De 27 de fevereiro a 8 de março, no Batalha Centro de Cinema, o cinema europeu estará em destaque na 46.ª edição do Fantasporto– Festival Internacional de Cinema do Porto, sobretudo a Espanha com filmes que demonstram o brilhantismo dos seus cineastas, muitos deles multipremiados, e o Oriente, com particular incidência na no Japão onde se destaca Eiji Uchida que visitará o festival com o seu o mais recente filme “The Specials”, que aqui tem antestreia mundial.
Destaque ainda para o Cinema Norueguês contemporâneo, numa ação que envolveu o Norwegian Film Institute. Sob a alçada da Belt and Road Aliance, uma iniciativa do Festival de Shangai, da qual o Fantasporto é membro fundador, haverá recentíssimas produções desta cinematografia emergente. Convidados presentes são até ao momento os realizadores de filmes selecionados em competição, vindos dos Estados Unidos, Austrália, da China, Japão e mais países do Mundo que já confirmaram também as suas presenças no Porto.
Celebra-se em 2026 46 anos de um festival que continua a mostrar o Cinema do Mundo. 73 países enviaram filmes para selecção. De todos os continentes, chegaram curtas e longas-metragens que ilustram bem as grandes preocupações mundiais. Após uma longa e difícil selecção de mais de 1000 filmes, foram escolhidos os melhores exemplos e as melhores opções cinematográficas. Desses 73 países que tentaram a sua sorte, ficaram 29 países cujos filmes se vão distribuir pelas secções competitivas e não competitivas. Confirmando o Fantasporto como lugar de descoberta e lançamento, há nesta edição dezenas de 1os filmes e 31 Antestreias Mundiais, Internacionais e Europeias, o que significa uma aposta do cinema mundial no Fantasporto que muito nos honra.
Importante em 2026, a representação dos 5 continentes, num verdadeiro reconhecimento mundial das vantagens de exibir filmes no Fantasporto. A maior representação continua a ser da Europa, seguido da Ásia com 10 países representados (aliás, de onde vem o mais criativo cinema fantástico atual), das Américas do Norte e do Sul, da Oceânia e de África. Note-se ainda a presença de 21 filmes portugueses também com a colaboração de 7 Universidades e Escolas Superiores com cursos de cinema.
É inevitável, nos filmes que se vão apresentar, fazer paralelismos com os tempos que correm e as convulsões, muitas totalmente inesperadas, que afectam a geopolítica mundial. A preocupação do Fantasporto em mostrar os melhores filmes que ilustram os temas da Modernidade e os seus desafios, sendo os principais a Guerra e a Inteligência Artificial, estão bem ilustrados nos filmes recentíssimos que se exibem, sejam eles no domínio da imaginação ou os que mostram a realidade que já se pressente.
Um dos filmes a ver é “Post Truth”, de Alkan Avcioglu, um inesperado grito contra a crescente influência de tudo o que é digital no nosso quocdiano. Explora a nossa relação com a tecnologia e como estamos definitivamente na idade dos algoritmos, questionando a verdade dos factos, num jogo de manipulação e overload de imagens e informação que dominam todas as nossas
escolhas.
Lembre-se que o Fantasporto dedicou a sua edição de 2025 à Inteligência Artificial, nomeadamente através de conferências na Movie Talks que decorrem no Bar do Batalha durante o festival – E agora, em 2026, vai abordar os diferentes modos de fazer cinema, quando todas as suas profissões adjacentes e técnica estão em causa devido aos avanços digitais.
A abrir o festival, dia 27 de Fevereiro no Batalha, teremos uma super-produção japonesa que já fez mais de 20 milhões de yens de receita no Japão, “Suzuki = Bakudan”, que lembra os danos que um só homem pode fazer numa sociedade de milhões. E a encerrar, outro alerta para o mundo de hoje, o inesperado filme finlandês, “After Us, The Flood” onde, utilizando uma máquina do tempo, se volta atrás e se tentar reparar as desastrosas escolhas feitas no tempo actual.
O mundo está a mudar. E a ficção científica mostra isso mesmo. Os efeitos na sociedade a longo termo são preocupantes como se poderá ver no excelente “Futuro, Futuro” do brasileiro Davi Pretto, com classes sociais bem distantes que se desconhecem, ou no chinês “Journey To No End”, uma ficção científica sobre a obrigatoriedade aos 40 anos de se passar para um mundo virtual com o fim de combater a solidão.
Realce ainda para as transformações no tecido urbano, a especulação imobiliária e os média abusivos, o tema do australiano “Skeleton Girls, a Kidnapped Society”, um punk thriller bem original, de Richard Eames. Também o chinês “Wild Nights, Tamed Beasts”, ainda que conte a história surpreendente de uma serial killer, aborda também um dos temas do futuro, a quantídade de velhos que necessitam de cuidados.
Este tema dos idosos, também é abordado no Japonês “IAI”. Pensando ainda nos média, um fabuloso exemplo dos danos que podem causar as redes sociais e os reality shows, sobretudo na juventude. “#Iwilltellyouthetruth” do japonês Keisuke Toyoshima, mostra como se impõe a violência aos mais jovens e se mostra a ânsia da notoriedade face ao número de seguidores. Este realizador também estará presente no festival. Também “After Us the Flood”, que encerra o certame, acaba por ser um alerta para os erros que se fazem agora e a sua influência no futuro do planeta.
Neste jogo entre o futuro, o presente e o passado, dois filmes trazem os dramas de guerras antigas. Por um lado, “Sisa”, do realizador Robles Lana, das Filipinas, o drama da vida durante a ocupação do país pelas tropas americanas e que chegaram depois da colonização espanhola e a resistência que os ofendidos sempre tentam junto dos usurpadores. Por outro lado, um singular filme, “Papa Buka”, de um conhecido e premiado realizador indiano, Dr Biju Damodaran, cuja obra reconhecida em todo o mundo o Fantasporto tem exibido. Desta vez, leva-nos aos restos de uma guerra na Papua Nova Guiné. O guia dos que procuram os antepassados vai ser um velho sábio que dá a conhecer a dança, a música, as tribos, a sua biodiversidade, a herança cultural e sobretudo o sofrimento numa guerra que lhe era alheia. Este filme foi o candidato aos Óscares.
Reflexo dos tempos de agora, o actualíssimo tema das migrações e o choque de valores e modos de vida num primeiro filme notável da norueguesa Nina Knag, “Don’t Call Me Mama”. Uma mulher face ao desejo de ajudar os deslocados, numa luta em que o desejo de sobrevivência a vários níveis se sobrepõe aos valores que se criam inabaláveis. “What Will People Say”, também vindo da Noruega, fala do dilema de uma família conservadora paquistanesa com uma filha adolescente que só se quer integrar na sociedade ocidental.
“The Trek”, que chega da África do Sul em antestreia mundial faz lembrar os westerns, mas ao mesmo tempo transporta-nos para o contraste de civilizações com grupo de brancos à procura de uma vida melhor e um nativo negro, cuja sabedoria demoram a aceitar. Este realizador sul-africano estará presente no festival. Veja-se ainda o filme grego de uma das descobertas do Fantasporto, Vassilis Mazomenos com o título “Endless Land”. Uma elegia poética e visualmente belíssima sobre a memória, o exílio e os ciclos geracionais, que se passa numa aldeia remota e conta uma história de perda e continuidade que se enraíza nos ritmos eternos da vida rural e da migração. Mazomenos vem ao Porto apresentar o seu filme em antestreia Europeia.
Também “Lopsided (Tigkiliwi)” das Filipinas apresenta uma história de ternura e tenacidade em que um rapazinho mobiliza uma comunidade pobre e sem futuro, um exemplo do cinema filipino e da sua importância no panorama mundial, com a realizadora presente.
Quando o Fantasporto há muitos anos introduziu o cinema coreano ou o neo-zelandês, poucos poderiam pensar que o primeiro chegaria aos Óscares e o segundo produziria um talento como Peter Jackson, criador no cinema da Saga “O Senhor dos Anéis”. Aliás, Jackson fez parte de uma longa linha de realizadores que se apresentaram no festival com o seu primeiro filme e depois seguiram para uma carreira internacional como Tarantino, James Cameron, Ridley Scott ou David Fincher, este último vencedor do Fantasporto com “Seven” (objeto de uma conferência por um especialista, Professor Mark Poole, nas Movie Talks deste ano).
Assim, cada retrospetiva apresenta uma oportunidade de descoberta, quer de uma cinematografia notável, quer de realizadores que brilham internacionalmente. Nesta 46.ª edição do Fantasporto, o destaque vai para o moderno (e desconhecido em Portugal) cinema norueguês. Vai estar representado em competição da Semana dos Realizadores com o primeiro filme de Nina Knag, “Don’t Call me Mama”, uma história que aconteceu decerto em vários países europeus após a vaga recente de imigrantes. Com as melhores intenções de ajudar, uma mulher que pertence a uma organização humanitária, acolhe em casa um estudante e ajuda-o. Apaixonando-se por ele, depressa vai ver que o choque de civilizações existe.
Também “My Uncle Jens” fala da visita de um tio chegado do Irão que se aloja em casa do sobrinho e parece não querer sair de lá. “What Will People Say” também aborda os problemas de migrantes que querem conciliar as tradições de um país que deixaram para atrás e uma sociedade mais liberal e permissiva para as mulheres. Depois poder-se-á ver longas-metragens recentes, a maioria premiada em festivais como Cannes, caso de “Armand” que venceu a Camera D’Or em 2004, sobre um miúdo que é acusado de ter ultrapassado os limites na escola, ou “Loveable”, prémio Especial do Júri e Melhor Atriz em Karlovy Vary.
“Blind”, Prémio de Melhor Filme Europeu no Festival de Berlim, fala de uma mulher quer ficou recentemente cega e tem de aprender a viver num mundo que é uma descoberta permanente. “Thelma” foi a escolha norueguesa para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017, e cujo realizador veio depois a vencer o Grande Prémio do Júri de Cannes em 2025. Divertido mas profundo, “Kitchen Stories” fala de uma pesquisa sobre os hábitos culinários de donas de casa e homens que cozinham, com o objectivo de criar e melhorar o design dos eletrodomésticos, e do inspetor que vai ter de observar um idoso na sua cozinha. Este filme foi Prémio da Juventude em Cannes, entre outros galardões. Este programa, de altíssima qualidade, foi organizado conjuntamente com o Norwegian Film Institute e é complementado com uma palestra nas Movie Talks no Bar do Batalha, sobre o sucesso do Programa Neo e das condições que elevaram o cinema da Noruega ao reconhecimento nacional e internacional.
Se em 2025 , as Movie Talks, Programa Especial de Formação do Fantasporto, se debruçou sobretudo obre os desafios da Inteligência Artificial, este ano vai mergulhar em assuntos diretamente relacionados com o cinema e o seu estado atual. Debater como ter sucesso numa carreira cinematográfica e os passos a dar num mundo que está a questionar e a revolucionar todos os seus aspetos.
Aliás, essa vai ser a tónica das conferências promovidas pelo Fantasporto em colaboração com a Universidade do Porto, muito especialmente com o Centro de investigação CETAPS, a Associação Luso-Britânica do Porto (com a parccipação especial do Professor Nic Hurst) e a Vice-Reitoria da Faculdade de Letras (especialmente a Professora Fátima Vieira), e ainda da conferência/debate promovido pelo Norwegian Film Institute que abordará temas de vária índole e que passam pela autonomia, direitos dos trabalhadores, produção e equidade de género na indústria cinematográfica norueguesa.
As Movie Talks serão complementadas com Apresentações de Livros, colmatando a falta de espaços tradicionais para o efeito. São livros de vários tipos e com autores como Artur Manso, Danyel Guerra, José Carlos Pereira ou Francisco Duarte. Os temas são variados: desde uma reflexão sobre as histórias da antiguidade grega através dos olhos de António Sérgio, às variantes do Amor, ao Cinema Fantástico e de Ficção Científica. Todos apresentados numa perspetiva de adaptação ao cinema.
Haverá ainda palestras sobre o mestre da Literatura Fantástica, Edgar Allan Poe, tantas vezes adaptado ao cinema, e sobre David Fincher e o seu célebre “Fight Club”, da responsabilidade de Jaqueline Perazzo, doutoranda da FLUP, e do Professor Mark Poole, respetivamente. E haverá ainda uma palestra/debate sobre o tema Fiz Crítica de Cinema e Continuei a Gostar de Cinema, pelo escritor Pedro Garcia Rosado. Um levantar da problemática do desaparecimento da crítica nos media e das suas razões. Este ciclo de conferências/debates/apresentações de livros terá lugar no Bar do Batalha com entrada livre.

