Jane Campion: 6 filmes para conhecer a realizadora

A conexão de Jane Campion com as artes está no DNA, junto de seus irmãos Anna e Michael, Campion cresceu na coxia de um teatro na distante Nova Zelândia, por conta de seus pais Richard (diretor de teatro e professor de interpretação) e Edith (atriz e dramaturga) terem fundado a companhia teatral New Zealand Players – a New Zealand Players foi uma das primeiras companhias de teatro profissional da Nova Zelândia. Entretanto, inicialmente, a diretora renegou a ideia de seguir carreira nas artes dramáticas, formando-se em Antropologia, em 1975.

Richard e Edith Campion, com suas filhas Anna e Jane e uma mulher não identificada, tirada em 1954 por John Ashton de Wellington.

No entanto, Campion não conseguiu fugir de suas raízes, em 1976, matriculou-se na Chelsea Art School, de Londres. Mais tarde, ela obteve um diploma de pós-graduação em artes visuais pela Sydney College of the Arts, da Universidade de Sydney, em 1981. Seu cerne artístico foi moldado em parte por sua educação na Sydney College of the Arts, citando a célere pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) e o provocativo escultor alemão Joseph Beuys (1921-1981), como suas grandes influências.

Ainda assim, sua insatisfação com as limitações da pintura levou-a ao cinema e à criação de seu primeiro curta-metragem, “Tissues”, em 1980. Nesse sentido, em 1981, ela começou a estudar na Australian Film, Television and Radio School, onde produziu dezenas de outros curtas e se formou, em 1984.

A fama em seu país chegou com “Sweetie”, de 1989, o filme que lhe rendeu destaque no Festival de Cannes e foi premiado no Independent Spirit e no AACTA Award. Jane começou a se destacar internacionalmente com “Um Anjo em Minha Mesa” (1990), mas seu sucesso veio apenas quatro anos depois, com o espetacular “O Piano” (1993), longa que lhe rendeu o Oscar de Melhor Argumento Original e uma nomeação ao Oscar de Melhor Realização. Os dramas “The Portrait of a Lady” (1996) e “O Poder do Cão” / “Ataque dos Cães” (2021), são outros destaques de sua carreira.

Cartaz de “Um Anjo em Minha Mesa” (1990).

Em sua célere filmografia alguns temas e elementos são recorrentes, como adaptações de densas obras literárias, o erotismo, o impacto do poder entre homens e mulheres que permeia as relações sociais, os conflitos geracionais entre integrantes de uma mesma família, as relações sociais simbolicamente construídas, os personagens que lidam com algum tipo de opressão ou abuso psicológico, a forte presença da natureza e de paisagens na construção dos estados emocionais e os espaços vazios deixados pelas mudanças.

Campion é perfeccionista com todas as minúcias do processo de produção, ela também é criteriosa com a parte técnica de suas produções, sobretudo, com a fotografia, direção de arte, figurino e a trilha sonora. Até o momento, a neozelandesa dirigiu oito longas, vários deles escritos, coescritos e adaptados por ela mesma.

A neozelandesa fez história ao ser indicada a Melhor Realização no Oscar 2022 pelo filme “O Poder do Cão” – “O Poder do Cão” foi o recordista de indicações no Óscar 2022, com 12. O longa foi indicado a Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Edição, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Fotografia e às categorias de atuação. Nesse aspecto, Ari Wegner, diretora de fotografia do filme, é apenas a segunda mulher a ser indicada na categoria de Melhor Fotografia na história da premiação.

Ari Wegner e Jane Campion

Campion é a primeira mulher a ser indicada duas vezes na categoria ao longo de sua carreira. Como comentei acima, sua primeira nomeação veio em 1994 pelo longa “O Piano”, que não levou o prémio de realização, mas venceu na categoria de Melhor Argumento Original.

Cartaz de “O Piano” (1993)

Em 1994, ela foi a segunda mulher indicada na categoria – sua indicação ocorreu quase 20 anos após a nomeação da primeira mulher. A primeira foi Lina Wertmüller, nomeada em 1976, por “Pasqualino Sete Belezas”. Felizmente, nos últimos anos, as mulheres têm sido melhor representadas na categoria. Em 2021, pela primeira vez na história do prémio, duas mulheres foram indicadas ao prêmio de direção: Emerald Fennell por “Uma Miúda com Potencial”Chloé Zhao por “Nomadland – Sobreviver na América”. Outras mulheres já indicadas na categoria: Sofia Coppola por “O Amor É um Lugar Estranho” (“Lost in Translation“)Greta Gerwig por “Lady Bird”.

Em 2022, ela tem a chance de ser a terceira mulher a vencer na categoria na história da premiação, após as vitórias de Kathryn Bigelow por “Estado de Guerra” – a primeira mulher a ganhar o prémio de melhor realizadora, e Chloé Zhao pelo elogiado “Nomadland – Sobreviver na América”.

Nesta edição, a neozelandesa enfrentará Paul Thomas Anderson com seu incrível trabalho em “Licorice Pizza”Kenneth Branagh com seu intenso drama familiar “Belfast”Steven Spielberg com sua versão do clássico “West Side Story” e o japonês Ryûsuke Hamaguchi com o sublime “Drive my Car” – Spielberg já venceu Campion em 1994 com “A Lista de Schindler”.

Abaixo, o Cinema Sétima Arte lista seis títulos para quem quer conhecer ou se conectar mais com a obra da excepcional Jane Campion:

 

“O Piano” (1993):

Campion tornou-se a primeira diretora a ganhar a Palma de Ouro em Cannes com este longa que também liderou a votação de 100 melhores filmes dirigidos por mulheres de todos os tempos promovida pela BBC em 2019. Holly Hunter interpreta Ada McGrath, uma mulher muda enviada à Nova Zelândia do século 19 para um casamento arranjado. Junto com ela viajam sua filha e seu bem mais precioso: um piano. O filme ganhou três Óscares: argumento original para Campion, melhor atriz para Hunter a atriz secundária para Anna Paquin (na época com apenas nove anos).

Holly Hunter e Anna Paquin

Para Campion, em “O Piano”, a mudez, mais do que uma deficiência pessoal, significa a impossibilidade da mulher de expressar-se pela palavra. A música torna-se, assim, um derivativo, uma maneira de driblar a opressão de um universo masculino e fechado à compreensão da feminilidade. Nisso, não há gratuidade na ambientação do filme numa Nova Zelândia ainda em fase de colonização: a rusticidade do local compõe o quadro ideal para Campion desenvolver seu tema. 

 

“Retratos de uma Senhora” (1994):

O longa é baseado em um livro de Henry James (1843-1916). É estrelado por Nicole Kidman que interpreta Isabel Archer, uma decidida jovem americana que visita parentes na Europa dos anos 1870. Cobiçada por vários pretendentes, ela quer conhecer o mundo e a si mesma antes de se casar. Até que uma herança inesperada e um relacionamento com um homem sedutor alteram seus planos. Em 1997, o filme foi indicado ao Óscar de Melhor Atriz Secundária (Barbara Hershey) e Melhor Guarda-roupa (Janet Patterson).

Nicole Kidman

Em “Retratos de uma Senhora”, Campion alcança o ápice ao criar cenas esteticamente impactantes, para o que colabora a impecável e detalhista reconstituição de época e a fotografia inesquecível do neozelandês Stuart Dryburgh.

 

“Fumo Sagrado!” (1999):

Harvey Keitel voltou a trabalhar com Campion neste drama exibido no Festival de Cannes e protagonizado por Kate Winslet. Ela interpreta Ruth, uma jovem australiana que entra para um culto religioso durante visita à Índia. Tentando reverter o processo, os pais de Ruth inventam uma mentira para que ela volte à Austrália e contratam PJ Waters (Keitel), um especialista em “desprogramar” convertidos. O argumento foi escrito por Campion em parceria com sua irmã, Anna Campion.

Harvey Keitel e Kate Winslet

“Fumo Sagrado” não chega a ser um ótimo filme, mas merece ser visto. O filme peca um pouco por seu argumento não tão bem estruturado, o que é uma surpresa, já que Campion ganhou um Óscar de Melhor Argumento Original por seu magnum opus “O Piano”, em 1993.

 

“Atracção Perigosa” (2003):

Na época de seu lançamento, o longa foi mal recebido pela crítica especializada. A polêmica central foi a escalação de Meg Ryan, tida como “namoradinha da América”, em um thriller erótico com cenas de sexo e nudez. Felizmente, nos últimos anos, muita gente tem revisitado o polêmico cult. “Atracção Perigosa” foi escrito por Campion, em parceria com Susanna Moore e Stavros Kazantzidis. A história é centrada em Frannie Avery, professora ouvida pela polícia local após uma jovem ser assassinada perto de onde ela mora. Aos poucos, Frannie se envolve cada vez mais com a investigação e com o detetive responsável, interpretado por Mark Ruffalo.

Meg Ryan e Mark Ruffalo

Em “Atracção Perigosa”, Campion procura desenvolver dois temas nada estranhos à sua obra, sendo o primeiro destes temas a grande diferença entre homens e mulheres no que diz respeito ao amor. Ao longo da projeção, Campion retrata todos os personagens masculinos como indivíduos instáveis e pouco confiáveis, contrastando com a natureza romântica e sonhadora das figuras femininas que costumam desiludir. Infelizmente, a necessidade de se concentrar nos elementos policiais da trama acabam impedindo que a diretora se aprofunde nas discussões pelas quais obviamente se interessa, transformando o filme em uma experiência fria e sem foco.

 

“Estrela Cintilante” (2009):

O longa é a adaptação de uma biografia do poeta inglês John Keats (1795-1821) escrita por Andrew Motion. A diretora focou o filme nos três últimos anos da vida do escritor e em seu relacionamento com a jovem Fanny Brawne (1800-1865), interpretados no filme por Ben Whishaw e Abbie Cornish. O longa integrou a competição oficial do Festival de Cannes e foi indicado ao Óscar de Melhor Guarda-roupa, novamente assinado por Janet Patterson.

Ben Whishaw e Abbie Cornish

No argumento de “Estrela Cintilante”, Campion não fez muito na tarefa de fascinar o público com as poesias de John Keats, algo comum em trabalhos biográficos que se dedicam mais em esmiuçar a pessoa e menos o seu trabalho. Porém, no quesito cénico, ela usufruiu desse respiro de contemplação com tomadas que, graças a um trabalho técnico arrebatador e o desempenho de Abbie Cornish.

 

“O Poder do Cão” (2021):

Irmãos e parceiros de negócios, Phil (Benedict Cumberbatch) e George Burbank (Jesse Plemons) administram o rancho de seus pais juntos, mas não poderiam estar mais separados. Por um lado, Phil é grosseiro e sujo, recusando-se a tomar banho na banheira da casa enquanto conduz rudemente os trabalhadores do rancho; o cão alfa caubói clássico sem o tiroteio. George é quieto e culto, suas roupas imaculadas e elegantes se projetando em meio a um mar de planícies de Montana (principalmente filmadas na Nova Zelândia) e lacaios corpulentos que preferem respeitar laços e calças em vez de gravatas borboleta e graxa de sapato. Enquanto Phil pode encorajar seus homens a intimidar seu irmão, chamando-o abertamente de “gordo”, os dois dividem um quarto, Phil está bêbado com a necessidade parasitária de seu irmão por ele.

Benedict Cumberbatch  e Jesse Plemons

Há um vínculo sensível, mas tácito, entre os dois homens, então, quando George de repente se casa com Rose (Kirsten Dunst), uma viúva suicida que administra uma pousada, ele fica furioso. Como essa mulher se atreve a entrar na família, especialmente considerando a disparidade financeira entre os recém-casados. O filho adolescente de Rose, Peter (Kodi Smit-McPhee) faz parte do pacote e é tudo menos normal, sua estranha estranheza chamando a atenção da ira reprimida de seu novo tio.

Em O Poder do Cão, Campion cozinha lentamente uma tensão palpável que resulta em um final não tão óbvio, mas não muito surpreendente, encerrando uma jornada definida por sua esperança melancólica e fúria digna. O longa é amplamente considerado um dos melhores filmes do ano, mas isso não significa que ele se revelará a você na primeira vez que você assistir. Em linhas gerais, o filme começa como um western, flerta com se tornar um romance e, no final, revela-se como um thriller lento, completo com uma surpresa, cuja resposta é sugerida quase tão sutilmente quanto o próprio assassinato.

O filme foi nomeado ao Óscar 2022 nas categorias: Melhor Filme (Jane Campion, Tanya Seghatchian, Emile Sherman, Iain Canning e Roger Frappier), Melhor Realização (Jane Campion), Melhor Ator (Benedict Cumberbatch), Melhor Ator Secundário (Kodi Smit-McPhee e Jesse Plemons), Melhor Atriz Secundária (Kirsten Dunst) e Melhor Argumento Adaptado (Jane Campion).

 

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