«Fúria de Viver» – A vontade de ser amado e compreendido

É em “Fúria de Viver” que Nicholas Ray revela o seu melhor estudo sobre o comportamento de adolescentes. “Fúria de Viver” é um dos mais emblemáticos filmes da era dourada do cinema americano, a década de 50. O ano de 1955 é um ano chave para o cinema americano, pela produção de grandes clássicos do cinema e por ser o ano de James Dean, que ficou famoso pelos três filmes, “A Leste do Paraíso”, “Fúria de Viver” e “Gigante”, todos feitos no ano da sua morte. Foi sem dúvida um ano agitado para o jovem ator, que ficou imortalizado pela personagem de Jim, em “A Fúria de Viver”, e pelas suas roupas, uma t-shirt branca, jeans e um blusão vermelho. Esta imagem tornou-se num símbolo de irreverência e rebeldia, que muitos jovens, de todo o mundo, passaram a usar.

O filme narra a história de três adolescentes delinquentes, Jim, Judy e Plato que têm em comum a solidão, frustração e raiva que resultam de descenderem de famílias desequilibradas. Jim (James Dean) sente-se “dividido” entre a mãe dominadora e o pai fraco, incapaz de dar ao filho o modelo de segurança de que este precisa. Judy (Natalie Wood) vive com o pai que não a compreende e sente que ele não gosta dela. Plato (Sal Mineo) é o mais fraco elemento do trio, que foi abandonado pelos pais divorciados, vive com a empregada. Os três acabam por se unir como uma família que se ama e protege, depois de várias peripécias, que incluem, lutas com facas, uma corrida de automóveis, em que os três participam na morte de outro jovem e um romance entre Jim e Judy.

Ao contrário do que acontece com muitos filmes sobre rebeldes adolescentes que foram feitos depois deste, este atribui a culpa aos pais e não aos adolescentes. Estas intrigas parecem-nos leves para os dias de hoje, mas para a altura foram bastante polémicas. Na década de 50, pós-guerra, os EUA viveram um período dourado, em que muitos jovens não precisavam de trabalhar muito cedo, pelo que optavam por frequentar as universidades, tornando-se bastante comum estudar na faculdade. Os jovens passam a ter menos responsabilidades e maior poder de compra, levando, mais tarde, à geração hippie, ao maio de 68 e ao Woodstock. Daí Nicholas Ray ter ido buscar atores jovens e quase inexperientes no cinema, Mineo tinha 16 anos, Wood tinha 17 anos e Dean tinha 24 anos, sendo o mais velho do trio. É curioso que estas três talentosos jovens morreram de forma violenta e anormal. Dean morreu num acidente de automóvel, Wood afogou-se e Mineo foi assassinado. Mortes precoces dos atores que fazem, de certa forma, ligação com as personagens deste filme.

Personagens solitárias, cheias de raiva, fúria de viver, pois ninguém as compreende. Esta solidão que advém do rompimento com um mundo que não lhes corresponde mais. Os adultos (pais, polícias e professores) egoístas e irresponsáveis não transmitem uma boa educação para os seus filhos e isso leva a atos desesperados por parte dos jovens. Jim tenta criar a sua família alternativa com Judy (a sua mulher) e Plato (o seu filho), baseada na compreensão mútua. Plato chega mesmo a dizer que gostava que Jim fosse seu pai e na cena do palácio, os três brincam como crianças que são, encenando que são um casal. A certa altura Jim e Judy deixam Plato, adormecido no chão, sozinho. Quando este acorda vê-se cercado por outros três jovens (um deles era o jovem ator Dennis Hopper) e desesperado usa a pistola que trazia no bolso. Foge da polícia, que entretanto chega, e esconde-se no planetário. Jim e Judy vão ao seu encontro e tentam acalmá-lo. A polícia cercou o edifício e Plato com medo tenta fugir, tornando o final do filme na cena mais comovente de todas. É com um final trágico e comovente que Ray nos mostra uma dura realidade ainda nos dias de hoje, mesmo passados mais de cinquenta anos.

“Fúria de Viver” era para ser inicialmente filmado a preto e branco, mas Ray conseguiu convencer a Warner fazê-lo a cores, transformando o filme com cores vibrantes e com tons expressionistas, que salientavam bem a agitação daqueles jovens. Este foi também o primeiro filme em CinemaScope de Ray, um formato que ele viria a usar bastante.

É de salientar ainda as soberbas interpretações do jovem elenco. James Dean tem aqui a sua melhor interpretação de sempre. Infelizmente esta foi a única parceria entre Dean e Ray. Wood e Mineo foram ambos nomeados para o Óscares de Melhor Interpretação Secundária e Nicholas Ray foi nomeado para o Óscar de Melhor Realizador.

O excelente elenco, argumento e realização dinâmica, tornaram este filme numa das melhores obras do cinema e num dos melhores estudos sobre a adolescência, tornando-se num filme intemporal. “Fúria de Viver” é uma obra obrigatória!

Realização: Nicholas Ray

Argumento: Stewart Stern

Elenco: James Dean, Sal Mineo, Natalie Wood

EUA/1955 – Drama

Sinopse: Num dos mais influentes desempenhos da história do cinema, James Dean é Jim Stark, um novo miúdo na cidade cuja solidão, frustação e raiva reflectiam os sentimentos da juventude da era pós-guerra – e que se repetem 40 anos passados. Natalie Wood (como a namorada de Jim, Judy) e Sal Mineo (na sua primeira aparição no ecrã e no papel do dedicado amigo de Jim, Plato) foram ambos nomeados para os Óscares da Academia pelas suas convincentes interpretações. O realizador Nicholas Ray foi também nomeado para um Óscar por este marcante filme escolhido como um dos 100 melhores Filmes Americanos pelo American Film Institute. Fúria de Viver foi recuperado digitalmente, pelo que este DVD oferece a imagem e som do filme na sua melhor qualidade desde que foi exibido no cinema.

Nota: Este artigo está integrado na comemoração do centenário de Nicholas Ray.

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