Dorothé na Vila

«Dorothé na Vila» – recriando os passos de uma etnomusicóloga suíça na Galiza

«Dorothé na Vila» (2020) de Alejandro Gándara e Olaia Tubío recupera do esquecimento a música tradicional galega e revela-nos uma proximidade cultural única entre Portugal e Galiza. O documentário independente dos jornalistas galegos marcou presença em inúmeros festivais e mostras de cinema em Espanha, tendo sido nomeado para Melhor Documentário Longa-metragem na XIX edição dos Prémios Mestre Mateo da Academia Galega do Audiovisual. Em Portugal, marcou presença na 10ª edição do Family Film Project no Porto.

O filme conta a história da etnomusicóloga suíça Dorothé Schubarth, que chegou à Galiza no final dos anos 70 em busca de canções antigas que havia desaparecido na Europa Central. Dessa busca surgiram as 300 horas de gravações que compõem o ‘Cancioneiro Popular Galego’, a maior coletânea de música tradicional do país. Quarenta anos depois, Alejandro e Olaia seguem os passos de Dorothé para encontrar as vozes dos informantes da etnomusicóloga.

Dorothé na Vila

Ao longo do documentário deparamo-nos com questões bastante presentes na sociedade galega e também portuguesa, como o envelhecimento populacional, o abandono das zonas rurais, a solidão da terceira idade, o desaparecimento gradual da música tradicional e da identidade cultural, identidade essa que os realizadores, eles próprios personagens do filme, se recusam a  deixar desvanecer no tempo. Um filme que inicialmente parte da ideia de documentar o trabalho da etnomusicóloga Dorothé Schubarth, rapidamente se transforma na viagem dos próprios realizadores para encontrar os protagonistas do Cancioneiro Popular Galego, protagonistas esses que 40 anos antes foram informantes de Dorothé e hoje partilham com Alejandro e Olaia a música tradicional, e partilham a morriña (saudade em galego) dos tempos em que esta tradição ainda estava presente. Este documentário é também um filme de reencontros, o reencontro entre Dorothé Schubarth, – que apesar de manter contacto com os realizadores ao longo dos dois anos de produção do filme, apenas aceitou participar no documentário numa fase mais avançada. -, e Antón Santamarina, co-autor do Cancioneiro; o reencontro entre Vitorina e Maria, que protagonizaram um dos momentos mais emotivos do documentário, quando se juntam para tocar pandeireta e cantar, passadas décadas sem o fazerem; o reencontro entre a música e as pessoas, entre o passado e o presente.

«Dorothé na Vila», para além de um filme, é um resgate à cultura e identidade galega. Um filme simples, sincero, despido de holofotes, assente na vontade de não deixar esquecer o Cancioneiro Popular Galego. No documentário, Vitorina diz: “É bem certo que tudo se acaba.”, mas quiçá com este filme esse fim estará mais longe.

Skip to content