A 39.ª edição do renomado Festival de Cinema Fantástico do Porto teve, esta terça-feira, a primeira sessão pré-competição. Porque o cinema também possui a sua maquinaria própria, coube ao clássico “Easy Rider” – que comemora este ano cinquenta anos desde a sua estreia -, aquecer os projectores. A escolha não poderia ser melhor. Se, por um lado, a mota pode ser um veículo capaz de transmitir uma sensação de liberdade, de velocidade e de comunhão com a natureza como nenhuma outra máquina, o projector cinematográfico possui o poder de imprimir velocidade nas imagens para mostrar ao mundo o que é a liberdade: aqui a mota transcende-se e transforma-se numa “verdade em 24 frames por segundo”, como disse Godard.

O forte pessimismo presente no filme é a sua maior virtude. Talvez porque o pessimismo, numa modernidade em tão forte processo de decadência, seja mesmo o ápice do pensamento. Dennis Hopper consegue mostrar o choque entre duas américas: uma de amor, outra de ódio; uma de rock, outra de armas; uma que simplesmente expressa a sua liberdade em todos os seus gestos, enquanto a outra, tradicional e ressentida, pela sua incapacidade de liberdade, produz apenas capital, ódio e preconceito. Este contraste manifesta-se por completo na cena em que os dois amigos passam um charro a Hanson – interpretado por Jack Nicholson de forma deslumbrante – que com o seu ar e trejeitos de lunático vai discursando sobre outras possibilidades de vida, até que diz a Billy: “Eles não têm medo de ti. Eles têm medo daquilo que tu representas(…) Aquilo que tu representas, para eles, é liberdade”. Nessa noite, Hanson, que representa não só a liberdade, como também a lucidez, sucumbe, de uma forma brutal, pelas mãos dessa América ressentida.

Mais do que um sentimento de nostalgia, esta belíssima obra de Dennis Hopper desperta em nós um sentimento ainda mais profundo, talvez uma certa melancolia. A nossa consciência, ao sentir que o filme se torna assustadoramente actual, entra em conflito com a nossa imaginação, que se frustra ao tentar encontrar uma imagem capaz de superar esse estado de coisas. Porém, essa superação já se encontra nas imagens do próprio filme. O poder das imagens é mostrar a capacidade para a liberdade daqueles que a manifestam, quotidianamente, nos seus gestos. Ao longo do filme, Billy e Capitão América, montam as suas motas, que deambulam livremente pelo asfalto das estradas americanas. Esse gesto traz consigo a beleza das paisagens, acompanhada pelas sonoridades do rock n’ roll da altura. Estas imagens são interlúdios que transmitem uma sensação de liberdade que brilha em todo o seu esplendor. É este brilho que a parte ressentida da sociedade também vê e pretende apagar. Numa América que promete liberdade e a realização de todos os sonhos dos indivíduos, o pesadelo e a barbárie vão-se tornando cada vez mais reais.