Penso que toda a crítica cinematográfica começa de uma forma simples, como todo o juízo que emitimos sobre algo, entregamo-nos à experiência que estamos a receber, deixamos que aquilo que temos perante nós nos toque, nos diga algo, e, no melhor dos cenários, nos arrebate. Se nos sentarmos numa sala de cinema cansados, com um pouco de sono, melhor, pois cabe ao filme dar-nos uma injecção inesperada, que nos revitalize, não falo tanto das partes puramente sensitivas, que forçam o olhar pelo olhar, mas que nos intensifique o espírito e o coloque a viajar por planetas imagéticos inesperados, desconhecidos. Esperei que este filme pegasse no meu espirito e lhe desse uma boleia até a esse outro mundo onde os nossos olhos se recusam a fechar, mas isso não aconteceu. A minha crítica poderia acabar aqui, porém, apenas estaria a passar um tipo qualquer de ressentimento ou frustração por não ter viajado para dentro de um sonho, e nem todos os realizadores podem ser Kurosawas, Bergmans ou Tarkovskys. Por isso, todo o filme tem o direito de ser apreciado, porquanto é um produto que tem dentro dele o suor de muitos que nele participam e a ele se entregam.

Quando vemos “O homem que viu o infinito” (2015), é impossível não lhe associarmos “Uma mente brilhante” (2002). Pois, neste filme, também estamos perante uma biografia que conta história de um génio da matemática… É-nos contada a história de um autodidacta indiano, Srinivasa Ramanujan (Dev Patel), que consegue a atenção dos conceituados matemáticos de Cambridge, entre eles o matemático inglês G. H. Hardy (Jeremy Irons), que o acolhe e cria com ele uma bela e inesperada história de amizade.

Em termos estéticos, o filme conta uma história de uma forma um pouco apressada. Não existe muita dinâmica dentro das imagens, parece que alguém se esqueceu da câmara e da luz, da composição das imagens, para poder contar, rapidamente, uma história. As belas paisagens da Índia ou de Cambridge foram pouco exploradas; ou mesmo a neve, que aparece apenas como neve, sem que lhe fosse dada alguma força estética pela câmara. Todo o filme foi filmado de forma a focar as personagens e as suas falas, sem conseguir integrar, verdadeiramente, todo o envolvente. Porém, aqui e ali, podemos ver algumas fotografias interessantes.

O filme, pode ser interpretado como uma cópia, de menor qualidade, do filme de Ron Howard; porém, ele deve ser apreciado pela sua singularidade, e, embora seja um filme inferior ao de Howard, contém particularidades que devem ser destacadas.

Nem tudo é negativo no filme, ele expressa muito bem a forma como a academia inglesa vivia num fechamento elitista, como se dentro dos seus claustros não reinasse um amor pelo saber, mas antes algum tipo de preconceito em relação àqueles que não partilhassem a mesma nacionalidade. Neste ponto, a personagem de Jeremy Irons torna-se essencial, pois, ao mesmo tempo que faz com que a comunidade académica inglesa repense o preconceito que tende a menorizar o estrangeiro, ele cria uma amizade inesperada, pois aquela frieza que normalmente é atribuída ao matemático, preso dentro das suas abstracções, é aqui transformada numa ternura especial, tal como as suas formas de sentir.  

Não é um filme que se transfira para dentro de nós, que tenha muita potência para sobreviver ao final da sua projecção; porém, fica o valor de uma história de alguém que lutou e conseguiu alcançar o sonho de uma vida, ser lido e reconhecido; e fica também a beleza de um laço que é criado de uma forma tão pura e peculiar. Afinal os matemáticos são feitos de carne e osso, e lá dentro, habita a eterna incomensurabilidade de um coração que pulsa por si mesmo…

Realização:  Matt Brown
Argumento: Matt Brown
Elenco: Dev Patel, Jeremy Irons, Malcolm Sinclair
EUA/2015 – Biografia/Drama
Sinopse: A história da vida e carreira académica do matemático indiano, Srinivasa Ramanujan, e da sua amizade com o seu mentor, Professor G.H. Hardy.

«O Homem Que Viu o Infinito» - Outra mente que brilha, o filme nem tanto
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