O povo argentino respira cinema e quando assim é, dificilmente saímos do cinema com aquela sensação de vazio que muitas vezes sentimos assim que surgem os créditos finais. Neste filme, não há vazio que nos toque. Ele está cheio de bom humor, de excelentes interpretações e o seu argumento é de elevada originalidade.

Daniel Mantovani (Oscar Martínez) é um escritor argentino, que vive em Barcelona há décadas. Após ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, recebe um convite para receber um prémio que lhe é atribuído pelo povo de Salas, um pequeno vilarejo argentino, onde passou toda a sua infância e onde nunca regressou desde que viajou para a Europa.

Daniel, surpreendentemente, recusa todos os grandes holofotes da TV e aceita voltar à sua terra natal e rever os amigos de infância assim como as pessoas que foram inspiração para as suas obras. Sabemos que a obra de um escritor vive das experiências deste, e por isso, o filme mostra-nos um artista dividido entre a nostalgia de querer voltar às suas origens ao mesmo tempo que tem a consciência de se estar a aventurar numa realidade de onde ele sempre quis fugir e que se tornou para ele tão distante e estranha. É esta aventura que o seduz e o faz voltar e, a certa altura, a personagem entra num turbilhão de acontecimentos que vão enriquecer o filme sobremaneira, como se víssemos diante de nós nascer uma obra literária que se escreve por si própria.

O filme levanta, de uma forma bastante descontraída, questões sobre a fronteira entre a ficção e a realidade: talvez o mundo humano e as suas criações metafísicas resultem de uma eterna batalha entre os falsários e os amantes da verdade, e é esta batalha que vemos no filme. O que acontece quando divinizamos a verdade? Acontece o instinto de inquisição: confrontamos imagens e signos com uma verdade, que temos muita vontade que exista. E deste lado estão os moradores de Salas, que vão pedir contas ao escritor pelas suas palavras, na ilusão de serem eles os contemplados na sua obra. Mas, quando divinizamos a mentira, algo mágico surge, a beleza. A beleza não conhece verdade, moral ou inquisição, ela só conhece caos, matéria viva em constante movimento e mutação. É deste lado que está Daniel, um corpo concreto, no seio daquela que pode ser a sua mais ousada aventura, à procura que as forças vivas se apoderem dele, e que sejam elas a escrever a sua próxima obra.

O filme deixa-nos no meio desta batalha metafísica, e enquanto vemos o artista a ser engolido pelas forças patológicas da verdade, vamos rindo com as peripécias mais cómicas e com as situações mais inesperadas. Tudo isto, sempre com a preocupação de preencher o espectador com algo mais do que apenas entretenimento. Este filme é uma das melhores comédias do ano e vem confirmar o talento daqueles que já o tinham revelado, em 2009, com o filme “O Homem ao Lado”: a dupla de realizadores, Gastón Duprat e Mariano Cohn, em parceria com o brilhante argumentista, Andrés Duprat.

Realização: Gastón Duprat, Mariano Cohn
Argumento: Andrés Duprat
Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio
País – Género: Argentina, Espanha / Comédia; Drama
Sinopse
: Depois de recusar grandes e prestigiados prêmios em todo o mundo, o Sr. Mantovani, Prêmio Nobel de Literatura aceita um convite para receber o Título de Cidadão Ilustre da sua cidade natal, na Argentina, que tem sido a inspiração para todos os seus livros. Acontece que aceitar este convite é a pior ideia da sua vida.

 

«O Ilustre Cidadão» - O falsário e os amantes da verdade
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