Gaspar Noé é um realizador que filma as entranhas. Na sua curta-metragem “Carne” (1991), podemos já ver aquilo que talvez seja a essência do seu cinema. A carne remete para a luz vermelha muito presente numa imagética que veste a crueza visceral com que o cineasta expõe a vida, criando viagens reflexivas, impregnadas de afetos, até aos meandros mais obscuros da moral.

Alex (Monica Belluci), Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) vão juntos a uma festa particular, porém, a excessiva euforia de Marcus faz com que Alex queira abandonar a festa mais cedo. A partir daí, o seu destino parece estar marcado e vamos deparar-nos com o sentimento demasiado duro de uma inevitável irreversibilidade seguida por uma forte vontade de vingança.

A polémica cena da violação é, de facto, uma imagem indigesta. A longa duração da cena coloca a nossa mente a mastigar afetos demasiado intensos que culminam numa impossibilidade de compreensão: a certa altura da cena, pelo manifesto excesso da sua duração, é a nossa mente que assume os comandos, questiona-se sobre aquele acto, mas está condenada a fracassar. Gaspar Noé parece querer, sobretudo, que sintamos na pele o fracasso moral da humanidade e a nossa impotência intelectual para o compreender.

A narrativa invertida faz com que, paradoxalmente, a história se intensifique à medida que o ritmo do filme abranda. O filme inicia-se no seu clímax emocional. Os movimentos da câmara traduzem a efervescência e a agitação que é vivida pelas personagens. A câmara é o primeiro corpo a receber os afectos físicos, os embates tornam presentes a intensidade das emoções através dos vários estremecimentos da imagem. Mas, ao longo do filme, este estremecimento vai desaparecendo e a câmara acaba por estabilizar, e vamos sendo confrontados com aquilo que aconteceu antes da violação. Esta parte do filme, menos emotiva e aparentemente mais calma, faz emergir o sentimento de uma absoluta desesperança. É genial – e serenamente aterradora – a analogia final através do poster do filme de Stanley Kubrick, “2001: Odisseia no Espaço” (1968): o realizador dá a ver a imagem esperançosa de uma humanidade renascida, apenas para nos dizer, com o máximo pessimismo: “esqueçam, porque a esperança morreu e irá morrer, sempre, pelas vossas malignas mãos. É o mal que vós reproduzis e é apenas ele que irá retornar eternamente”.

Este é um filme que nos afecta tão intensamente que parece activar em nós um poder reflexivo que pode reverberar durante dias, semanas, meses, anos? Cumpre bem a sua capacidade expressiva, pois todo ele são forças que se apoderam de nós. Com mais uma referência a Kubrick, essas forças agarram-nos a face, abrem-nos os olhos e forçam-nos, quase cruelmente, a fixar o olhar em todo o horror presente nas imagens. Se toda a humanidade fosse, no seu fundo mais íntimo, boa e a arte tivesse uma eficácia ética imediata, bastaria um filme como este para mudar o mundo. Mas a pergunta que fica é: seremos capazes de passar os olhos por aquelas imagens novamente?

Realização: Gaspar Noé
Argumento: Gaspar Noé
Elenco: Monica Belluci, Vincent Cassel, Albert Dupontel
França/2002 – Drama
Sinopse: Contado de trás para a frente, o filme narra a busca por vingança de Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel), depois que Alex (Monica Bellucci), namorada de Marcus e ex de Pierre, é brutalmente violada.

«Irreversível» - A morte da esperança e o mal visceral
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