Em meio a tensões políticas, Berlim abre com uma agradável surpresa: “Small Things Like This”

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A 74.ª edição do festival de Berlim abre, como não podia deixar de ser, como a mais tensa edição dos últimos anos. Onde a guerra entre Israel e o Hamas, um (des)convite ao partido político de extra-direita AfD e Vladimir Putin dominaram as conversas. No entanto, uma pequena surpresa fechou a noite com um sabor menos amargo: “Small Things Like This” de Tim Mielants.

O dia começou tenso logo na manhã desta quinta-feira em Berlim quando o júri liderado pela atriz norte-americana Lupita Nyong’o respondia às perguntas dos jornalistas em uma conferência de imprensa que marcava a abertura da 74ª edição da Berlinale. Tópicos polêmicos como o convite de políticos do AfD pela Berlinale, a guerra entre Israel e o Hamas e Vladimir Putin estavam na pauta à medida que o Festival de Berlim de 2024 se iniciava. O debate ganhou particular atenção com o recente escândalo provocado pelo convite, depois retirado, a membros do partido de extrema-direita alemão AfD para a gala de abertura. Este ponto gerou momentos de desconforto entre os membros do júri, particularmente para Nyong’o.

Questionada sobre o assunto, especialmente diante dos relatos recentes na imprensa alemã que expunha o encontro do partido com ativistas neo-nazistas para planejar deportações em massa caso chegassem ao poder, Nyong’o expressou sua distância da política local: “Sou uma estrangeira aqui. Não estou a par dos pormenores da situação política”.

Já o realizador alemão e integrante do júri, Christian Petzold, encontrou-se em uma posição menos favorável ao enfrentar as indagações dos jornalistas e saiu com sua imagem um pouco arranhada da coletiva por não se opor à presença de políticos do AfD na noite de abertura: “acho que não é problema ter cinco pessoas do AfD entre a plateia. Não somos covardes. Se não conseguirmos suportar a presença de cinco membros do AfD, perderemos nossa luta”

Uma pequena surpresa para fechar um dia tenso

Em meio a este clima tenso, um improvável filme de abertura deu início às festividades nesta quinta à noite. “Small Things Like These”, realizado por Tim Mielants, escrito por Enda Walsh e produzido por Matt Damon, é uma adaptação do romance de 2021 de Claire Keegan. O filme protagonizado por Cillian Murphy, junto com Ciaran Hinds e Emily Watson, aborda um dos períodos mais negros da história da Irlanda, os notórios Magdalene Laundries, conventos dirigidos pela Igreja Católica sob o pretexto de reabilitar jovens mulheres “problemáticas” que estiveram em funcionamento de 1820 até 1996.

Ambientado na véspera de Natal de 1985, o filme segue a história de Bill Furlong (Murphy), um pai dedicado e comerciante de carvão em uma pequena cidade irlandesa, que descobre segredos perturbadores mantidos pelo convento local, confrontando verdades chocantes sobre sua própria vida e a sociedade em que vive. O filme não é apenas uma história de coragem individual contra a opressão, mas também um comentário sobre a complexa teia de poder, fé e moralidade que definia a Irlanda dos anos 80.

Muios filmes já lidaram com este tema, com maior destaque para “As Irmãs de Maria Madalena”, de Peter Mullan, que em 2002 venceu o Leão de ouro em Veneza, e que teve relativo sucesso comercial em Portugal. Enquanto que o filme de Mullan abordava o tema de forma mais crua, com uma perspectiva mais direta e visceral dos abusos sofridos pelas jovens mulheres nos lares da Madalena na Irlanda, Mielants mira sua lente para outro lado.

Aqui, o foco não está diretamente nos abusos, mas na introspecção moral de um homem comum quando, quase por acidente, descobre a verdadeira natureza do que acontece dentro daqueles conventos. Mielants fez um filme sombrio e instrospectivo e que, ao contrário das expectativas, revelou-se uma bela surpresa como filme de abertura do festival e que também compete pelo urso de ouro.

Além disso, o filme explora a cumplicidade coletiva e os silêncios que, sob a fachada de uma normalidade moral ditada pela Igreja e pelo Estado, facilitaram a perpetuação de injustiças que se prolongaram por mais de um século. Esta temática ressoa de forma perturbadora na Alemanha de hoje, onde o ressurgimento de ideais extremistas desafia a vigilância e a resiliência de uma sociedade que, historicamente, conheceu as catastróficas consequências da indiferença e do silêncio.

Este paralelo não só sublinha a importância do filme como um lembrete incômodo da necessidade de enfrentar e questionar estas injustiças, mas também serve como um comentário mordaz sobre os perigos do esquecimento histórico e da complacência em qualquer época ou lugar.

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