Henrique Raposo, cronista do Expresso, numa crónica recente, alertou para uma crescente repressão das grandes instâncias relativamente às obras de artistas polémicos, com um historial pessoal censurável. Nesse prisma, diz: vivemos um tempo infantil ou infantilizador. É difícil explicar às pessoas que um romance ou filme com uma cena de violação não é misógino. Mostrar o exterior e interior de uma personagem misógina não é defender a misoginia”.

O objetivo, segundo o autor, passa por levar-nos ao coração das trevas e à procura da catarse, talvez a primeira função da narrativa”. Esta perseguição, defende,está a atingir níveis absurdos através do apagamento de filmes e músicas do streaming. Deste modo, e a respeito de Cosby, Weinstein, Hemingway, Picasso, Schiele, Chaplin, Louis CK, senhores que tanto contributo artístico (de tantas índoles) deram ao mundo, defende que todos estes homens de diferentes épocas tiveram comportamentos miseráveis ou dúbios; essa imoralidade pessoal não coloca em causa o juízo que se faz da sua obra”.

No seguimento, deixa um aviso:cuidado com o streaming: é um mecanismo perfeito para um sistema orwelliano (1) que mente sobre o passado. Com efeito, e numa altura em que o senso comum parece não conseguir perceber a necessidade de se dissociar a obra do artista, acrescenta ainda:não concordo, mas percebo o argumento das pessoas que não conseguem separar – pelo menos a curto prazo – a pessoa das obras. É aceitável. O que não é aceitável é o branqueamento da História feito pelas grandes corporações”.

Numa espécie de censura que faz lembrar o Estado Novo, e numa altura de mentalidades abertas, com as linhas das tendências de pensamento que nos deviam permitir separar as águas, o cronista salienta: isto é inaceitável, porque coloca a memória e o juízo moral nas mãos dos gestores de imagem das marcas. Esta não é uma decisão económica, mas moral”.

Em tom hiperbólico e satírico, e numa preocupação que não pode ser escamoteada, enaltece aquela que diz ser, no espectro da conjuntura recente, uma inevitabilidade: daqui a nada, é o Estado que apaga literalmente alguém do passado”. Posto isto, o fundamental passa por conseguirmos apreciar a magia da arte independentemente da índole mais ou menos consensual do protagonista, do maestro, daquele que cria, cuja genialidade é intemporal e não pode ser negada, espezinhada, nem tão-pouco esquecida. Centremo-nos na arte e menos no artista, e assim estaremos mais próximos de nos elevar humana e artisticamente.

1) – O termo orwelliano é um adjectivo que descreve qualquer situação, ideia ou condição social que George Orwell – um dos mais emblemáticos escritores e ensaístas ingleses do séc. XX – identifica como destrutiva para uma sociedade livre e aberta