«O Gebo e a Sombra» – A pobreza e o dinheiro

Manoel de Oliveira passou quase oito décadas a fazer filmes e agora, aos 103 anos de idade, continua a surpreender-nos com mais uma obra-prima. O seu mais recente filme “O Gebo e a Sombra”, que estreou no Festival de Veneza de 2012, é baseado na peça homónima de Raul Brandão, escrita em 1923.

O filme segue a história de uma família que vive no limiar da pobreza, onde Gebo é um contabilista de idade avançada que tenta sustentar a sua mulher, Doroteia, e nora, Sofia. Ao mesmo tempo tenta esconder o passado do seu filho, João, para minimizar o sofrimento e desgosto das duas mulheres, em especial da mãe.

É de admirar toda esta energia que o cineasta mantém em querer fazer cinema e em elevar o cinema português. Oliveira não está cego, surdo e mudo, pelo contrário, está atento aos graves problemas que o país e os portugueses atravessam. A obra de Manoel de Oliveira tem por hábito contar histórias sobre uma classe social média alta, a burguesia, mas neste filme, o realizador vira-se para a classe social baixa, para os pobres. Este é um drama humano, por vezes tocante, sobre a sobrevivência de uma família pobre que vive na sombra do desgosto do filho, que é ladrão, e da falta de dinheiro para viver.

Gebo, Doroteia e Sofia são uma família que vive na mergulhada na tristeza e na monotonia. Os três fazem as mesmas coisas todos os dias. Gebo é um homem simples e serviente que passa o dia a trabalhar e em casa faz as suas contas de contabilidade, desconhecendo o Mundo exterior. Enquanto que Gebo representa a pobreza, a Sombra representa o dinheiro, esse fardo difícil de suportar a vida inteira, mas também o seu filho João. Este quis libertar-se daquele tipo de vida, preferindo viver nas ruas, a roubar e a matar, para não morrer à fome, para sobreviver, tentando levar uma vida melhor que dos seus pais. Gebo via a vida de duas formas, ou se vive de forma honesta e honrada, ou então tenta-se enriquecer. Gebo também dizia que quando se trata de dinheiro, para ricos e pobres, “o dinheiro nunca se perdoa”.

Este é um dos mais interessantes retratos sobre a pobreza, que apesar de ter sido escrito nos anos 20 do século XX, continua a ser bastante atual, hoje mais do que nunca. Esta é uma estreia pertinente, em época de crise social que vivemos. Todos temos que fazer sacríficios, assim como Gebo faz, ao afirmar à polícia que foi ele que roubou o dinheiro, defendendo João.

O pequeno elenco, composto por Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Ricardo Trêpa, mostrou-se excepcional, em particular as interpretações de Lonsdale e Trêpa. Manoel de Oliveira mantém a sua forma única de filmar, gerindo muito bem o espaço, que conta apenas com um único cenário (a casa) e a fotografia, bela, que faz lembrar os quadros de Rembrandt e de Caravaggio, com a justaposição de luzes e sombras, luz essa que é uma figura presente em todo o filme.

Da vasta obra de Manoel de Oliveira, que contem mais de 50 filmes entre curtas e longas-metragens, daquilo que vi até hoje, “O Gebo e a Sombra” é um dos seus melhores filmes de sempre.

Realização: Manoel de Oliveira

Argumento: Manoel de Oliveira

Elenco: Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, Ricardo Trêpa

Portugal/2012 – Drama

Sinopse: Apesar da idade e do cansaço, Gebo persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia, mas é a ausência do filho, João, que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o teme. Subitamente João reaparece e tudo muda.

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