“Fruto do Vosso Ventre”: plantação de memórias, raízes e rostos

O prémio vencedor da Competição Take One!, da 29.ª edição deste ano do Vila do Conde Curtas International Film Festival, foi atribuído à curta-metragem «Fruto do Vosso Ventre», realizada por Fábio Silva, no âmbito da formação na Escola Superior de Teatro e Cinema, e que tem estreia, a 23 de Agosto, na secção “Novíssimos” do Festival Indie Lisboa 2021. Esta secção, afirma o Festival Indie, é uma “[s]ecção competitiva constituída por um conjunto de filmes de jovens cineastas que estão a dar os seus primeiros passos. Alguns realizaram o seu filme em contexto escolar, outros foram destemidos ao ponto de realizarem sozinhos uma primeira obra, independentemente de qualquer apoio. Portugal continua a afirmar novas vozes no contexto cinematográfico que queremos apoiar e mostrar.”

O tom marcadamente intimista e autobiográfico com que Fábio Silva nos conta a história das suas memórias e das suas raízes, ou até mesmo a incompreensão acerca de tudo isso, poderia, ilusoriamente, induzir-nos a estarmos perante um acto de psicologismo de máxima exposição. Contudo, por muito que o Fruto do Vosso Ventre nos tente dar a conhecer o interior daqueles que conceberam e deram a vida ao realizador, por muito que realizador/protagonista dispa as camadas de si mesmo, não nos sentimos escancaradamente perante um nu. Ao invés, as pessoas confundem-se com matéria-prima documental, e a superfície daquilo que é narrado vai mais além, através da montagem e do recurso aos vídeos caseiros do pai, para revelar as pessoas por detrás dos rostos.

O tom intimista é de uma sensibilidade profunda, na medida em que embarcamos a assistir, juntamente com Fábio, àquilo que é o seu legado, o que suscita em cada um de nós todas as nossas próprias memórias plantadas. Assim, na tentativa de compreensão e de ultrapassar a tensão entre pai e filho, somos convidados a revisitar as paisagens e os interlocutores que fizeram parte da vida do realizador, a par da vida dos seus pais. A ideia de sobrepor as imagens de vídeo, dos vídeos caseiros que o pai compulsivamente filmou enquanto Fábio crescia, traz à tona o lado vivo dos espaços. Os espaços vivem em nós graças às memórias que neles construímos. Traz também à tona o papel dos instrumentos de memória, pelo que o poder da memória e o valor do cinema são aqui indissociáveis. É pela lente do pai, mas acima de tudo pela própria lente do filho acerca disso, que Fábio pôde buscar respostas que apaziguem o seu interior, ou no limite, que o façam buscar mais e mais imagens em movimento.

A forma serena e despida de emotividade forçada com que a curta-metragem é narrada, em nada impossibilita a abordagem a algumas das principais temáticas do desenvolvimento humano, a saber, o papel da família na construção da identidade. Pelo contrário, a quase inexistência desse sensacionalismo é justamente o que possibilita chegar, com uma serenidade crua, às raízes que deram o fruto. Não concordo que o cinema seja terapêutico, mas antes que pode incitar a resistir a todas as formas de desesperança com que nos vamos confrontando, precisamente porque nomeia essas mesmas desesperanças. As raízes não as escolhemos, somos determinados pelo ventre de que somos fruto, todavia, a criação é escolha e liberdade. Através da criação cinematográfica, Fábio partiu em busca dos rostos das suas raízes, sendo que o pai, a figura que mais o perturbou nessa viagem de indagação, é justamente o modelo que está ausente, de modo directo, de toda a sua curta. Indirectamente, a figura paterna fala através dos vídeos, daquilo que captou e se preservou no tempo. Uma vez entregues ao tempo, as memórias são aquilo a que nos agarramos para criar.

Esta é uma curta-metragem que contou com vida e morte, proximidade e afastamento, amor e mágoa. Sobrou a distância, a incompreensão perante o mistério da natureza humana, e perante tudo isso, a forma mais bela de resistência e de sublimação residiu no questionamento e na arte.

 

PRODUÇÃO Fábio Silva CONTACTO DE CÓPIA ESTC – Escola Superior de Teatro e Cinema; 351214989400, estc@estc.ipl.pt, www.estc.ipl.pt FOTOGRAFIA Fábio Silva EDIÇÃO Fábio Silva SOM André de Almeida

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