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«Golpe de Sol» – Um Vicente com novos pontos de alma

Nove anos separam este Vicente Alves do Ó do seu hitchcockiano “Quinze Pontos de Alma” (a sua primeira longa-metragem em 2011), a ainda imbatível “obra-prima”, e tendo em conta essa linha direta que reúne comédias disparadas e biografias do foro artístico é que questionamos, o que ficou do velho Alves do Ó e o que podemos contar com o novo?

A verdade é que o realizador, que encontrou sucesso em “Florbela” (a segunda longa-metragem que posteriormente se converteria numa série televisiva), é um homem constantemente assombrado pela sua existência, quer vindo das memórias do passado, quer do presente que o atormenta, quer o futuro o qual deseja vincar. É quase, em jeito de má-língua, um Almodovar de marca branca, no sentido com que idealiza as suas pessoalidades e que as impõe nas suas obras, nunca escondendo a sua natureza emocional, afetiva e sexual (tal como o cineasta espanhol).

Com “Golpe de Sol”, o realizador encontra-se ciente que este filme é uma desculpa para uma introspeção, uma psicanálise autoinduzida, e como tal, reparte a sua alma em quatro personagens aparentemente distintas, mas igualmente confundíveis nos propósitos e nas suas géneses. Convém salientar que não há artista algum que não trabalhe o seu íntimo, e quem não o faz arrisca-se a ser um mero técnico / tarefeiro. Por mais que se adore ou odeie Alves do Ó (ele tem a capacidade de alimentar essas duas esferas), nunca o poderemos acusar de falta de personalidade ou de isenção artístico-criativa.

Porém, com esta obra … esta, mesma, longe dos seus piores trabalhos (refiro às suas falhadas experiências cómicas como “O Amor é Lindo … Porque Sim!” e “Quero-te Tanto!”), é o filme que mais revela as suas arestas a merecer ser limadas enquanto realizador de corpo e alma. Entre as quais, o completo ego retraído que invalida de uma total entrega emocional nas personagens – quatro adultos prontos a conviver numa residência da costa vicentina, numa tremenda espera por um quinto elemento que lhe trará assuntos pendentes.

Nessa questão, a das personagens, nota-se a dedicação dos atores em construí-las e enraizá-las neste mesmo universo, com especial atenção a Ricardo Pereira na sua demanda pela transgressão de estereótipos já ultrapassados (mas que no nosso audiovisual ainda somos presenteados, graças à escassez da representação), e o alicerce valioso do qual se assume a banda-sonora (“bullseye”) – o artista brasileiro Johnny Hooker – a implementar a ênfase dramática que Alves do Ó não consegue de forma alguma (os atores parecem reconhecer isso, porque os seus gestos são sincronizados com a cadência do cantautor).

Ele próprio afirmou que se sente, por vezes, megalómano, e essa megalomania o atrapalha em tentar resolver trabalhos simples e quase niilistas como este “Golpe do Sol”. Por isso, respondendo à pergunta pontapé de saída que coloquei, a grande diferença está nessa aproximação com o futuro que o espera. Enquanto “Quinze Pontos de Alma”, indiciamos um realizador a emancipar-se perante o panorama que se inseria, em “Golpe de Sol”, testemunhamos um homem preocupado com o seu legado, e aquilo que as futuras gerações o poderão interpretar.

Por enquanto, é essa imperatividade, a de ser relembrado, pelo qual as personagens parecem debater, acorrentadas ao passado que, literalmente, lança os seus ultimatos.

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