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“Flee – A Fuga” – As Fronteiras do Indivisível

Flee – A Fuga” chega aos cinemas a 7 de Abril, mais relevante que nunca.

Ao longo de anos e anos a fio, o mundo ocidental senta-se e ouve, observa, cada vez mais impassivelmente, a quantidade de pessoas que têm de partir das suas terras, das suas casas, e que recebem a qualificação de refugiados.

 

Na paz, nem sempre é possível ter a percepção da quantidade de pessoas que vivem deslocalizadas das suas raízes por perseguição religiosa, por causa da guerra, por catástrofes naturais e de como isso é tão violento, cruel e desumanizante.

Pessoas das quais, na maior parte das vezes, apenas se apercebe uma turba sem maior identidade do que a história que envolve o país de origem, normalmente submergido pela guerra, não lhes é conferida uma identidade particular, a não ser para aqueles que corajosamente dedicam as suas vidas a ajudar aquelas pessoas.

Para o comum dos mortais, os refugiados, seja qual for o motivo da sua fuga, são apenas o que se vê de forma generalizada e, por isso, a existência de “Flee – A Fuga” assume uma importância ainda maior do que a que intrinsecamente lhe é conferida.

É que “Flee – A Fuga” é a história particular de um refugiado proveniente do Afeganistão, país mergulhado no caos no final dos anos 70, início de 80, dividido pelo conflito, pela guerra, pela luta entre facções, dilacerado por interesses vários que não acautelam os interesses das populações em viveram em paz nas suas terras.

Amin é o protagonista deste filme de animação realizado pelo dinamarquês Jonas Poher Rasmussen e, mesmo assim, aquele não é o seu nome verdadeiro – nem a sua cara é a verdadeira -, artifício criado para proteger a sua identidade dos traficantes de seres humanos que o trouxeram para a Europa.

Amin e Jonas
Amin e Jonas

Ainda assim, Amin é uma pessoa, com uma cara, uma voz, uma história que permite conferir a alguém que normalmente é “apenas” um refugiado uma personalidade, uma quantidade de características que o tornam tanto inteligível como perfeitamente identificável.

Jonas é amigo de Amin desde a sua chegada à Dinamarca e o filme é não só o contar da história do amigo, como também a sua maior confissão, chegada que é a altura certa para contar pela primeira vez a história da sua fuga.

Por isso, em muitas ocasiões, Amin se esconde muito para lá da sua identidade falsa, esconde-se por detrás do medo que ainda espreita do lar que deixou para trás há mais de três décadas.

A voz tímida, que também não lhe pertence, esconde os segredos que ameaçam o seu presente e, por isso, embora de forma relutante, Amin assente em contar a sua história juntamente com o amigo realizador, escondido, apesar de tudo, na mestria e certa inocência que a animação sempre permite.

Flee – A Fuga” conta a sua história desde o início até à actualidade, quando é um académico de sucesso prestes a casar com o seu namorado de longa data. Amin cresceu, pois, como homossexual no contexto do Afeganistão onde, como relata, nem havia uma palavra para alguém como ele.

Os segredos acumulam-se como uma forma de vida, até ao momento em que ameaçam o próprio relacionamento, consigo e com o(s) outro(s). Por isso, resolve contar tudo do que se lembra e a memória não é só constituída pelos momentos terríveis da fuga, dos traficantes, da polícia russa.

A memória contém os momentos belos da descoberta do mundo através dos olhos do adolescente Amin, que se apaixona pela imagem do Jean-Claude Van Damme ou pelo rapaz que o acompanha na sua viagem até à Europa e lhe oferece uma parte de si.

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É a memória das músicas da época, de usar a roupa da irmã no Afeganistão, da descoberta da vida antes de tudo se ter interrompido e os pesadelos terem início. O filme é a catarse de tudo o que ficou nesse passado e compromete o presente, permitindo a libertação de Amin para um futuro ancorado e sem ter de continuar a fugir.

Amin chega a este documentário animado em ruptura com o seu companheiro e com a sua incapacidade de continuar a guardar tudo o que traz consigo de inesquecível, tudo o que ainda hoje o faz continuar a querer fugir.

É sintomático que aceda, por exemplo, em ir visitar casas com o namorado e não ter o mínimo interesse em verdadeiramente assentar, como se estivesse sempre de passagem, mais interessado nos gatos no jardim do que na composição da casa.

Flee – A Fuga” é um admirável exercício de estilo que se tornou num documentário parcialmente ficcionado e uma animação por necessidade imperiosa de proteger fisicamente o homem que, contudo, teve a coragem de contar a sua história, verdadeira tanto quanto dela se lembra – e a memória é, com frequência mais pessoal do que real.

Nem sempre se estabelecerá com “Flee – A Fuga” uma relação fácil e o seu conteúdo nem sempre será cor-de-rosa, mas a sua intenção não é, claro, essa. O espectador acompanhará a libertação algo dolorosa do seu protagonista à medida que se desapega do seu passado e ganha uma outra vida.

As dúvidas, as mágoas resultantes do pai desaparecido, as recordações em família na terra natal, o apoio recebido quando se assumiu como homossexual perante a família que o recebeu já na Europa, “Flee – A Fuga” é sobre tudo aquilo que não se pode evitar e que cresce como um monstro quando se tenta ignorar.

“Flee – A Fuga” é um filme duro que, mesmo quando ilustra as ausências de memória de Amin, o faz recorrendo a uma economia de meios que acaba por resultar numa fantasmagoria ainda maior que a realidade relatada por Amin.

Nesta dureza, apresentam-se necessários confrontos: o de Amin consigo mesmo, passado e presente, e o do espectador com a sua própria história e percepção do mundo, colocado frente a frente com alguém que não pertence à sua realidade cultural, mas com o qual se identifica como ser humano.

Flee – A Fuga” tem uma voz, tem uma cara, tem um nome, mesmo que não sejam reais, porque a sua história é verdadeira, não é delicodoce, não se mostra como algo que não pertence ao mundo e transforma uma experiência normalmente colectiva em algo particular.

O particular torna-o mais próximo e não permite que, quem não tenha passado pela terrível experiência de ter de partir da sua terra acossado e perseguido, possa simplesmente voltar a cara para o lado ou mudar de canal porque a televisão “está sempre a falar do mesmo”.

Flee – A Fuga” é extremamente importante, para além da sua clara importância como arte. É um filme que torna pessoal a experiência dos refugiados, contado na primeira pessoa, com todos os percalços, os perigos, tudo o que o espectador nem sequer pode imaginar como possibilidade.

Por outro lado, não trata Amin – e outra coisa também não seria de esperar – como um refugiado, embora o seja com toda a certeza. É um homem, foi um rapaz, um adolescente, teve as suas experiências, e mostra-se com tudo aquilo que o compõe, não o inocenta nem condena e isso é algo admirável.

Os julgamentos ficarão para os locais e tempos apropriados e desejadamente serão os daqueles que insistem em interromper as vidas dos outros a pretexto de causas nobres que nada mais são do que as lutas a que se entregam pequenos egos inseguros.

“Flee – A Fuga” – As Fronteiras do Indivisível
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