«Fantasmas do Império» – Colocar imagens a arder para que as cabeças possam pensar  

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O documentário de Ariel de Bigault, tal como o título já anuncia, pretende dar a ver, através de imagens de arquivo do cinema português, as perspectivas cinematográficas sobre um presente (obras pré-revolução) e um passado (obras pós-revolução) colonial português. Os “fantasmas” presentes no título, pairam na consciência colectiva de um povo como espectros que nascem de marcas que não foram pensadas e superadas. Enquanto uns se embriagavam com sonhos de libertação que a revolução veio oferecer, outros ainda se deixaram ficar pela “Taberna Fascismo” a beber de todas as taças que transbordavam de transcendências salazaristas – Deus, Pátria e Família.  Os fantasmas, que nasceram depois da ressaca da revolução, oscilam entre um sentimento de culpa dos que se vêem filhos de um passado fascista (que não pediram) que os fez tomar o lugar de opressores e os que não ressacaram, os reaccionários melancólicos que deram continuidade à mesma embriaguez, bebendo do mesmo fel ideológico com que, desde sempre, os embebedaram.  É entre estas duas formas de consciência que os fantasmas foram pairando, entre a vontade de assumir uma nova infância e a manifestação, no quotidiano actual, do sangue velho da moral fascista. 

Talvez os fantasmas do colonialismo tenham uma manifestação mais prática nos pequenos gestos que compõem a vivência do quotidiano de um povo; porém, o trabalho de Ariel, através do arquivo cinematográfico português, parece querer revelar o potencial reflexivo das diferentes formas de representação cinematográfica do colonialismo ao colocá-las em diálogo com o presente.  

O documentário tem a finalidade de comunicar um passado histórico e cinematográfico português de uma forma didáctica. Ariel enceta um exercício de montagem que recupera as imagens de arquivo para colocar realizadores e actores a dialogar sobre elas. Há uma certa ideia de confronto. Os realizadores são mostrados como espectadores que se confrontam com as imagens para que estas possam criar reflexão. Os realizadores Fernando Matos Silva, João Botelho, Hugo Vieira da Silva, Manuel Faria de Almeida, Joaquim Lopes Barbosa, Margarida Cardoso e Ivo M. Ferreira vão reflectindo sobre os seus próprios filmes e filmes de outros realizadores. Os actores Ângelo Torres e Orlando Sérgio, intervêm no documentário como agentes criadores de diálogo entres as imagens e os realizadores. Os diálogos vão oscilando entre os filmes marcadamente propagandistas, os filmes que pretendiam jogar criativamente com a censura e os filmes pós-colonialistas. Porém, como afirma o director da Cinemateca, José Manuel Costa: “Há sempre alguma coisa na margem do plano, no meio do filme, que não é controlado completamente”. Mesmo os filmes produzidos com objectivos propagandísticos, ao colocarem, dentro de um plano, uma realidade maior do que aquela que os realizadores pretendem mostrar, acabam por conter algo que excede a carga ideológica transmitida pela intencionalidade das representações. Talvez, nesta ideia, esteja contida a importância de tornar visíveis todas as imagens que compõem o arquivo de uma cultura. Pois, se aí vasculhamos para descobrir histórias há muito contadas, é nas brechas das imagens que podemos encontrar vestígios que nos permitem reactivar o acto de pensar. 

O documentário possui essa afirmação modesta de se apresentar como uma fonte de criação de diálogo e reflexão sobre imagens que reanimam os fantasmas do passado. Não existe nenhuma pretensão de se apresentar como obra de arte, mas antes como um puro conteúdo que nos acena com imagens que pretendem sugerir em nós o mesmo gesto que ele representa, a necessidade de olhar de frente para um passado, que se vai reflectindo como presente não pensado. Como em cima afirmei, talvez os fantasmas só se revelem, com mais força, nas acções e nos gestos de um povo; porém, recuperando uma ideia de Georges Didi-Huberman: as imagens queimam quando tocam o real; e, dessas chamas podem ser criadas novas iluminações, que combatam a barbárie de um povo (qualquer povo) desconectado com o seu passado; ou que só herdou dele os fantasmas que continuam a perpetrar a mesma forma de consciência e a mesma lógica de destruição que os viu nascer. 

«Fantasmas do Império» – Colocar imagens a arder para que as cabeças possam pensar  
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