Governo de extrema-direita da Argentina corta financiamento público ao Instituto Nacional de Cinema

O coletivo Cine Argentino Unidos no Festival Internacional de Cinema de Berlim 2024. O coletivo Cine Argentino Unidos no Festival Internacional de Cinema de Berlim 2024.
O coletivo Cine Argentino Unidos no Festival Internacional de Cinema de Berlim 2024.

O presidente de extrema-direita da Argentina, Javier Milei, está avançar com fortes cortes no investimento na Cultura, em particular no Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA – Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales), o que terá um impacto negativo nas escolas de cinema, nas salas de cinema e nos festivais de cinema, como o Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata, um dos mais antigos e importantes festivais da Argentina.

Segundo a Variety, este corte no setor do Audiovisual coloca também em risco o “proeminente mercado cinematográfico e televisivo de Buenos Aires, Ventana Sur, que é organizado em conjunto pela INCAA e pelo Marché du Film de Cannes.”

Na Argentina, o INCAA é o equivalente ao ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) em Portugal, responsável pelos concursos públicos de apoio à produção de cinema, séries, assim como à realização de festivais e mostras de cinema.

Num comunicado oficial divulgado esta terça-feira, o Ministério do Capital Humano de Milei disse ter descoberto um défice de 4 milhões de dólares no orçamento do INCAA, pelo que resolveu cortar drasticamente as despesas de todo o financiamento ao INCAA, “suspendendo transferências para as províncias, viagens internacionais, financiamento para festas, pagamento de horas extras, contratação de telefonia móvel, diárias e outras despesas.”

“O nosso compromisso com um défice orçamental zero não é negociável. Acabou o tempo em que os festivais de cinema eram financiados com a fome de milhares de crianças”, afirmou o ministério. “Além disso, com o objectivo de reduzir os 8 milhões de dólares atribuídos aos salários do pessoal, nenhum contrato de arrendamento de trabalho que expire em 31 de Março do corrente ano será renovado”, continuou.

Estes cortes no cinema argentino surgem depois de uma tentativa falhada de Milei em desmantelar por completo o INCAA e a Escola Nacional de Experimentação e Realização Cinematográfica (ENERC). A proposta acabou por não ser aprovada depois de várias manifestações e de uma petição assinada por mais de 300 cineastas de todo o mundo, como o brasileiro Kleber Mendonça Filho, o espanhol Pedro Almodóvar, a francesa Justine Triet ou o mexicano Alejandro González Iñárritu.

No entanto, os cortes no investimento vão mesmo avançar, colocando em risco o funcionamento do instituto. Segundo disse Hernan Findling, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, à Variety: “A resolução é muito clara em relação a todos os cortes a serem feitos no Instituto, que irá pelo menos congelar a indústria por quatro meses”.

“A Argentina passará da produção de cerca de 200 filmes por ano para a produção de alguns, e esses filmes serão apoiados principalmente por streamers.”, disse o produtor argentino Axel Kuschevatzky ao Deadline

Segundo o Libération, Milei quer acabar com os fundos de ajuda ao INCAA, “privatizar as escolas de cinema, acabar com os festivais de cinema e encerrar salas de cinema (…) O Chefe de Estado pretende reduzir a produção abundante do país.” Milei quer portanto cumprir o que tinha prometido em campanha, “atacar a cultura em geral e o cinema em particular, eliminando o financiamento público.”

Segundo o jornal francês, o governo de Milei fingiu recuar prometendo “proteger os recursos”, de um setor que gera 700 mil empregos, com produção abundante (204 longas-metragens em 2022).

Como resposta, os profissionais do cinema e do audiovisual argentino criaram, em setembro de 2023, uma plataforma “em defesa do cinema, da cultura, da educação e da democracia”, intitulada de “Cine Argentino Unido”. O movimento cívico e de artistas unidos tem convocado várias manifestações no país em defesa do cinema nacional: “O ataque ao cinema nacional é ideológico. Não resolve nem a fome nem a pobreza e deixa mais de 600 mil famílias que dependem da indústria sem trabalho”.

Esta mesma plataforma tinha já demonstrado publicamente o apoio ao candidato Sergio Massa, em detrimento do candidato populista de extrema-direita: “acreditamos que as proclamações do partido de extrema-direita que hoje concorre à presidência colocam em risco a convivência democrática e os princípios da nossa Constituição Nacional e por isso como coletivo decidimos manifestar-nos a favor de Sergio Massa nas próximas eleições.”

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