Stéphane Brizé esteve presente na 19.ª edição da Festa do Cinema Francês para apresentar “Em Guerra” (filme nomeado à Palma de Ouro na 71.ª edição do Festival de Cannes), que encerrou o evento no Cinema São Jorge, e o Cinema 7.ª Arte teve oportunidade de falar com o realizador de um dos filmes franceses mais marcantes deste ano. Em baixo, pode ler-se uma breve sinopse de “Em Guerra”.

“Apesar dos duros sacrifícios financeiros por parte dos trabalhadores e dos elevados lucros do ano anterior, a administração da Perrin Industries decide fechar uma das suas fábricas. Liderados por Laurent Amédéo, o seu porta-voz (Vincent Lindon), os 1100 trabalhadores decidem lutar contra esta decisão brutal, prontos a tudo para salvar os seus empregos.”

Fonte: Alambique Filmes.

Stéphane Brizé: Honestamente, não sei porque é que os jornalistas querem falar com os realizadores, porque não vão saber mais do que aquilo que viram no filme. Não posso dizer mais do que o ecrã revela. Sempre que o realizador dá uma resposta, deixam de existir pontos de vista por parte do público. Mas posso falar do que a minha mãe achou do filme. Ela gostou muito. Chorou e tudo. Até me disse “Filho, fizeste um filme muito bom”. Foi uma opinião sincera. Fale com a minha mãe. Ligue-lhe (risos).

Nuno Sousa Oliveira: Mas é precisamente por causa de opiniões como a sua que temos a necessidade de falar com os realizadores. Vamos ao que interessa: o seu cinema. Na cena final de “A Lei do Mercado”, filme que serve um pouco como prelúdio a “Em Guerra”, a personagem de Vincent Lindon abandona o emprego. No caso deste último, o final é bastante mais forte…

SB: Em “A Lei do Mercado”, vemos como é difícil arranjar emprego. No entanto, no final do filme, a personagem de Vincent Lindon desiste do trabalho e isto é positivo. Ele não quer ser um sacana e nós, o público, ficamos contentes por ele. Enquanto espetador, gostaria de estar na pele dele, porque o que ele faz é heroico. Ao mesmo tempo, o que será que lhe acontecerá por ter desistido desse emprego? Ele tem mais de cinquenta anos e já foi muito difícil arranjar aquele trabalho. O filme acaba aqui. Já em “Em Guerra”, o facto de ele se imolar não é bem um sacrifício, porque ele não sabe o que vai acontecer depois. Ele não sabe que as negociações vão recomeçar. Se há um sacrifício, ele é feito pelo neto. Aquele bebé não pode viver num mundo tão louco como o nosso. É assim que eu interpreto o final do filme. O sacrifício não é pelos colegas de trabalho, é pelo neto. Ao mesmo tempo, quero mostrar como vivemos num mundo em que os trabalhadores não conseguem salvar o seu emprego. Por isso, o que é que podem fazer? Desaparecer. Alguém como eles tem de desaparecer.

NSO: O filme mostra explicitamente as consequências trágicas de um capitalismo imoral, da ganância e da necessidade de controlo absoluta por parte das grandes empresas. O que acha que o futuro nos reserva?

SB: Penso que o capitalismo tem o potencial de arrasar a espécie humana. As duas coisas estão integralmente ligadas. Aliás, não é o capitalismo em si, mas o efeito nocivo que ele tem sobre as pessoas que levarão a humanidade à sua própria perdição. Refiro-me à vontade de obter lucros colossais baseados no sofrimento e na destruição das pessoas. De uma forma muito concreta, empurra-se as pessoas para problemas, para a doença… Há qualquer coisa de muito mórbido e terrível em todo este mecanismo. E continua a existir uma certa ilusão sobre o capitalismo. Os 30 anos que se seguiram ao fim da guerra, pelo menos em França, foi um período anormalmente produtivo em que não havia desemprego, e isto é uma ilusão que parece dar um certo poder ao capitalismo, porque tudo tem de ser reconstruído, inventado; mas isso não corresponde à realidade. Em todo o caso, há uma coerência nestas regras do capitalismo, mas quando as leis permitem que o capitalismo transforme as pessoas e se instale como uma norma de funcionamento do mundo, há qualquer coisa que se altera tragicamente na sociedade. Isto pode parecer um discurso muito ideológico, mas, para mim, não é. Sinto que estou apenas a fazer uma constatação de bom senso, uma constatação sobre o lugar dos homens e das mulheres e como esse lugar é desrespeitado grotescamente e de forma completamente indecente.  Isso faz-me reagir, é uma coisa que me enfurece, mas está fora de uma ideologia. Há um ponto de vista, mas é um ponto de vista afetivo, não é intelectual… É muito orgânico, baseado nas pessoas e não numa ideia política e intelectual.

NSO:  Entre “A Lei do Mercado” e “Em Guerra” insere-se “A Vida de Uma Mulher”, um filme bastante diferente em termos formais e de género em relação aos dois primeiros. No entanto, existe uma continuidade temática. Qual a relação que faz entre os três?

SB: Em “A Lei do Mercado” e em “Em Guerra” não existe a crítica política e social que há em “A Vida de uma Mulher”, mas o meu pensamento sobre o cinema e o papel da câmara é exatamente o mesmo. E mais, “A Vida de Uma Mulher”, “A Lei do Mercado” e “Em Guerra” são filmes que apresentam uma sociedade que tem uma consideração muito elevada pelo homem, mas que, em última análise, acaba por ser desiludida por ele. E ainda outra coisa: são filmes que questionam a capacidade das pessoas de resistir a um constrangimento social.

NSO: E quanto à forma de “A Vida de Uma Mulher”? De que forma é que a sua câmara difere?

SB: A câmara foi convidada a entrar na vida de Jeanne. Nesse filme há uma reflexão sobre a passagem do tempo. Enquanto o autor do romance, Maupassant, descreve as coisas de forma cronológica, o mecanismo cinematográfico que utilizei para traduzir a passagem do tempo foi oposto: flashbacks flashforwards. Isto porque é no não-tempo da elipse que existe o tempo do filme.

NSO: Vincent Lindon disse numa entrevista recente que ser ator é, sobretudo, uma forma de fazer política. Visto que já fizeram quatro filmes juntos (“Mademoiselle Chambon”, 2009; “Quelques Heures de Printemps”, 2012; “A Lei do Mercado”, 2015 e “Em Guerra”, 2018), pode dizer-se que é uma ideia partilhada por si em relação ao cinema?

SB: Penso que tanto para o Vincent como para mim é através do nosso trabalho que construímos o mundo. Cada um de nós descobriu, ele enquanto ator e eu enquanto realizador, um mecanismo que nos permite compreender o mundo. Tudo o que sei sobre várias áreas, desde a música à política, passam pelo cinema, pela minha experiência do cinema. Portanto, vai mais além do que uma questão de política… A minha relação com o mundo e a minha perceção dos seres humanos está ligada ao cinema, e não apenas aos filmes que vejo, mas ao cinema que faço. É a criar que compreendo melhor as pessoas, a música e a política. Se a questão política me interessasse mais do que fazer filmes, tornava-me deputado, porta-voz de um sindicato, encontraria o meu lugar na política; mas o que me interessa, sobretudo, é fazer filmes que permitam que se perceba melhor o mundo e as pessoas.

NSO: Tanto “A Lei do Mercado” como “Em Guerra” assumem uma forma assumidamente documental. Qual a vantagem da ficção em filmes como estes?

SB: Para começar gosto desse estilo e acho interessante misturar os géneros. No entanto, os mecanismos de dramaturgia que posso utilizar permitem-me adensar os aspetos emocionais de uma forma que não conseguiria no documentário. É a minha forma de dizer que gosto de controlar tudo! E cada um utiliza os mecanismos cinematográficos da forma com que está mais à vontade. Eu gosto da tradução do real no ecrã, de reconstruir o real. Os mecanismos da ficção são completamente fascinantes.

NSO: Uma das cenas finais do filme é filmada com um telemóvel. Começamos a ver cada vez mais essa forma de filmar, como em “Happy End”, de Michael Haneke, que, de certa forma, ainda acentua mais esse olhar documental do filme.

SB: A câmara, aquilo que o público vê, foi potencialmente autorizada pela personagem. Só posso filmar uma cena, com este tipo de mise-en-scène que vem do género documental, se o personagem me autorizar a filmá-lo. Não há uma única cena em que a personagem não tenha autorizado a câmara. Portanto, nessa cena trágica, não podia ter sido ele a convidar a câmara a filmar. Por isso, se quero mostrar essa imagem, tenho de a mostrar de outra forma. Pode parecer paradoxal, juntar ambas estas forças, a do documentário e a da ficção, em que, normalmente, a câmara pode estar onde quiser, mas foi essa a regra que impus a mim mesmo para este filme. Sobretudo, não quero dar a impressão de que as imagens que vemos no ecrã foram pensadas por mim. Quero dar a impressão de que, por um feliz acaso, presenciei a vida de alguém.

NSO: Para terminar, qual a análise que faz do estado atual do mundo?

SB: Vou contar-lhe uma história para lhe responder a essa questão para o animar um pouco em relação a isso (risos). Quando estava a preparar “A Lei do Mercado”, passei vários dias com seguranças do supermercado. Um dia, apanharam uma mulher que devia ter uns 60 anos, uma mulher bastante normal que apanharam porque tinha roubado qualquer coisa. Estávamos nós naquela sala pequena que se vê no filme, onde eles interrogam quem apanham a roubar, e estava lá a senhora, dois seguranças negros e eu estava à entrada. Ela falava com eles como se fossem selvagens “Tu perceber o que eu digo?”.  Eu não dizia nada porque não podia intervir e, a dada altura, a mulher diz “E esse português porque é que está a olhar assim para mim?”. Eu tinha de ser, pelo menos, português para ela me poder odiar. Portanto, o preconceito dela visava os negros, mas eu, apesar de ser francês, tinha de ser também vítima desse preconceito e ser o “estrangeiro” naquela situação. E ela disse isso porque há muitos portugueses a trabalhar em França. No fundo, os culpados são sempre os estrangeiros. É este o mundo em que vivemos.

Stéphane Brizé foi galardoado com o Prémio do Júri Ecuménico por “A Lei do Mercado” no Festival de Cannes em 2015, com o César para Melhor Argumento Adaptado por “Mademoiselle Chambon”, com o Prémio FIPRESCI em Veneza por “Une Vie” e com o Prémio Louis Delluc por “Une Vie”, entre outros.

“Em Guerra” tem estreia a 1 de novembro. A distribuição do filme ficou a cargo da Alambique Filmes.

Entrevista por Nuno Sousa Oliveira e tradução de Rebeca Bonjour.

Fotografia de Juliette Malveau.