No seu último trabalho, Anna Biller escreve, dirige, produz, cria os figurinos e os cenários. Nesta sua obra, é visível o seu fascínio pela cor, e esta sua preocupação plástica – com a estética da imagem – faz com que seja natural a cineasta querer controlar o máximo de matéria colorida que entre nos seus planos. O gosto por recuperar a imagem áspera, assim como as temáticas base, do cinema exploitation faz sobressair uma matiz imagética singular que a cineasta imprime no seu filme, que vem dar roupagem a um conteúdo que aborda as insondáveis questões dos amores e desamores entre dois sexos cujas naturezas parecem separadas por um abismo.

Elaine (Samantha Robinson) é uma mulher extremamente bela e sensual, que para além destes seus felizes atributos que lhe foram dados pela natureza, usa a feitiçaria para conseguir que os homens por quem se apaixona morram – literalmente – de amor por ela.

Embora o filme se centre na personagem de Elaine, nos seus pensamento e vivências, existe uma clara afirmação da feminilidade por uma via extremamente colorida na aparência, mas discreta no discurso.  Sem cair em visões ressentidas, a cineasta tenta mostrar a visão feminina da mulher sobre o homem, sem nunca deixar de tentar fazer o sentido inverso, isto é, compreender a visão que o homem tem sobre o sexo feminino. Anna Biller faz uma experiência de pensamento desprendida de moralismos, revelando o lado mais sensível, mas também desejante dos homens, que muitas vezes sofrem de uma prisão de ventre emocional e de um transbordamento libidinal que tem de aprender a lidar com a castração, tal como quando – segundo Freud –  o bebé ganha o seu eu através do reconhecimento real dos limites do seu corpo, quando compreende que o seio da mãe lhe é algo exterior e que a sua vontade impulsiva primitiva está condenada à frustração – daí que, talvez,  o homem, ao longo da história , tenha direccionado esse ímpeto para a criação de obras de arte. Afinal o que quer um homem e o que quer uma mulher? Querem essencialmente coisas distintas: ela uma ideia bela, um príncipe encantado; ele, uma mulher carinhosa que seja exímia na arte de cuidar.

A imagem é aquilo que merece mais destaque. A cineasta faz um pastiche do género exploitation, tornando o ecrã uma tela onde as cores dos cenários, das roupas e das maquilhagens acabam por formar quadros vivos, com vermelhos e amarelos muito presentes, extensos e intensos na sua coloração.

Existe uma contradição intrigante no filme, pois não percebemos como uma bruxa pode ser tão bela e por que necessitaria de poções mágicas para atrair, visto estas foram criadas por mulheres que não conseguiam conquistar um homem com a sua beleza natural? Mas, talvez seja a realizadora a dizer-nos que vê no cinema um poder mágico, que lhe permite colocar-se dentro de uma aparência qualquer, e através dela, expressar os seus pensamentos e emoções.

Realização: Anna Biller
Argumento: Anna Biller
Elenco: Samantha Robinson, Jeffrey Vincent Parise, Laura Waddell
País – Género: USA – Comédia, Terror / 2016
Sinopse
: Elaine, uma linda e jovem feiticeira, está determinada em encontrar um homem que a ame. No seu apartamento de estilo gótico-vitoriano faz feitiços e poções para de seguida atrair e seduzir homens. No entanto, os seus feitiços funcionam demasiado bem, deixando um rasto de vítimas desafortunadas. Quando finalmente encontra o homem dos seus sonhos, o seu desespero por ser amada irá levá-la ao limiar da loucura e do homicídio.

«A Feiticeira do Amor» - O cinema como poção mágica colorida
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