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Entrevista a Rodrigo Areias

O Cinema Sétima Arte entrevistou o produtor e realizador vimaranense, Rodrigo Areias, sobre o seu último filme, “Surdina”. Para além do enfoque no seu filme, quisemos saber como o realizador está a lidar com a atual situação pandémica e como olha para o futuro da relação entre o público e as salas de cinema.

Cinema Sétima Arte: Antes de mais, como se encontra o Rodrigo, em termos de saúde, face a este contexto que vivemos?

Rodrigo Areias: Por cá está tudo bem, excepto termos de nos adaptar a esta nova realidade e estarmos a preparar o novo filme do Edgar Pêra em versão quarentena cinematográfica.

C7A: Colocando o foco no seu último filme, “Surdina”, como surgiu a ideia de fazer este filme?

RA: Este filme surgiu depois de ter lido o “Remorso” de Baltazar Serapião. Gostei muito do livro e decidi contactar o Valter Hugo Mãe para lhe dizer isso mesmo e propor-lhe trabalharmos juntos numa aventura cinematográfica.

RA: O argumento do filme é do escritor Valter Hugo Mãe. Como surge esta parceria: foi através do seu encontro com a obra ou com o próprio artista? 

RA: Acaba por partir da obra e depois evoluiu através de encontros entre nós. Eu acabei por ir mostrar ao Valter a casa onde acabamos por filmar, a vida daquelas pessoas dentro de portas. E o Valter acabou por conhecer algumas das pessoas que entram no filme enquanto não atores, foram as pessoas com quem estivemos a ver as casas e que me são próximas. E o Valter acabou por me levar a São Cristovão de Selho onde a outra metade do filme é filmada, e de onde é a sua família paterna e materna. Na verdade o filme acaba por ser escrito entre a realidade do Valter e a minha.

C7A: Pensam em continuar a trabalhar em conjunto no futuro? Existe alguma obra do escritor que gostaria um dia de trazer para o cinema? 

RA: Não temos planos para fazer mais nenhum projecto juntos para já. Temos agora um filme do Luis Costa que é uma adaptação de “O Nosso Reino”, também do Valter. Mas sim, há várias obras do Valter que me parecem bastante interessantes para serem adaptadas.

C7A: “Surdina” é um dispositivo cuja função é abafar/silenciar o som de um instrumento musical. Vendo o filme, o título parece sugerir uma emancipação em direcção à vivência das paixões e do amor. Pode falar-nos um pouco sobre a escolha do título do filme? 

RA: O título do filme foi ideia do Valter, mas tem que ver com aquilo que se diz entredentes, aquilo que se diz para que os outros não ouçam. No fundo é a coscuvilhice…

O título surgiu no fim do filme, e a mim pareceu-me bastante bonito.

C7A: Quais foram as principais dificuldades que o surgimento da pandemia trouxe a “Surdina”?

RA: Ao “Surdina” em particular não trouxe grandes dificuldades. Bem, tivemos de adiar a estreia e claro que agora levamos com o medo das pessoas de irem ao cinema. Nesse sentido aquilo que perdemos mais foi espectadores em sala, que é para quem fazemos os nossos filmes em primeira instância.

C7A: Enquanto produtor, como está a lidar com esta nova realidade? Acha que o Estado está a fazer a sua parte no que toca aos apoios às produtoras e agentes culturais?

RA: Acho que o Estado ainda nada fez. Nem é muito, nem pouco, é mesmo nada. Se pensarmos no Ministério da Cultura, este é até um momento para questionar para que é que serve.

Agora estão a tentar chegar a algum lado, no que ao ICA diz respeito, mas sempre com uma lentidão que apenas favorece a desgraça, a fome e a miséria de técnicos e actores.

C7A: Os cinemas já abriram nesta fase de desconfinamento, porém a afluência às salas de cinema tem sido reduzida. Acha que a pandemia vai causar alguma mudança significativa na relação entre o público e o cinema? Será que as plataformas VOD vão ganhar uma nova preponderância em relação às salas? 

RA: Espero bem que não. Acho que as plataformas de VOD servem para a preguiça. Preguiça essa que parte da física, mas que rapidamente se transforma em mental. Acho que o que esses algoritmos fazem é a formatação da oferta disfarçada de formatação na procura. Tentam convencer os clientes que só querem ver sempre o mesmo. No fundo é o oposto do cinema português, em que a sua vitalidade depende directamente da diversidade da sua oferta.

C7A: Quando pensa em voltar à realização? Já tem algum novo projecto em mente?

RA: Tenho já dois filmes a terminar. Um de nome “Vencidos da Vida”, que é uma espécie de compilação de curtas minhas e tinha estreia marcada para o Curtas de Vila do Conde e que agora será nas suas novas datas em outubro. E tenho outro documentário de título “A Arte da Memória”, onde participam vários artistas plásticos e eu próprio. Mas de ficção tenho também um novo filme para filmar no inicio do próximo ano de título “O Pior Homem de Londres”… e várias coisas com o Gonçalo M. Tavares… como realizador tenho muitos projectos novos.