Paul Verhoeven ficou conhecido pela violência que vem plasmando nos seus filmes; porém, «Elle» (2016) foge ao estilo dos filmes da sua fase Hollywood, mas nem por isso deixa de lado a ideia génese que neles imprimiu. Neste filme, vemos como a violência pode escorrer em forma de cascata, mas, por outro lado, podemos também ver nele uma imagem menos vertical, pois ela também se propaga em ondas, desde vários epicentros; nestas imagens que Verhoeven nos dá a ver, existe uma espécie de violência rizomática, os epicentros são múltiplos e estão em todo o lado.

Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) é uma mulher de negócios, que um dia é violada por homem encapuzado, dentro da sua casa. Com a mesma frieza e indiferença com que o seu gato assistiu à violação, Michèle coloca-se dentro da banheira e brinca com a mancha de sangue que emerge por entre a espuma do seu banho. Eis que surge ao espectador a grande questão que perdura todo o filme e que sobrevive mesmo depois de este acabar: Quem é Michèle Leblanc? É a resposta a esta pergunta que esperamos ver respondida, ao mesmo tempo que vamos percebendo que esta demanda é vã.

Michèle é assombrada pelo passado sanguinário do pai, condenado a prisão perpétua por um brutal massacre na sua vizinhança, que culminou na morte de vários adultos, crianças e animais. Desde este evento, parece que a violência cai em cascata, atingindo mais directamente Michèle e a sua mãe: desde a extrema violência do pai – que por um dia lhe terem impedido de fazer a santa unção na testa das crianças, matou tudo o que lhe apareceu à frente – até às pequenas violências dos desconhecidos que as vão humilhando em praça pública, como numa espécie de linchamento às prestações. E, como ninguém escapa a este estranho efeito dominó, ainda poderemos ver como é o mais inocente dos homens, com um coração imenso, que acaba por dar a última nota desta sinfonia vermelha: afinal, o amor também cria ódio, quando somos chamados a proteger aqueles que amamos.  

Michèle é a mulher que fica ensanduichada no meio – por cima, por baixo e pelos lados – destes fluxos violentos, absorvendo-os como se fosse já uma realidade inevitável, preferindo abrir-se ao seu lado mais obscuro, deixando a sensibilidade e as lágrimas presas dentro da cave de uma alma “à prova de bala”.

No filme, podemos destacar a qualidade do argumento e a forma como foi adaptado. A fotografia é outra qualidade do filme: o ambiente nocturno que prevalece ao longo do filme faz com que se recorra mais ao uso dos pequenos focos de luz, que conseguem dar à imagem uma coloração branda e uma sensação naturalista com a presença das luzes do nosso quotidiano. O outro grande destaque é o de Isabelle Huppert, que conseguiu uma performance extraordinária, pois simplesmente nos cativa o olhar e somos presos a uma força estranha que nunca nos deixa vislumbrar nada dentro daquela personalidade, toda ela é intransponível. Curiosamente, enquanto escrevo este artigo, Isabelle Huppert recebe um Gotham Award de melhor actriz por este mesmo papel. E verdade seja dita: todos os prémios ela merece. E quanto a este Paul Verhoeven, que apareça mais vezes…

Realização: Paul Verhoeven
Argumento: Philippe Djian (baseado no romance de), David Birke (argumento)
Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte,  Anne Consigny
França, Alemanha, Bélgica/ 2016 – Drama, Thriller
Sinopse:  Uma mulher de negócios, bem-sucedida, é apanhada num jogo do gato e do rato enquanto procura descobri quem é o homem desconhecido que a violou

«Elle» - Quem é Michèle Leblanc?
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