Festa do Cinema Italiano 2021: 10 filmes para ver

A poucos dias do arranque da 14.ª Festa do Cinema Italiano (2 de novembro), com a estreia do novo filme de Nanni Moretti“Três Andares”, como filme de abertura, o Cinema Sétima Arte sugere dez filmes imperdíveis para ver na maior festa do cinema italiano, entre clássicos e estreias, dos mais prestigiados festivais internacionais.

Com mais de 50 filmes, a Festa do Cinema Italiano decorrerá em mais de 10 cidades: de 2 a 4 de novembro em Coimbra (TAGV – Teatro Académico Gil Vicente), de 3 a 5 de novembro, em Beja (Pax Júlia Teatro Municipal), de 4 a 7 de novembro, em Setúbal (Auditório Charlot), de 4 a 7 de novembro, em Penafiel (Cinemas Cinemax) de 4 a 10 de novembro no Porto (Cinema Trindade), de 4 a 7 de novembro, em Cascais (Cinema da Villa), 6 e 7 de novembro, em Alverca do Ribatejo (TEIV – Teatro Estúdio Ildefonso Valério), de 15 a 16 de novembro, em Aveiro (Teatro Aveirense), de 18 a 25 de novembro, em Tomar (Cine-Teatro Paraíso), de 23 a 26 de novembro, em Almada (Auditório Fernando Lopes Graça), seguindo para outras cidades portuguesas a anunciar em breve. Ver programa completo aqui.

PANORAMA

“Três Andares”, de Nanni Moretti

Apresentado na seleção oficial do último festival de Cannes, o novo filme de Nanni Moretti foi aplaudido unanimemente pela crítica, que o considerou um dos melhores filmes da carreira do realizador. Adaptação do romance homónimo de Eshkol Nevo, o filme conta a história de três famílias que vivem num prédio de três andares num bairro de Roma. Durante 10 anos, as vidas de cada família são determinadas por eventos que obrigam os personagens a lidar com situações dolorosas e inconformáveis. A partir do microcosmos de um prédio romano de três andares, Nanni Moretti constrói uma crónica da vida das famílias, explorando a sociedade atual e as consequências das nossas escolhas, a justiça e a responsabilidade que acompanha a parentalidade. O realizador, que interpreta o papel de um juiz no filme, convocou um elenco de luxo para Três Andares, composto por Riccardo Scamarcio, Alba Rohrwacher e Margherita Buy.

 

“As Irmãs Macaluso”, de Emma Dante

As Irmãs Macaluso, filme estreado no 77º Festival de Veneza em competição pelo Leão de Ouro, é um drama poderoso que propõe uma meditação sobre a família, a passagem do tempo e as suas condições. Maria, Pinuccia, Lia, Katia, Antonella. São cinco irmãs nascidas e criadas num apartamento no último andar de um prédio nos arredores de Palermo. As Macaluso vivem sem adultos por perto e sobrevivem alugando pombos que criam no telhado do prédio. A história de cinco mulheres, de uma família, das que vão embora, das que ficam e das que resistem. Emma Dante, uma das mais importantes dramaturgas da sua geração, traz para a tela uma das suas obras mais aclamadas. A realizadora pontua o filme com diálogos esparsos, mas cruciais, e investe nos sentimentos e gestos, acabando por construir um filme sensível sobre relações familiares e o tempo.

 

“Hammamet”, de Gianni Amelio

O último ano da vida de Bettino Craxi, um dos mais controversos líderes italianos dos anos 80, condenado a 27 anos de prisão, num filme que retrata a hipocrisia da política italiana ao mesmo tempo que realça o lado mais humano de Craxi. Hammamet, Tunísia, final do século passado. O primeiro-ministro deixou Itália condenado por corrupção e financiamento ilegal. Ao lado dele estão a sua esposa e a filha, enquanto o filho está em Itália para reabilitar a imagem do pai e administrar o seu legado político.  Uma parábola humana e política que coloca Bettino Craxi perante a doença, a solidão e o ressentimento. Pierfrancesco Favino interpreta magistralmente a descida ao crepúsculo, o fim dos dias de um homem dominado por pulsões contrastantes. Gianni Amelio prefere focar-se na dimensão humana de Craxi, numa perspectiva quase kafkiana da sua história pública, refletindo a cobardia política e o próprio caráter dos eleitores italianos, prontos a juntar-se ao vencedor e a largar o perdedor.

 

“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti

Vencedor de 7 Prémios David di Donatello, incluindo Melhor Filme, é um belíssimo drama que retrata a força e resiliência do pintor Antonio Ligabue, considerado um dos maiores expoentes da arte naïf. A vida de Antonio Ligabue, nascido Antonio Laccabue, valeu a Elio Germano o Urso de Ouro de Melhor Ator no Festival de Berlim pela sua magnífica interpretação do pintor, considerado um dos mestres e protagonistas fundamentais da arte contemporânea internacional e da arte naïf. Antonio Ligabue viveu uma vida de reclusão, durante anos numa cabana à beira do rio, envolto em problemas físicos e psicológicos, sem nunca ceder à solidão, ao frio e à fome. O encontro com o escultor Renato Marino Mazzacurati é uma oportunidade para se aproximar da pintura, é o início de uma redenção na qual sente que a arte é o único meio de construir a sua identidade, a possibilidade real de ser reconhecido e de amar o mundo.

 

“Era uma vez a Máfia”, de Franco Maresco

Franco Maresco revisita a memória histórica italiana, acompanhado pela famosa fotógrafa da máfia Letizia Battaglia,  num documentário que venceu o Grande do Júri no Festival de Veneza. Por ocasião do aniversário do assassinato de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, os famosos  juízes que entraram em guerra direta contra a máfia, o realizador Franco Maresco revisita, de forma sarcástica e grotesca, a memória histórica italiana e interroga-se sobre os ideais que ficaram até aos dias de hoje, especialmente em Sicília. Maresco é acompanhado pela famosa fotógrafa da máfia, Letizia Battaglia, uma artista amargurada pelas manipulações das comemorações por parte da classe política italiana. Este documentário, que ganhou o Grande Prémio do Júri no Festival de Veneza, é um encontro nostálgico com a máfia do “antigamente”.

 

COMPETITIVA

“Small Body”, de Laura Samani

Piccolo Corpo, a primeira obra de Laura Samani, fala de milagres (im)possíveis. Estreado na Semana da Crítica no Festival de Cannes, é uma viagem à visceralidade de um instinto primordial, e uma celebração da força feminina. Uma pequena ilha no nordeste da Itália, no inverno do início de 1900. O bebé da jovem Ágata nasceu morto. Na tradição católica, uma criança que não respirou uma vez não pode ser batizada e a sua alma será condenada ao Limbo, sem nome e sem paz. Ágata ouve falar de um lugar nas montanhas, onde as crianças podem ser trazidas de volta à vida, durante o tempo de um fôlego. Com o pequeno corpo da sua filha escondido numa caixa empreende uma viagem onde conhece Lynx, um miúdo selvagem e solitário que se oferece para ajudá-la. Apesar da desconfiança inicial mútua, partem para uma aventura em que a coragem e a amizade permitirão que os dois cheguem perto de um milagre que parece impossível.

 

“Magari”, de Ginevra Elkann

Magari, que estreou no Festival de Cinema de Locarno, representa a afirmação de uma nova voz do cinema italiano, uma linguagem nova e mais pessoal, cheia de realismo e da magia que se esconde nas pequenas coisas do quotidiano. Alma, Jean e Sebastiano são três irmãos que vivem em Paris com a mãe Benedett, francesa, e uma fervorosa cristã ortodoxa, num ambiente seguro e confortável. De repente, vão passar alguns dias com o seu pai Carlo, um italiano mulherengo, guionista de pouco sucesso, e que não faz ideia de como cuidar de si mesmo. A situação é complicada mas apesar das dificuldades e das tensões diárias a pequena Alma continua a acreditar firmemente que um dia, talvez, a sua família possa voltar a ficar junta. Uma comédia dramática íntima e surpreendente que encontra o seu ritmo entre a proximidade e a ternura de um conto familiar e um realismo mágico que nos lembra o cinema de Alice Rohrwacher.  Já a atriz Alba Rohrwacher nunca foi tão espontânea e instintiva, num filme sem qualquer traço de cinismo, que persegue a simplicidade das histórias e a complexidade dos afetos, longe do exibicionismo da nossa era “social”.

 

AMARCORD

“Belíssima”, de Luchino Visconti

Uma mulher disposta a tudo para tornar a sua filha numa estrela. Quando um estúdio de cinema anuncia que está à procura de uma atriz infantil, Maddalena ambiciona conseguir o trabalho para a sua filha Maria. Gasta todas as poupanças da família para que a criança seja treinada, enfeitada e embelezada antes do teste de ecrã. Quando este termina, Maddalena entra sorrateiramente na sala de projeção para ouvir o veredito do estúdio, mas fica devastada ao descobrir que todos se riem do desastroso desempenho de Maria.

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Anna Magnani em “Belíssima”, de Luchino Visconti

SESSÕES ESPECIAIS

“Shooting The Mafia”, de Kim Longinotto

Assim que ousou apontar a máquina fotográfica para uma vítima brutalmente assassinada, a siciliana Letizia Battaglia deu início à batalha de uma vida contra a máfia. Como fotojornalista, capturou o quotidiano da vida siciliana – de casamentos, a assassinatos de cidadãos comuns – para contar a narrativa da comunidade que amava e que fora forçada ao silêncio pela Cosa Nostra. O filme mostra-nos as suas impressionantes fotografias a preto-e-branco, raras filmagens de arquivo, filmes clássicos italianos e as próprias memórias da fotógrafa, a fim de pintar o retrato desta mulher extraordinária, bem como de um dos períodos mais trágicos da história recente italiana.

 

“Rua do Prior 41”, de Lorenzo d’Amico De Carvalho

Um olhar original sobre a revolução dos cravos, para compreender o presente, e começar a imaginar um outro futuro, outra vez. Franco Lorenzoni, militante da Lotta Continua, o grupo italiano extra-parlamentar mais importante dos anos 1970, ocupa uma casa na Rua do Prior n.º 41. Durante os meses seguintes, essa casa acaba por se tornar na sede da Associação Revolucionária de Amizade Portugal-Itália, que traz centenas de jovens do mundo inteiro para verem o “país mais livre da Europa”. Uma viagem por um dos capítulos menos conhecidos da revolução dos cravos, para libertar sonhos, esperanças e decepções de uma geração de rapazes e raparigas que, por um curto e entusiasmante momento, acreditaram que conseguiriam mudar o mundo. A história não contada da revolução dos cravos.

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