A par da minha paixão pelo cinema existe uma outra, não menos cinemática, o ténis. A minha atracção pelo ténis sempre foi mais pela sua parte estética do que pela atlética ou competitiva. Lembro-me de, há alguns anos, quando dei as minhas primeiras aulas de Filosofia aos alunos do Ensino Secundário, usar um vídeo do gesto de serviço de Pete Sampras para introduzir aos alunos a especificidade da experiência estética. Sabia que, dificilmente, os alunos perceberiam o poder estético daquela imagem.  Seria necessário recortar aquela imagem do seu contexto natural, de jogo e competição, e isso requer um exercício de distanciamento que a grande parte dos adolescentes ainda não possuem.

Julien Faraut, com este seu ensaio visual, consegue elevar o movimento do desporto até uma dimensão estética, para fazer um belo retrato do peculiar tenista americano John McEnroe. Dar às coisas a possibilidade de se tornarem inúteis apenas para nos exaltarem a consciência é, no fundo, um processo de salvação da matéria. Faraut salva duplamente: salva a matéria imagética da sua finalidade utilitária; e salva, ainda, uma vasta extensão de película de 16mm, que Gil de Kermadec gravou durante toda uma vida. Kermadec, vinculado à Federação Francesa de Ténis, começa por gravar vídeos didácticos sobre as principais técnicas do ténis, passando depois para a gravação de entrevistas com tenistas, para tentar captar a singularidade de cada jogador. Em 1985, Kermadec dedica-se à gravação de imagens de John McEnroe, aquando da sua passagem por Roland Garros, na final fatídica em que perdeu para o tenista checo, Ivan Lendl. Se Kermadec procurava singularidade, então McEnroe seria um exemplo perfeito para retratar e guardar para a posteridade.

Faraut, vai entre cruzando o ténis e o cinema, juntando às imagens algumas frases que Serge Daney escreveu no jornal Libération. O crítico francês viu no ténis algo que não existe noutros desportos: são os jogadores que determinam a duração do jogo; existe “uma contagem decrescente relativa”. Tal como um realizador, o tenista que serve dá início à contagem do tempo, e como disse Daney, o crítico é aquele que responde, do outro lado da rede. McEnroe é um bom exemplo desse tipo de jogador com a capacidade de controlar o tempo, através dos intervalos que provocava nos jogos para direcionar a sua ira para qualquer coisa que interferisse minimamente com o seu foco. É McEnroe quem dirige e actua. As suas encenações parecem conter algo de real e ao mesmo tempo fictício, um vislumbre de fúria e outro de arte, de mentira.  Faraut explora muito bem esta característica dramática do tenista intensificando o poder estético do seu ensaio. McEnroe é, ao mesmo tempo, conteúdo e forma. O realizador vai esculpindo o corpo do tenista como este esculpe os seus gestos, dando a ver a estética presente na exterioridade do movimento para depois entrar no interior do tenista, dentro de um turbilhão de emoções pronto a explodir, a qualquer momento, por detrás de uma falsa quietude.

Faraut sopra a poeira acumulada por cima das bobines de Kermadec e, com um intenso fulgor criativo, consegue ressuscitar imagens que, sem as suas pinceladas, ficariam esquecidas algures entre a banalidade dos vídeos instrucionais e outras inúmeras bobines com tenistas dentro. O realizador entrança a imagem com aquilo que realmente dá algo de original ao seu ensaio, o som. Se os vídeos instrucionais são acompanhados por uma voz que explica os movimentos da imagem, Faraut retira as imagens da banalidade através das reflexões que vai introduzindo sobre as imagens. O ténis é elevado à categoria de arte, o seu movimento exterior é belo porque o desenho dos seus gestos possui reminiscências do cinema: o silêncio extremo; o jogador bate a bola no chão; levanta o seu braço esticado e com uma enorme subtileza desprende a bola dos seus dedos para que ela suba numa trajectória rectilínea; o braço, agora esticado, faz da mão uma mira; o seu corpo engatilhado aguarda a altura ideal para atacar a bola; o seu corpo dispara; o corpo reduz-se a um braço sedento de bola, que se acha capaz de alcançar o sol; ouve-se  o som que anuncia uma nova contagem do tempo; os pés deixam o solo; as pernas levantam voo e o corpo torna-se agora uma cauda desgovernada da raquete.

Realização: Julien Faraut
Argumento: Julien Faraut
Elenco: John McEnroe, Ivan Lendl, Mathieu Amalric
França/2018 – Documentário
Sinopse
: Um filme sobre o corpo humano, o ténis e uma lenda do desporto. Um documentário sobre a final de 1984 do Open de França entre John McEnroe e Ivan Lendl, quando o tenista americano era o melhor jogador do mundo. Através de filmes de arquivo de 16 mm das suas actuações em Roland Garros, revela tanto a atenção de McEnroe ao desporto em si como às próprias filmagens, criando um retrato vivo e imersivo de um atleta motivado. Um filme sobre ténis, sobre o corpo humano e o movimento e, em última análise, sobre como tudo isto se liga com o próprio cinema.

«John McEnroe: O Domínio da Perfeição» - O Ténis como obra de arte
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