Baseado numa história verídica, “Green Book – Um Guia Para a Vida” é um retrato da América nos anos 1960, segregada pela descriminação. Tony Lip (Viggo Mortensen), um ítalo-americano caucasiano, aceita ser motorista e guarda-costas do famoso pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali). Os dois embarcam numa digressão pelo sul do país, guiados pelo “Green Book”, um guia usado pelos viajantes negros entre 1930 e 1960, que indicava os sítios a evitar e os restaurantes e alojamentos mais seguros.

O realizador Peter Farrelly dá uma visão pouco realista e menosprezada do racismo vivido pelos negros no sul dos EUA, optando por se centrar nas duas personagens de amigos improváveis que se vão conhecendo ao longo da viagem.

O fio condutor principal do filme é a amizade entre as duas personagens. É essa a principal premissa, que é, no entanto, algo previsível para o espectador, pois a relação de duas personagens quase inimigas e tão distintas uma da outra, que se vão aceitando ao longo da viagem, já foi muito explorada no cinema. Este filme acaba por ser um misto de “Amigos Improváveis” (2011) com “Miss Daisy” (1989).

Os temas sociais, aquilo que realmente importava ser desenvolvido, são abordados de forma muito leve. Os dramas pessoais de Don Shirley (como a sua homossexualidade, o não se sentir aceite por negros e brancos) são menosprezados com o tom de comédia aplicado no filme. Ambos vêm de realidades sociais diferentes, mas ambas representam uma segregação étnica. É isso que os une, visto que Don apesar de ser negro nasceu num meio com acesso a um vasto capital económico e social, enquanto Vallelonga é um imigrante que vivia num dos bairros mais precários e problemáticos de Nova Iorque.

O filme “feel good” dos Óscares que quer agradar toda a gente está carregado de clichés. Entre comédia e drama, o argumento está pensado ao milímetro para nos emocionar e sensibilizar para as questões de descriminação racial e social, muito acentuadas naquela época.

Tem sido polémica a sua aceitação por parte de alguma crítica norte-americana e da família de Don Shirley, que já veio a público dizer que o filme está recheado de mentiras. O que o filme nos apresenta é um Don Shirley que não é nada ligado à comunidade negra e que é Vallelonga que o ensina a “ser negro”, ao apresentar-lhe Sarah Vaughan e Little Richard. Mas a verdade é que, de acordo com a família de Don Shirley, ele era um ativista negro bastante ligado à comunidade e aos artistas de raça negra.

Toda esta ambiguidade entre os factos, ficção e a mediana realização e montagem fazem de “Green Book” um filme previsível e demasiado leve para o potencial que o tema tem, sobretudo nos dias de hoje, em que caminhamos novamente para um domínio de superioridade de uns sobre os outros. Contudo, o que dá ainda alguma força e interesse ao filme são as cativantes interpretações de Mortensen e Ali.

Realização: Peter Farrelly
Argumento: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini
EUA/2018 – Drama
Sinopse
: Tony Lip está à procura de trabalho depois do encerramento do Copacabana, a discoteca onde era segurança e porteiro. Conhece então o pianista Don Shirley, que o desafia a conduzi-lo numa digressão pelo sul dos Estados Unidos. Na viagem, começam por entrar em rota de colisão, mas um forte laço começa a crescer entre os dois.

«Green Book - Um Guia Para a Vida» - Racismo doce para agradar
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