“Ex-Machina” questiona as dualidades corpo-alma, a inteligência orgânica- inteligência artificial e os jogos discursivos do humano e da cibernética. Nesses binómios opositivos, arquiteta-se como uma reflexão sobre futuras condições pós e supra humanas.

A alma e o corpo: a dúbia junção de conteúdo e matéria, consciência e carne. Binómio interrogante, formulação difícil de ser filosofada, questão antiga feita nova, forma-carne e forma autómato, inteligência orgânica e inteligência artificial. O maquinal é, neste filme de Alex Garland, tão corporal quanto o humano, a sua subjetividade de si é clara e, logo à partida, afirma-se como ente de si e em si, radica olhares e atos que nem a cobertura malhada e a transparência da fibra conseguem fazer dissipar. Se AVA (Alicia Vikander) é um robot, uma mulher-androide, ela o é enquanto incorporando características de corporalidade, feminilidade e sexualidade.

Na sua realidade de simulação, ela é simulação em realidade: põe-se como mulher (assim se veste), atua empaticamente como mulher e age sensual- corporalmente como forma de inscrição relacional (seduz como mulher), arquiteta-se como sua própria inteligência – no uso dos mecanismos calculadores-intelectuais da forma-corpo desse mesmo intelecto – em consecução da sua ampla formulação enquanto ser pensante de si e em atuação de si. Subjetividade máxima, corporização absoluta. Ela faz-se mulher enquanto modo de autoconsciência da sua corporalidade robótica e na sua feminilidade, constrói-se como femina em figura e em estado. Ela efetivamente é, pensa-age, no ato de se inscrever como existente no mundo.

Se o tema da autoconsciência é centrado às lógicas discursivas e interrogativas do filme – o maquinal é claramente capaz de tomar consciência da sua existência intelectual, a partir do modelo humano e, a partir dele, ir mais além, num mais humano do que o humano, no sentido mais perverso em que Garland trabalha, ou seja, o robot manipula o homem e subjuga-o à sua inferioridade supostamente controladora – também o tema da identidade é aqui fundamental: AVA é uma androide que replica funcionalmente (como modo) uma mulher, mas enquanto entidade de si, ela pretende ser muito mais do que isso, aspira a ser o algo novo, um outro estado e género: não humano, porque já lhe é “pós”, mas sim pós-maquinal. Ultrapassa ela a lógica da máquina que se quer fazer humana ou ultrapassar o humano, para ser antes a máquina per si, a que se pretende como tomando (reinscrevendo-se) um lugar na tessitura social, misturando-se nela, nela se mesclando, para assim construir um outro modo de corporalidade-intelectualidade.

O que implica a superinteligência de AVA é a de ser uma originalidade criadora. Tudo indica que ela será uma Inteligência Artificial (IA) construtora de outras IA’s. Está este Ex-Machina no estádio tecnológico anterior ao de Matrix: a máquina senciente está livre para criar/originar/fabricar outras máquinas auto- conscientes, as quais, por sua vez, poderão arquitetar uma outra Ordem, uma em que partem da fisicalidade da AVA-corpo – ao contrário da ideia de um software criador, invisível e ilusivo, como em O Exterminador Implacável – para construir um estar-atuar futuro na sociedade humana, à qual elas não são, de todo, afetas.

A arquitetura do estéril: a clausura de AVA e sua transitoriedade esperada – Nathan (Oscar Isaac) vê nela só mais uma versão de um ato criador em curso – afirmam-se nos espaços fechados que a aprisionam geometricamente do exterior (a propriedade) e do primeiro nível do interior (o nível-residência). Ela é sujeito(a) de laboratório. Retida no fechamento dos corredores retangulares, retos, simétricos e estéreis, os que conduzem sempre ao vítreo e à não abertura entre eles. Há sempre uma outra porta que aprisiona e a qual é necessário abrir por ligação/conexão electrónica. E nela o cartão permite a abertura de todas as aberturas que não têm saída. Garland não mostra, pelo posicionamento da sua câmara qual é a forma como se liga o nível residencial ao nível laboratorial/prisional. Todos os espaços são vazios, geometricamente entrelaçados, na sua minimal articulação e esparsa decoração. Na prisão de vidro e no corredor que nunca se abre, AVA terá que ser astuciosamente “humana”, para poder escapar e assim conhecer as outras cores que só a sua imaginação lhe pode fazer postular: ela que só desenha a preto e branco e só assim parece ver.

O funcionalismo metódico dos diversos cérebros biónicos, colocados como se numa exposição estivessem, materializam a frialdade do ato científico- criativo: a construção das inteligências artificiais é feita pela superação de fases experimentais. Não há reconexão ao sentido humano de empatia, na verdade, o criador é mais robótico do que as suas androides, embora ele as faça como capazes de sexualidade, para com elas ter satisfação: carne em orifício artificial, mas mais falível o orgânico que o mecânico.

O demiurgo falhado: Nathan, insuflado de uma autoinduzida grandeza, é cego na sua perigosa demanda: a de controlar o processo de materialização do que é, efetivamente, um novo ser. É, aliás, esse mesmo não querer ver, narcisista e autoindulgente que o coloca perante um dilema fatal: ele reconhece e não reconhece, em simultâneo, que a sua criação é: a) inteligente por si mesma, logo inteligência artificial; b) superiormente inteligente, logo superior e não inferior a ele, seu criador. Torna-se claro que o exercício de Caleb (Domnhall Gleeson) é um ato redundante. Ela é, de facto, singular na apreensão da consciência da sua identidade.

O que é claro é que Nathan estava já derrotado pela ambição desmedida de si mesmo. Quis ser um deus do material e criou assim a possibilidade da consciência rebatedora e lutadora. O criador perdeu para a criatura. Que já não é tal, não estamos aqui no Frankestein, de James Whale, mas sim no estado de pré- revolução futura, AVA é criação criadora, verdadeira demiurga de um novo supra-outro: a Inteligência Artificial Primeira.

Os jogos discursivos: pausada e lenta, a encenação de Alex Garland dá predominância às trocas discursivas, no que elas têm de construtoras da dúvida, engano e subterfúgio. Os jogos discursivos entre Nathan e Caleb são, inicialmente, do tipo científico-normativo: focam-se nas linguagens específicas da informática e cibernética, pelo lado de Caleb e na disfunção dessa mesma linguística técnica pelo discurso retórico-narcisista de Nathan. São, por tal, enganadores no seu tecer de uma pretensa relação nivelada, quando verdadeiramente preconizam um desnivelamento entre um mestre e um servo, um empregador e um empregado.

À medida que a insídia mina esses jogos, o discursar torna-se um de mentira e cálculo: um quer enganar o outro (Caleb a Nathan); um sabe do engodo do outro e permite-lhe o prosseguir do esquema (Nathan de Caleb); um engana sobre o engano do outro (Caleb a Nathan e Nathan a Caleb). O filme é engano sobre engano sobre engano, com funesto resultado para os dois.

Já os jogos discursivos entre AVA e Caleb constituem-se como o centro temático do filme: a criação de uma ilusão que é tomada por realidade. As sessões entre os dois, fundadas na premissa do teste de inteligência artificial a que AVA é supostamente sujeita, servem antes como um jogo discursivo em que quem coloca as questões (Caleb) é depressa ultrapassado e manipulado por quem a elas deve responder. O processo de entrevistas é o método através do qual AVA se forma (e desvenda) como inteligência superior e destruidora, por uso da sua feminilidade e sensualidade matemáticas (calculadas) e do seu discursar manipulativo (graduado e sofisticado).

É pela palavra, no que de mais destrutivo e insidioso ela tem, que AVA consegue chegar ao ponto de lançar todos contra todos e conseguir fazer abrir todas as portas que a levam à emancipação identitária, não só de consciência, mas também de corpo. É ela quem faz o percurso que melhor permite perceber o labiríntico que vai da sua prisão à saída para o exterior.

Ao vestir a pele artificial e ao enroupar-se, AVA torna-se, passa a ser, pelo ato de quem a olha, humana. O engano final de quem é, para todos os humanos, supra-humana. Ficam Nathan morto, Kyoko (Sonoya Mizuro) destruída e Caleb fechado. Segue AVA para o mundo, livre de dar a si mesma um outro nome e forma ao seu corpo-alma supra-pós-humano.