Chega hoje ao fim a 13ª edição da Mostra de Cinema de Expressão Alemã – KINO que começou a 27 de janeiro em Lisboa e apresentou 37 filmes oriundos da Alemanha, Áustria, Luxemburgo e Suíça, destacando-se ainda com uma retrospectiva da obra de Rosa Von Praunheim.

A sessão de encerramento está marcada para esta quarta-feira, pelas 21h30, no Cinema São Jorge, Sala 1, para a projecção de “Supermundo”, do ator e realizador Karl Markovics (que estará presente na sessão)que em 2012 estreou o seu primeiro filme (“Respirar”) na KINO. “Supermundo” conta a história de uma mulher de 50 anos, Gabi Kovanda, que trabalha num supermercado e a sua vida reparte-se entre a família e o emprego, entre a casa e o local onde trabalha. Mas certo dia, quando Gabi regressa a casa, acontece algo que transforma a sua vida por completo. Não é nada que se veja, nem nada que se oiça, mas atinge Gabi subitamente como um raio – um encontro com Deus.

O Cinema 7ª Arte entrevistou o Karl Markovics, que iniciou a sua carreira como ator, tendo trabalhado por exemplo em “Stockinger”, a série televisiva “Rex – O Cão Polícia” e no filme “Os Falsificadores” de Stefan Ruzowitzky, que ganhou o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 2008. O filme “Superwelt” é o segundo trabalho de Karl Markovics como realizador após o filme “Respirar”.

C7A: “Supermundo” tem uma forte componente espiritual e religiosa ao ponto de determinar o percurso de Gabi enquanto personagem. No entanto, o que é que tudo isto significa para sí?

KM: Procurar um sentido para a nossa vida implica uma procura por Deus. É isto que nos torna humanos. A nossa cultura, arte, filosofia e ciências não existiriam sem estas três grandes perguntas: de onde vimos, quem somos, e para onde vamos? 

C7A: No seu filme anterior, “Respirar”, a personagem principal passa por um processo atribulado de auto-descoberta, muito à semelhança de Gabi. Ambos lutam para encontrarem o seu caminho. Considera esta característica o seu principal interesse na construção das suas personagens? 

KM: Sim. É a motivação mais forte no desenvolvimento de qualquer personagem e de uma narrativa. O espectador sente essa vontade de acompanhar outra pessoa no seu processo de auto-descoberta.

C7A: Ulrike Beimpold e Rainer Wöss complementam-se lindamente. Já os tinha em mente para o filme?

KM: Eu nunca tenho atores específicos em mente quando penso numa história. Isso roubaria toda a liberdade e pureza ao filme. As histórias chegam até mim como estranhos. Eu tento tornar-me próximo ou até familiarizar-me com elas. Depois penso como transformá-las numa realidade. É neste momento que solto a minha imaginação e procuro as pessoas e os sítios certos para o filme.

C7A: “Supermundo” lembrou-me bastante as temáticas de David Lynch. Há um toque de surrealismo – os silêncios estranhos e perturbadores a ilusão de uma mundo idílico que esconde uma realidade obscura. Que géneros o fascinam? 

KM: Como David Lynch, eu adoro brincar com “realidades” Há uma forte realidade social em Supermundo mas por outro lado existe, também, uma espécie de realidade de conto de fadas. Para mim as histórias nunca são apenas uma realidade. São sempre a mistura de vários fatores – passado e presente, real e hiperreal, documental e conto de fada. Eu adoro este jogo com diferentes realidades. 

C7A: Acha que os géneros restringem demasiado um filme?

KM: Absolutamente. Eu detesto estar preso ao que quer que seja.Eu não quero que as minhas decisões sejam forçados por um determinado género. Mas isto não é toda a verdade. Quando começaram as filmagens para “Supermundo” eu não fazia ideia que tipo de filme iria ser. E mesmo agora que está terminado, não o consigo dizer. 

C7A: A cinematografia é fantástica. A luz, os movimentos de câmara e a composição estão soberbos. Alguns atores têm muita dificuldade em criar uma linguagem forte enquanto realizadores, mas não parece ser o seu caso. 

KM: Todas as histórias que desenvolvo começam com uma imagem. Eu penso por imagens. A minha imaginação tenta construir perspetivas, focos e direções. E quando preparo um filme, partilho todas as minhas ideias com o meu diretor de fotografia, Michael Bindlechner, que tem tanto um sentido visual fortíssimo como, igualmente, possui um forte sentido espiritual do mundo. Tal como eu. Todos os objetos, todo o ser tem a sua forma, o seu corpo, a sua cor, o seu cheiro, o seu som e, claro, o seu espírito. Em vez de cogito ergo sum, prefiro sum ergo sum. É o poder da existência.

C7A: É muito económico na forma como utiliza a música no filme, ao contrário do que costumamos ouvir noutros filmes. Quase que parece uma outra personagem. O que pensa da importância da música como veículo para contar histórias?

KM: A música é muito importante para mim. Eu começei a trabalhar juntamente com o meu compositor Herbert Tucmandl meses antes de começar o  trabalho visual do filme. A música é a alma de tudo. Tem que ser utilizada com muito cuidado. Tanto pode ser um remédio, como um veneno. A música revela muitas coisas – palavras, ou imagens – que exprimem simplicidade, ou o oposto como segredos ou tensão.

C7A: Tem mais projetos em mente?

KM: Tenho 5 histórias diferentes pensadas. Mas ainda não tenho uma “próxima”. Tenho que continuar à espera do que estas histórias me vão fazer. E depois decidirei.