“Her Smell – A Música nas Veias” é uma história de superação: mostra que, quando atingimos o fundo do poço, é preciso coragem, mas acima de tudo o apoio exterior certo, para nos realocarmos, sentimental e humanamente.

As cenas de atuação são bem conseguidas, mas pecam por se distanciarem um pouco do realismo puro que se exige a uma obra cinéfila “musical”. De realçar a cena brilhante (repito, absolutamente brilhante), quando Becky canta, numa versão cover, a música “Heaven” de Bryan Adams, à sua filha. É indiscutivelmente o momento alto do filme: o clímax necessário para preencher o vazio sentimental que foi deixando na parte inicial.

O filme começa muito mal, com flashbacks de gravações que em nada atraem o espectador, começando, portanto, por os distanciar emocionalmente. É com a personalidade aguerrida de Becky que vai reconstruindo a narrativa e a beleza daquilo que quer contar. De enaltecer, ainda, que apesar da cinematografia confusa e sem critério, a sonoridade e os timings da profundidade musical externa estão, deve-se dizer, muito bem conseguidos, pois transmitem uma proximidade interessante com o carácter confuso e por vezes macabro de Becky e, claro, da própria narrativa.

A primeira parte do filme, se quisermos dividir o filme em dois momentos — e faz sentido que o façamos —, é muito pesada e confusa, sem grande rigor nem pertinência artística. O que salva o filme, e a história por extensão, é o seu final. No desenlace, tudo acaba por fazer sentido, por reconhecer a apatia intelectual do prelúdio e dar um seguimento lógico e, sobretudo, convicto artisticamente à obra. A interpretação de Elisabeth Moss (conhecida pelo seu célebre papel na série “Mad Men”) é estonteante: digna de Óscar. E é, no final de contas, o que salva o filme de uma tragédia anunciada… Que ganhou asas para um drama razoável — dentro do género.

«Her Smell - A Música nas Veias» – Quando o protagonista salva a obra
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