Joshua Oppenheimer nasce a 23 de setembro de 1974 no Texas, e é hoje cidadão britânico a viver em Copenhaga. Autor de variadas curtas documentais para a televisão, foram as duas únicas longas que lhe deram nomeações ao Óscar para Melhor Documentário.

Essas duas obras foram realizadas na Indonésia, um país com uma história nada fácil: as ditaduras, a repressão, a situação de Timor, tudo isto fez com que esta Nação fosse olhada com desconfiança. Ambos os documentários lidam com a “luta contra os comunistas” (e imigrantes chineses), executados por gangsters a soldo do exército indonésio, entre 1965 e 1966. O número de mortos oscila, como sempre acontece nestas coisas: vai de 500.000 pessoas a três milhões. Os assassinatos espalharam-se para além de Jakarta, até Bali e a ilha de Java. Crianças, mulheres, idosos — ninguém foi poupado.

Oppenheimer trabalha há mais de uma década com milícias, esquadrões da morte e as suas vítimas, para explorar a relação entre a violência política e o imaginário da sociedade.

Estes criminosos nunca foram julgados e condenados, pelo contrário, foram elevados a heróis pela ditadura, e enriquecidos com recompensas. Hoje, vivem lado a lado com as famílias das vítimas e ainda alguns ocupam lugares de poderio. Persiste nas pessoas o medo e o trauma.

O Ato de Matar (The Act of Killing – 2012): o cinema da banalidade do mal

“O Ato de Matar” é um documentário realizado conjuntamente por Oppenheimer,

Christine Cynn e um realizador anónimo indonésio – todos os colaboradores naturais da Indonésia tiveram as suas identidades preservadas – e retrata as execuções em massa implementadas por grupos paramilitares e gangsters, chefiadas pelo governo de extrema-direita de Suharto.

Oppenheimer conta a história de Anwar Congo, herói nacional, avô, — e chefe de um antigo esquadrão da morte; e de Herman Koto, um líder paramilitar, que ainda extorque pessoas.

O cineasta fez um filme dentro de um filme, sugerindo a Anwar e Koto que façam uma dramatização dos seus crimes, revelando tantos detalhes sobre as torturas, os

assassinatos, o submundo da política da Indonésia, e a sua própria filosofia de “vida de bandido”, autoproclamando-se de “gangsters”, com um orgulho sobejo, e obscurecendo o que é realidade, o que é fantasia. Por exemplo, Anwar é fã de cinema americano, sendo em Hollywood que se inspirou para aprender a estrangular comunistas com fios de arame.

“O Ato de Matar” teve a sua estreia em 2012 no Festival de Cinema de Telluride, nos Estados Unidos, participando depois em muitos outros festivais, incluindo os de Toronto e Berlim. Recebeu cerca de 28 prémios, destacando os de Melhor Documentário e o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Berlim, e o de Melhor Documentário nos European Film Awards.

O Olhar do Silêncio (The Look of Silence – 2014): todos os assassinos são heróis aos olhos da Nação

“O Olhar do Silêncio” é o filme-epílogo de “O Ato de Matar”, e revela a dolorosa memória de uma família que confronta os que vitimaram um dos seus, nos massacres de 65-66. A câmara de Joshua entra na casa dos criminosos, já decrépitos, pelo seu protagonista, um jovem optometrista, Adid, o irmão mais novo de uma das vítimas, que diz ter deixado de ter medo e resolve confrontar os responsáveis pelo assassinato. Nesta segunda abordagem, percebe-se como a religião tolda o julgamento das pessoas, que vêm e fazem os massacres como proezas para defender e orgulhar a Nação. Não se entra no odio “político” aos comunistas e foca-se nas relações humanas, usando a profissão de Adid para olhar ‘olhos nos olhos’ dos monstros decrépitos que se acobardam e se desnudam quando enfrentados com as verdades quase surrealistas.

“O Olhar do Silêncio” é mais uma cerimónia de luto, uma memória passada do terror como instituição, um pouco em contraste com “O Ato de Matar”, que é uma ode

fílmica à liberdade (para Anwar e Koto) e à inexistência dela (para Oppenheimer e outros). O passado é passado?

Joshua Oppenheimer ganhou o Grande Prémio do Júri e Prémio FIPRESCI no Festival de Cinema de Veneza.