Lars von Trier tem um cinema bem singular, e, em “Dogville” (2003), não podemos deixar de louvar a sua extrema ousadia em dar-se a liberdade de retirar do seu filme as presenças mais comuns do cinema: a natureza na sua realidade própria, as paisagens, o céu, a terra, o clima; Lars von Trier não precisou de entregar a objectiva à natureza para nos prendar com uma obra magnífica. O estilo teatral que adopta parece acompanhar na perfeição a ideia que o cineasta põe em cima daquele palco. Tudo neste filme está desnudado. A não edificação das estruturas que escolhe para a sua cenografia coaduna-se com uma moral completamente despida, em grau zero, para que possamos ver, com clareza, sem véus – ou paredes – o humano na sua máxima ambiguidade moral.

A luz e o dia, em Dogville, distinguem-se por jogos de luzes que iluminam ou obscurecem os limites do palco; os limites das casas são desenhados com linhas brancas e os interiores têm apenas os objectos que são necessários para a interacção com os actores, que representam pessoas simples, no seu labor quotidiano.

A aldeia de Dogville é pacata, até à noite em que Grace (Nicole Kidman), numa fuga a um grupo de gangsters, aparece e é acolhida e escondida por Tom (Paul Bettany), filósofo e escritor, que tem o papel de liderar espiritualmente os habitantes da aldeia, e que os reúne, nessa noite, para decidir se Grace deverá, ou não, ficar em Dogville. É aqui que a história começa a ganhar as suas tensões, que se vão intensificar progressivamente até ao final.

O filme tem uma cadência narrativa que, embora seja linear, nunca cai na monotonia, pois o argumento é de grande coesão, não contendo espaços vazios ou abismos que absorvam a fluidez da narrativa. Parece natural que assim seja, pois quando se opta por um minimalismo da imagem, é a narrativa que vai ganhar protagonismo, e neste departamento, o cineasta foi exímio. Mas, não esqueçamos a componente imagética, que, embora seja minimalista, não quer dizer que tenha sido menosprezada. O realizador consegue criar imagens de grande beleza: o algodão que cai lentamente até se espraiar pelos cabelos dos actores e por todo o cenário; a imagem de Grace, dentro do camião, rodeada de maçãs, numa espécie de pintura que apresenta algumas semelhanças com a noiva de “Melancolia” (2011), com um buquê entre as mãos entrelaçadas, como que na pose de um cadáver vivo que flutua na corrente de um riacho, que se vai deslocando por entre os nenúfares. É este mundo hiperpictórico, das cores vivas, das poses dos actores como se fossem modelos nas mãos de um pintor, da lentidão das imagens, quase estáticas como uma tela, e que existe dentro dos seus filmes, que torna Lars von Trier um cineasta incomum, de uma genialidade cinematográfica inequívoca.

O espectador ficará surpreendido quão fundo consegue o cineasta ir para mostrar um fundo (des)humano que fervilha por trás das máscaras sociais. Lars von Trier filma as dilacerações da alma, os sentimentos de culpa que acabam por nos corroer por dentro; mas se a culpa é algo objectivamente mau, até onde devemos nós perdoar para libertarmos alguém desse gérmen destrutivo? Quais são os limites? Teremos, todos nós, no nosso núcleo visceral, uma natural vontade de vingança, onde até as ideias mais altruístas se tornam uma estranha forma de vingança, como já tinha notado o filósofo alemão Friedrich Nietzsche? Este filme é uma escola, mas daquelas que nunca embrutecem, mas que emancipam o espectador quando este começa a fazer as questões éticas mais essenciais. Não o digerimos com facilidade, é certo, mas é precisamente essa dificuldade que nos assalta a alma e a obriga a agitar-se e intensificar-se, para que possamos trazer até à luz do nosso pensamento as questões mais obscuras e radicais que subjazem ao complexo agir humano.

Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Elenco: Nicole Kidman; Paul Bettany; Lauren Bacall
Dinamarca/Suécia / 2003 – Drama
Sinopse: Uma mulher, em fuga de um grupo de mafiosos, é acolhida, de forma relutante, pelos habitantes de uma pequena aldeia do Colorado. Em troca, ela aceita trabalhar para eles. Porém, ela descobre que o seu acolhimento tem um preço. Contudo, o seu perigoso segredo nunca está muito longe…

«Dogville» – Da máscara altruísta à pura vingança
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