Imagens que ardem: incêndio na Cinemateca brasileira

FOTO: DR

Não se pode falar do contato entre a imagem e o real sem falar de uma espécie de incêndio.
Portanto, não se pode falar de imagens sem falar de cinzas.

Georges Didi-Huberman

 

Muita da problemática estética constitui-se em torno do potencial imagético, quer isto dizer: será toda a imagem imitação do real ou poderá dar-se a verdade como imagem. Segundo Georges Didi-Huberman, as imagens ardem no seu contacto com o real, na medida em que nos consomem e, como tal, inflamam-se. O Brasil está a arder, precisamente porque nada o consome e muito menos o país se deixa tocar pelo real, mas antes porque impera a vontade e o poder de fazer queimar a cultura e a arte. Se, em 2018, assistimos ao incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, pelo meio assistimos aos incêndios florestais da Amazónia, que foram captados do espaço, em imagens nunca antes vistas, em 2021, foi a vez da Cinemateca Brasileira, em São Paulo. É uma tragédia em nada surpreendente, que já tinha vindo a ser denunciada, conforme notícia do nosso blogue, que pode ser lida aqui. No mesmo momento em que reabre o Museu da Língua Portuguesa, anteriormente devastado pelo fogo, a Cinemateca arde contra todos os apelos e alertas agora reiterados no Manifesto escrito pelos trabalhadores: «Crime Anunciado». Parece-nos igualmente criminoso que se reabra o Museu da Língua Portuguesa, enquanto se queimam filmes, contra toda a linguagem da arte que une letra e película, ou não fosse o sucesso de «Fahrenheit 451», realizado em 1966 por François Truffaut, e que adapta a distopia literária de Ray Bradbury. Este é o exemplo de uma distopia tornada realidade por demasiadas vezes, ou não fossem as bibliotecas queimadas pelos fascistas que, erradamente, creem que podem apagar a memória.

A imagem toca o real e reaviva a memória, reparando-a, pois se o fascismo brasileiro impede a proliferação do dito cinema “comunista”, podemos hoje assistir em salas de cinema portuguesas, graças a filmagens inéditas descobertas em arquivo russo pelo cineasta Sergei Loznitsa, ao «Funeral de Estado» (2019), documentário que devolve as imagens do enterro de Estaline. Por conseguinte, todo o ditador que ousa engendrar uma montagem enviesada do arquivo de memórias, na tentativa de vedar-lhe o acesso através da destruição, ou da propaganda de culto de personalidade, não tem consciência de que o «arquivo é sempre cinza» pronta a reacender. Esta cinza é a dialética que a imagem estabelece com a história. Um arquivo não é imune à passagem do tempo e as imagens nunca estão exclusivamente no presente, apesar disso, o arquivo possibilita interrogar as relações de tempo, abrir brechas no discurso dos vencedores e dos vencidos, e que, por isso mesmo, deve ser um sintoma preservado e protegido.

A imagem torna-se, cada vez mais, «questão complexa e ardente», como afirma Didi-Huberman, se, por um lado, ela é veículo de mentira que testa a nossa credulidade, por outro lado, nada mais evidente e devastador que as chamas a proliferarem por entre arquivos de memória e de história para sempre irrecuperáveis. A memória repara-se através de imagens, são o cinema e a literatura que ousam agrupar, compilar, reescrever a verdade, e contar as realidades passadas e vindouras. Num país onde há imagens do Presidente a desfilar em moto em plena pandemia, e já antes foram divulgadas imagens do seu alegado ferimento enquanto candidato presidencial, a confiança que os cidadãos depositam na veracidade da governação está dividida, há amontoados de cinzas que deveriam unir todos numa igual crença, a da irreparabilidade da destruição alheia.

E quando somos nós a queimar as imagens, e quando elas são consumidas pelas chamas que provocamos em nome de apagar a memória e destruir a cultura, o que restará para contar a história. Confrontado e consumido pelas imagens que tocam o real, será o homo spectator capaz de trabalhar o olhar, ou deixará de ver e seguirá cego e friamente a alienação com o real e com o comum. Deixamos à esperança o desejo de uma nova arqueologia das imagens e das palavras, cuja narrativa não revele incêndios, apenas vontades e imagens ardentes.

 

Texto escrito por:

Maria Inês Gomes
Cláudio Azevedo

 

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