“Ferrari” – O modo do Sul

Ferrari Michael Mann Ferrari Michael Mann
"Ferrari" (2023), de Michael Mann

No seu filme “Ferrari”, Michael Mann reflete sobre a permeabilidade e ambiguidade da família e das suas inter-relações, a definição de um legado e a construção de uma figura de perenidade – apesar das falhas e das incongruências humanas que a caracterizam – as formas maquínicas e a pulsão da velocidade que se manifesta enquanto ferocidade da paixão mediterrânica e modo de ser específico dos homens, mulheres, e terras da Europa do Sul.

Enzo Ferrari é o material de biopic por excelência. A sua pessoa faz um filme. Se o cinema é feito de ícones, nada mais pode ser mais icónico do que Ferrari, o homem, e a Ferrari, a marca, o projeto e a “scuderia”. Mas Enzo Ferrari é latino, a sua forma de ser e o seu modo de atuar são os do Sul da Europa, do Mediterrâneo, do pomar e da oliveira, da paixão e do enredo. A história de Ferrari é o fazer de histórias para a História. É mito em movimento. É cinema em movimento. E esse é o domínio de Michael Mann: um cinema-movimento, um cinema-ação, feito da sua própria velocidade, das suas próprias setas, do seu devir constante.

Apesar disso, o Enzo Ferrari (Adam Driver) do pós-créditos iniciais começa o filme a dormir. Ora pois, o devir começa com o dormir. Depois vem o silêncio, o não acordar o filho, o destravar o carro (Fiat…) e deixá-lo deslizar. Só depois virá o barulho, o motor, a energia, a função, as coisas a fazer, o pegar e caminhar rápido. Ele é “Il Commendatore”. A dinâmica é elástica: a sua relação com Laura Ferrari (Penélope Cruz) é, no mínimo, explosiva. Aliás, ela recebe-o com um tiro que não o falha por muito (se por sorte ou falta de pontaria, se verdade ou não, eis que se pôde fazer um filme biográfico sobre quem ainda viveu longamente, e que muito diz acerca do espírito fogoso da Signora Ferrari). A acusação é a mesma de sempre: a de ele lhe ser infiel com um sem número de meretrizes. Mas esse não é o caso, pelo menos na perspetiva do filme: Enzo Ferrari não mantém uma meretriz, uma amante, mas sim uma segunda mulher, Lina Lardi (Shailene Woodley) e uma segunda família. E, do ponto de vista do Comendador (que é claramente o do filme), é de que não se trata de uma outra família (enquanto outro grupo), mas sim do outro lado de uma família que se liga pela figura do “filho”.

O filho, Piero Lardi (Giuseppe Festinese), é um Ferrari, ainda sem o nome, mas sempre um Ferrari. O seu outro filho, Alfredo “Dino” Ferrari, é o do lado de Laura, mas Enzo já não o tem junto de si, pois ido, morto precocemente. Mas nunca poderia ser de uma forma que não a de dois irmãos iguais para um pai, porque esse é o modo do sul, a forma de ser latina, o da Europa do Sul, terra de homens que não são nem politicamente corretos, nem falsamente puritanos: enganam porque enganam, traem porque traem, mas são, sempre e tão só, homens privados, no erro, nos comportamentos reprováveis, no guardar do que lhes é mais cioso, são homens – e honestamente, para si, pelo menos – com essas falhas. Quando Enzo visita o mausoléu de Alfredo, não se duvida, de forma alguma, da dor que sente pela perda e do amor pelo filho partido. Apesar disso, ele tem uma outra mulher. Apesar disso, ele tem outro filho, fora do seu casamento. Com eles, completa a sua família.

Enzo Ferrari é um homem incongruente, um homem complexo. Porque é, como todos os homens, nunca perfeito, somente imperfeito, tal como é imperfeita a velocidade da máquina, aquela que leva para a curva sinuosa e que é o movimento puro, cinética de uma câmara, posta no meio da sua accionação enquanto instrumento da imperfeição desse movimentar que só segue em frente, mas que também espirala, (se) auto-destrói, se rebela contra si mesmo, efetiva o lugar do morto e o destroçamento do carro. As cartas que os pilotos escrevem, avanços sobre as suas próprias mortes, são coragens ou devaneios de um cavalheirismo cego que, já ali, é um desfasamento ou anacronismo. Se este cinema-velocidade é, para aqueles que o praticam, enquanto cavaleiros de ferro em máquinas de metal, um fim fatal que se espera e se quase glorifica, é porque materializa uma estranha e sulista (europeia, claro) característica da sua forma de ser: o avançar sem ver, o solavancar como método, o vertiginar como a suficiência maior de um estado de pura paixão e pulsão da morte – modulação psicológica teorizada pelos pensadores do centro/norte europeu- e que, no entanto, é tão vivida e praticada pelos europeus do sul (os corredores, neste filme, se entenda) e ainda que tão incompreendida, mesmo quando levada a cabo pelos mais cerebrais e calculistas pilotos euro-setentrionais.

Michael Mann é um cineasta da ação, cultiva o tremor e a cadência. O espaço do carro, a câmara como visão direta do piloto são o local e os instrumentos de uma cinemática muito sua: chão, frente, curva, contracurva, ziguezague, volta sobre si mesmo, mas sempre a favor – e nunca a desistir de – uma direcionalidade-seta que prossegue sempre, nunca querendo, por si só, voltar atrás ou parar. Assim é, como é claro, Enzo Ferrari: há que seguir sempre em frente, para mais enredar o que seja necessário tecer. A salvação da sua empresa (que faz máquinas, ou não seja o carro uma “macchina”) é feita pelo literal maquinar de uma situação cerebral (chame-se isso o que se quiser, “subtilmente dirigir para” ou “enganar levemente tendo em conta um bom fim”, provando ainda que também os latinos “sabem ser cerebrais”) que leva à continuação da sua famosa marca especializada – e para especialistas – dentro de uma outra grande máquina que é a corporação construtora de automóveis para as massas, a Fiat.

Ao fim, “Ferrari” é um filme sobre como a criação deste mito particular, o de Enzo Ferrari, é o resultado das mais quezilentas das tensões e más relações entre marido e mulher, construído a partir de jogos de controlo sobre participações acionistas, cheques que a serem levantados, levarão à falência de um projeto, nomes a filhos que não podem ser dados até que alguém morra, por mais tempo que se venha a passar. Isso é ser europeu do sul, é ser e viver segundo um orgulho empedernido e vincado, feito da terra e das coisas que só na Europa Meridional se podem encontrar. Vindos de um latinismo que ainda (nos) giza e define, ainda tomados e sempre (nos) referindo ao catolicismo que centra, qualifica, legisla, condena e absolve todas as falhas que (nos) caracterizam, é esta forma de ser, este modo do sul que (nos) prende ao chão batido pelo sol, o calor do meio-dia, a frescura do fim da tarde, a estrada que tem que ser corrida, a discussão que tem que ser gritada. O que ele e nós somos é o resultado das múltiplas e continuadas combinações dessa formação intergeracional – imperfeita e feita de choques, mas também de permanência e que tão incompreensível é para quem vive nas terras mais acima – e que é e tem sido o cerne do (nosso) ser: a família de tipo mediterrânico. Essa fez Enzo Ferrari, essa nos faz a nós, os que estamos aqui, na Europa do Sul.

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