«Habemus Papam» – Afinal eles também são humanos!

Da personagem “Michel”, que surge em vários filmes, a “Querido Diário” (1993), ao “O Quarto do filho” (2001) até “O Caimão” (2006), Moretti aborda vários géneros e várias temáticas. Quase todos os seus filmes falam de temas sérios do quotidiano, mas recorrendo à comédia satírica, misturada com drama. Após ter recebido a Palma de Ouro pelo filme “O Quarto do Filho”, Nanni Moretti não tem que provar mais nada. É um dos mais conceituados cineastas do novo cinema italiano, que continua a maravilhar com o seu cinema, que escreve, realiza, produz e interpreta. É muitas vezes comparado com Woody Allen. Mas há uma grande diferença que os distingue, Moretti é europeu e obriga o espectador a refletir com os seus filmes.

Heis que chega “Habemus Papam” (“Temos Papa”), o novo filme de Moretti, com direito a estreia no Festival de Cannes, na secção competitiva. Esperava-se que com este seu novo filme fosse mais uma crítica à religião, mas especificamente, à igreja católica. Mas não nos iludamos, Moretti não escolhe lados, não critica nem promove, apenas torna-se mais realista, pois afinal somos todos humanos. Moretti oferece esta bela, imerecida, dádiva à igreja católica, pondo de lado todas as polémicas que rodeiam o Vaticano.

Com a genial premissa de que o novo papa (Michel Piccoli), inesperadamente eleito, não consegue aceitar as suas novas responsabilidades e o peso que foi posto sobre si, de ser o herdeiro de S. Pedro, entrando em pânico. Os cardeais preocupados com a situação chamam o melhor psicanalista do país (Nanni Moretti) para o ajudar a ultrapassar a crise.

O realizador humaniza de uma forma genial e tocante o Vaticano, dando sentimentos que nunca vimos antes nestas figuras “divinas”. Ter medo é ser-se humano. É este sentimento e o peso da responsabilidade que dão uma dimensão humana a este individuo, o Papa, a figura mais importante da igreja católica, emocionalmente bem interpretada pelo veterano de 86 anos Michel Piccoli.

Existe um perfeito equilíbrio entre a comédia (os cardeais) e o drama (o Papa). Vemos aqui uns cardeais perfeitamente inocentes, que se sentem perdidos como ovelhas sem a presença do seu pastor para os guiar. São quase como crianças, que precisam de atenção e Moretti, que faz o papel do psicanalista, toma conta das crianças. Chegando ao ponto de lhes preparar um torneio de voleibol, dividindo as equipas por continentes. Este é sem dúvida um dos mais belos momentos do filme. Depois temos o Papa, que tem dúvidas, que não consegue aceitar a enorma responsabilidade que tem pela frente. Nem coragem tem para acenar aos seus fieis. Há que viajar até memórias do passado (foi em tempos ator de teatro) para ganhar coragem e decidir o seu futuro. É interessante este paralelismo entre o teatro e o vaticano, pois a teatrialidade é a mesma, o palco é que muda.

Mas Moretti mostra-nos ainda mais, todo o processo de eleição de um novo papa, que é para a maioria desconhecido. Vemos os bastidores e todo o “secretismo” que faz trabalhar a poderosa máquina que é o Vaticano. Com tudo isto, Moretti não está no centro da história, distancia-se um pouco, o que é pena.

“Habemos Papam” é uma obra inteligente e sedutora, com uma boa realização, argumento e banda sonora, que nos emociona e seduz. Este não é um filme só para católicos, é para crentes e não crentes. Mesmo para aqueles que se consideram ateus, como é o meu caso, e que condenam muitos dos atos da igreja católica, vão passar a olhar com um pouco de mais respeito e com menos preconceitos. Claro que não devemos nunca esquecer todos os erros que a igreja católica cometeu e continua a cometer, mas pelo menos uma vez, há que dar tréguas e conhecer o outro lado. Sabe bem dizer que somos todos humanos!

Realização: Nanni Moretti

Argumento: Nanni Moretti

Elenco: Nanni Moretti, Michel Piccoli

Itália/2011 – Drama

Sinopse: O novo papa eleito sofre um ataque de pânico no momento em que é suposto aparecer na varanda da Praça de São Pedro para saudar os fiéis, que esperaram pacientemente o veredicto do conclave. Os seus conselheiros, incapazes de o convencer de que ele é o homem certo para o cargo, procuram a ajuda de um conhecido psicanalista (e ateísta). Mas o medo da responsabilidade que a confiança que lhe foi depositada representa é algo que só ele mesmo poderá enfrentar.

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