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DocLisboa 2021: um sinal de acalento para obcecados pela Sétima Arte

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O Zeitgeist fez dos eventos culturais como um todo, mas especialmente os festivais de Cinema, algo imprescindível para todo um setor, mas também pelo fato de poder exercitar uma volta à normalidade depois que o mundo capotou e nos obrigou tanto tempo ao recluso, a abdicar de relações sociais e todo o desdobramento disso.

Chegar para noites de exibição e debates num cinema como espaço físico e, botar fim o quadradinho Zoom em frente à tela do computador foi um alívio e um deleite.

Decerto que a presença mais urgente e mais inadiável nos 11 dias do festival, foi a de Sérgio Silva; curador, programador e ex-funcionário da Cinemateca Brasileira. Ele foi o retrato vivo do plano sistemático de destruir o Brasil e com ele, a sua pilastra mais poderosa: a cultura.

Também a presença de Realizadoras mulheres do cinema autoral brasileiro mostrou que também se exercitam em resistência, em diferentes nuances e intensidades.

Outra bússola sobre a situação do Brasil acontece no dia 04/11, com a estreia do filme “Marighella”, dirigido por Wagner Moura. O filme que teve Première na Berlinale 2019, só conseguiu agora estrear em circuito nacional. Várias vezes a ANCINE (Agência Nacional de Cinema) colocou empecilhos burocráticos para a produtora O2 Filmes, como uma censura enrustida.

Os caminhos pro cinema

No Portfólio do Festival DocLisboa, o foco temático e a programação fizeram jus ao tempo em que vivemos: a preocupação com o planeta, como os relacionamentos e com a urbanidade e cidades que se gentrificam até ficarem irreconhecíveis. Porém, em termos de logística, faltou um esquema de mobilidade com ônibus com carga horária adaptada ao evento que defende o lema que “O mundo cabe em Lisboa”. Esse lema tem todo o potencial de se tornar uma cartada genial de Marketing, mas ainda precisa ainda ser preenchido com medidas concretas. Se os táxis normais são produto raro em fim de noite, até mesmo nos fins de semana, isso nada se compara a tarefa de Hercules em conseguir um táxi numa quinta-feira às 23 horas no miolo do centro de Lisboa. Decerto que como berlinense, vivendo numa cidade que tem em seu DNA político a agenda da mobilidade como um exercício diário e até mesmo radical, salta ainda mais aos olhos como se faz necessário possibilitar a ida ao cinema de diferentes setores sociais, também para os quem não tem recursos financeiros para bancar o Uber ou táxis.

Encontros/Reflexões

Os filmes da diretora alemã Ulrike Ottinger, exibidos na Cinemateca, se mostraram mais atuais do que nunca. Em ‘Dorian Gray im Spiegel der Boulevardpresse” a diretora faz critica ácida no cinismo dos detentores do monopólio de informação e escolha de pautas sem quaisquer escrúpulos. O papel da mídia e os conchavos políticos assim como e a melhor  maneira de exercitá-los mantendo o colarinho branco. A música concebida por Per Raben deu ao filme a dose exata entre o drama dos abismos pessoais e acirrada crítica social. Amantes das fitas e especialmente quem percebe o cinema diretamente acoplado e inseparável das conversas após as sessões, tiveram um banquete com os debates com a presença da diretora e que entrará o para a história do festival: pelo tarde da hora, pelo número de perguntas e pela própria relevância da Retrospectiva de Ulrike Ottinger; a primeira em Portugal. Conversar e discutir sobre Fitas até as 0:40 horas é um ato sagrado e nada mais importa.  Delicatessen sensorial tivemos naquela noite e naquela madrugada,  olhos sedentos da plateia. No assento da frente, lá estava o presidente da Cinemateca, José Manuel Costa, como Master of Ceremonies na última noite na qual a diretora esteve em presença física no festival.

José Manuel Costa, Diretor da Cinemateca Portuguesa, e Ulrike Ottinger

Teimosia em realizar

A edição 2021 leva a assinatura de uma equipe, em sua maioria composta por mulheres, das mais bem humoradas e competentes que o festival recente já viu. Somente algumas funcionárias de uma das Venues mais importantes, ligadas ao cinema Cinema São Jorge, incomodaram demais ao “patrulhar” visitantes durante a sessão para conferir o uso de máscaras, ao mesmo tempo que esqueceram de controlar o uso permanente do telefone celular. Decerto que o cuidado e o cumprimento das regras referentes à pandemia são importantes, mas é preciso haver um nível equilibrado seguido pelo bom senso e pela situação específica e com a devida sensibilidade. Os corredores e as salas de cinema são polos culturais. Uma rigidez absoluta não combina com esse lugar.

Quem ama, cuida

O ditado popular muito presente em conversas no Brasil serve também para o lidar com o acervo de cinema na ANIMA, arquivo geral da Cinemateca Portuguesa, uma fazenda que fica a 30 minutos de Lisboa . Para uma segunda-feira de fim de verão, foi agendado para a imprensa uma Visita Guiada por solo tão valioso. Jornalistas da Noruega, Brasil, Alemanha, EUA. Jornalistas sedentos por Insights, passaram o pente fino no local, que exerce um fascínio desde a rampa íngreme a subir. Tem-se a impressão que chegou a hora da Colónia de Férias.

Cinemateca Portuguesa

Tiago Baptista, Diretor da ANIM e Tiago Bartolomeu Costa foram os anfitriões durante a Visita Guiada que durou duas horas incluindo a exibição de um filme restaurado do diretor Pedro Costa “O Copejo” que aborda o copejo de atum na Costa do Algarve. As pérolas cinematográficas, as câmeras de todas as gerações exibidas nos corredores ou em fila neles, contam uma história instigante sobre o processo de catálogo, como zelam, restaurar e como as Fitas descansam em temperatura geladinha em estantes fechadas à 7 chaves e que aguardam, pacientemente, a arrancada no processo de digitalização.

Cinemateca Portuguesa

Premiação

Antes da festa de encerramento do festival, que aconteceu no espaço “A Barraca” no bairro de Santos, uma longa cerimônia de prêmios e discursos que  se esticou por quase 3 horas, sem intervalo.

Entre as Realizadoras premiadas estão as jovens como Aline Lata e Helena Wolfenson com o filme brasileiro “O lugar mais seguro do mundo” ganhou o prêmio Canon do Júri da Competição Internacional. Para quem não conseguiu assistir esta película durante o Festival, tem uma outra chance: quarta-feira, dia 03 às 20 horas no Cinema Ideal.

O mundo esteve em Lisboa durante 11 dias e a edição 2022 já tem data marcada. Esperemos que até lá o mundo não capote de novo e possamos estender o tapete vermelho para Lisboa, para quem vier e para o maios importante de tudo: as Fitas.

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