Assinala-se este mês o quinquagésimo aniversário de uma das mais infames séries de televisão de todos os tempos. Ao longo das décadas, a personagem criada por Bob Kane e Bill Finger em 1939 para as páginas da Detective Comics prestou-se a diversas interpretações no pequeno e grande ecrã, mas atrevo-me a dizer que nenhuma granjeia um contraste de opiniões tão profundo quanto esta. Ingénua, insana, audaz, ridícula, inovadora, infantil, psicadélica e por vezes inenarrável, invadiu as salas dos telespectadores norte-americanos a 12 de Janeiro de 1966 pela mão da estação ABC (que se encontrava numa posição frágil perante a concorrência e aqui jogava uma parte considerável do seu futuro), conferindo toda uma nova dimensão à transposição do universo onomatopaico da banda desenhada para o campo audiovisual, aproveitando ao máximo o potencial da ainda tímida televisão a cores – surfando bem alto a onda da estética Pop.

Ainda que a preto e branco, este casamento foi de certa forma antecipado pelo próprio Andy Warhol, sumo pontífice do movimento artístico. Fanático confesso da personagem, produz e realiza “Batman Dracula” (1964), uma longa experimental e hoje inacessível, feita à revelia da DC Comics.

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William Dozier, produtor e narrador (não creditado), recordava numa entrevista de 1989 como depois de ter sido abordado pelo canal, procedeu à sua investigação, mergulhando numa série de publicações com as quais não estava familiarizado… O veredicto não se fez esperar: “Eles só podiam ter endoidecido!”.

Importa neste ponto recordar o contexto histórico do desenvolvimento da personagem. Encontrávamo-nos ainda muito longe do Cavaleiro das Trevas que hoje nos é familiar, fruto de um amadurecimento que tem como principais marcos os seminais “Dark Knight Returns” (1986) de Frank Miller e “The Killing Joke” (1988) de Alan Moore e Brian Bolland. O Batman de então movia-se num universo muito mais infantil e asséptico, de acordo com a moral, bons costumes e caça às bruxas vigente.

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Foi neste impasse, inspirado pela suspeição de Dozier quanto ao potencial do projecto, que surgiu a ideia que viria a definir toda a estética desta adaptação – o caminho seria o do exagero. Uma comédia para os adultos e uma série de aventuras vibrantes para as crianças, por via a conciliar dois segmentos de público.

Pow, Bang, Crash! O sucesso foi imediato e dominou as onda hertezianas durante um período em que com a guerra do Vietnam como pano de fundo, se preparavam algumas das mais profundas revoluções culturais da história americana. A paródia do herói era também em larga medida – com maior ou menor grau de intencionalidade – a paródia da própria sociedade dos Estados Unidos. Facto que concorre não só para a referida conjugação de um público adulto e infantil, mas também de camadas provenientes da ala conservadora e da contra-cultura. Era o sonho pop concretizado, um produto despudorado, destinado ao consumo de massas.

Adam West, personificação do ideal viril do jovem norte-americano, conseguiu o papel pelo qual seria recordado por toda a vida, acompanhado de Burt Ward, na sua histriónica aproximação a Robin. Sempre com um “Holy!” na manga!

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Se já na banda desenhada Batman devia em grande parte o seu encanto à magnifica galeria de vilões que colocava à prova o seu ethos, também aqui os viu reforçados pelas interpretações caricaturais de Cesar Romero (Joker), Burgess Meredith (Penguin) , Frank Gorshin (Riddler), Julie Newmar ( Catwoman), entre outros.

A série chegou a Portugal com o ligeiro atraso de 26 anos, aquando do surgimento da SIC.

O Batman de 66 não se ficou pela televisão, tendo dado origem a uma longa-metragem lançada pela 20th Century Fox, com estreia em julho – pouco após o final da primeira temporada.

Estávamos praticamente perante um episódio de 105 minutos, que transportou para o grande ecrã uma parte considerável do elenco da série.

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Tanto ao quanto fui capaz de averiguar, o filme não chegou a estrear nas salas portuguesas, sei que estreou na sala dos meus pais em meados dos anos oitenta, numa difusa emissão do canal Premiere, recebida graças um retransmissor pirata com o qual alguém teve a gentileza de agraciar parte da cidade do Porto – viver com dois canais de televisão e sem internet era duro.

A primeira reacção foi de espanto que rapidamente se transformou em êxtase, levando-me a correr para o vídeo e gravar o filme na primeira cassete que encontrei – não podia perder nem mais um minuto daquela preciosidade! No dia a seguir, ninguém me aturava na escola primária, com a histeria entusiasta de uma criança que tinha visto um filme do batman “a sério” – nada dessas coisas de desenhos animados! Não existiu claramente qualquer resistência na adesão àquele universo mirabolante como se de uma representação realista se tratasse, sendo que guardei séria ofensa de uma prima mais velha a quem mostrei a gravação e que se apressou a classificar o filme como uma “porcaria”. Como era possível que não tivesse reparado que aquele tubarão era de plástico?!

Com a adrenalina induzida pela guitarrada surf de Neal Hefti, o fabuloso design do batmobile, a coolness do duo dinâmico e o ronronar da Catwoman (aqui interpretada por Lee Meriwether), quem – no seu perfeito juízo – teria tempo para se preocupar com tais detalhes?

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Por esta altura, pouco faltava para a estreia de “Batman” (1989) de Tim Burton. Embora esse tipo de considerações não tivesse lugar na mente de uma criança, foi essa a razão que fez com que do outro lado do atlântico se tivesse atirado a adaptação em análise de novo para a ribalta, como parte do processo de reconstrução da batmania que nos sessenta tinha varrido os EUA e que agora se preparava para conquistar o mundo.

Apesar de todas as mutações e do desenvolvimento que a personagem foi recebendo pela mão de Burton, Schumacher, Nolan ou Znyder, este artefacto cultural nunca mais abandonou o imaginário popular, tendo fechando por completo o circulo quando em 2013 a DC Comics inicia a publicação de umasérie intitulada “Batman 66”, que (re)transporta para os comics o universo a partir deles criado para a televisão e cinema.

José Alberto Pinheiro
realizador e professor do ensino superior