparecia perto da câmara uns segundos, só de passagem. Mas eu gosto de passar tempo com as pessoas e de deixar as coisas acontecer. Ela acabou por “ganhar o seu espaço”. Esse seu lado mais misterioso foi o que me sugou a atenção para tentar chegar mais próximo e perceber de que forma os problemas levantados pelo rapto, tráfico e pela magia negra a afetava.

Passei, no total, dez dias completos com elas e não tínhamos propriamente um programa. Gosto muito do que a vida me põe à frente e de decidir o que aproveitar dela. Para isso, é preciso tempo. Tentei sempre que fizessem a sua vida normal para perceber de que maneira havia ali uma história para contar. O filme acabou por ser muito a minha própria procura do que é que os silêncios de Isa tentavam comunicar.

NSO: Que vantagens e desvantagens encontra no documentário em relação à ficção?

AG: São exercícios bastante distintos, seja pela parafernália que normalmente a ficção exige, e o documentário não, seja pela dinâmica de criação que é completamente díspar.

Há também o lado de as pessoas atribuírem uma veracidade ao documentário que pode funcionar como uma facilidade para que elas se identifiquem com a matéria em questão, mas que em termos narrativos é mais limitada do que aquilo que a ficção pode fazer.

Mas, para mim, tem mais a ver com a forma como gosto de trabalhar o processo criativo. Preciso de tempo e uma equipa pequena, algo que em ficção se torna complicado. Ao mesmo tempo, o documentário tem algo a ver com o meu próprio fascínio por muita coisa que vou encontrando naquilo que a vida tem de incrível, de inacreditável. Por isso, para já sim, tenho uma ligação maior ao documentário e acho que é onde estarei nos próximos anos, mas a ficção estará por cá também.

NSO: E como foi adaptar-se à realidade moçambicana?

AG: A minha relação com Moçambique não é perfeita nem mútua. Se o fosse, provavelmente não voltava para filmar. O processo de adaptação a uma realidade tão distinta teve momentos de fascínio, dúvida e revolta. Fico aterrado com muita coisa que se passa neste país e tento perceber o porquê, mas não acredito em respostas únicas e radicais. Os problemas são sempre muito mais profundos e as razões muito ramificadas. Há histórias que têm tanto de surreais como de inspiradoras.

De resto, gosto de conhecer várias zonas do país, mas não tenho uma boa relação com Maputo. Não acho que seja uma verdadeira representação do que é Moçambique.  

NSO: Como é fazer cinema em Moçambique em relação a filmar em Portugal?

AG: É, como em quase tudo, difícil. A falta de profissionais qualificados é gritante e foi um dos programas que tentámos desenvolver durante estes quatro anos através da formação de alguns técnicos. Ao mesmo tempo, há pessoas que tem uma força de vontade e uma energia imparável e é preciso que o ensino as consiga aproveitar.

Em relação a fazer cinema, há uma necessidade de aprender os ritmos de Moçambique. As coisas rolam de outra forma, mais lenta. Há que entender e aproveitar isso, e nunca passar por cima e atropelar o que nos aparece.   

NSO: O cinema africano é praticamente desconhecido. Contudo, realizadores como Ousmane Sembene, Idrissa Ouedraogo, Djibril Diop Mambéty, entre outros, são cineastas de grande nível. O cinema africano diz-lhe alguma coisa? 

AG: Nem por isso, o cinema africano e as suas histórias (aqui incluo também a literatura) transmitem quase sempre um universo narrativo no qual não me consigo reconhecer (pelo menos da forma que o colocam). O misticismo, os rituais e o espiritual são assuntos, para mim, demasiado recorrentes. A mim interessam-me outras coisas que encontro em Moçambique, algo mais ligado ao emocional, ao estado presente das coisas reais, ao modo de funcionamento de uma sociedade tão diferente.

Mas se tivesse de escolher algo que vi recentemente e que vai de encontro a um universo que gosto, seria o “Timbuktu” de Abderrahmane Sissako.

NSO: Falando de cinema europeu, sei que Theo Angelopoulos é um dos seus eleitos…

AG: A minha relação com Angelopoulos vem da universidade. Estudar com profundidade um realizador e muitos dos seus filmes faz-nos carregar durante muito tempo essa admiração. Com ele aprendi a importância do tempo, do plano de sequência como um valor de atribuição de sensação da realidade em contraponto com algo tão teatral, de respeitar cada detalhe e cada arte envolvida num filme e a ter disponibilidade para apreciar a beleza das coisas. Tudo isto são aspetos em declínio no tipo de sociedade em que vivemos e que provavelmente fará com que o seu cinema seja cada vez menos visto e procurado. Seria uma perda enorme.   

NSO: Fazer cinema em Portugal é difícil, moroso e, muitas vezes, ingrato. Como agravante, os cineastas portugueses têm cada vez mais dificuldade em encontrar público. Sendo um desses cineastas, partilha dessas frustrações?

AG: Acho que o cinema tem uma batalha difícil e ingrata com o aparecimento das redes sociais. A literatura também, e se calhar ainda mais. As pessoas estão profundamente mergulhadas na sua vida virtual (já que a real está assoberbada de trabalhos, problemas, dívidas) e o entretenimento ganhou e ganha cada vez mais espaço e necessidade. Temos hoje a sociedade mais bem formada, mas, curiosamente, às vezes parece a mais “robotizada” e que menos pensa. Com isto é difícil lutar contra uma “entretenização” do cinema e uma perda do seu lado mais criativo.

Tenho uma profunda admiração por muito do cinema que se faz em Portugal, na mesma proporção em que me sinto muitas vezes frustrado com outro tanto do que se faz. Há, por vezes, uma distância demasiado grande entre o autor e o público. Mas tenho visto recentemente muito bom cinema nacional e todo ele muito diversificado. Penso que o segredo para que possa crescer será apostar mais em distribuição, que é algo que parece estar apenas numa fase embrionária no país, ao contrário de todas as outras fases de produção. Os filmes existem, mas têm de conseguir chegar a mais públicos.

A distribuição do filme esteve a cargo da Real Ficção.