Kubrick- Uma Odisseia Cinematográfica_1

Stanley Kubrick nasceu a 26 de julho de 1928, em Nova Iorque, no bairro de Bronx, onde vive a burguesia judaica nova-iorquina. Filho de pais imigrantes austríacos e galegos, Kubrick nunca foi um aluno exemplar e as suas notas eram fracas. No entanto, ele sempre teve uma mente bastante criativa e o seu pai manda-o para a casa do tio para que este melhore os estudos e aí aprende a jogar xadrez aos doze anos. No seu décimo terceiro aniversário, o seu pai oferece a Kubrick a sua primeira máquina fotográfica como presente. Em 1942 a família Kubrick vive num luxuoso apartamento na Bronxʼs Gand Concourse, e Kubrick inscreve-se no Liceu. Nesse mesmo ano arrisca-se a ler um livro que o impressiona bastante, “Paths of Glory”, um romance de Humphrey Cobb sobre a Primeira Guerra Mundial.

 

Kubrick vai perdendo a sua timidez quando descobre o seu talento na fotografia. Torna-se fotografo da revista do seu liceu, a Taft e mais tarde aos dezassete anos vendeu a sua primeira fotografia à Look por 25 dólares e é contratado como fotografo estagiário. Em 1948, Kubrick casa-se com a sua namorada do liceu, Toba Metz e vão viver para Greenwich Village. No ano seguinte, realiza com um amigo da revista do liceu, Alex Singer, o seu primeiro filme, um documentário de nove minutos sobre um pugilista peso médio Walter Cartier, “Day Of The Fight”, que vende à RKO. Nos próximos cinco anos, Kubrick realiza quatro curtas-metragens, “Flying Padre” (1951), “The Seafarers” (1953), “Fear and Desire” (1953) e “Killerʼs Kiss” (1955).

 

Mas é em 1956 que a sua carreira ganha vigor, passando a dedicar-se às longas- metragens. “The Killing” é a sua primeira longa e é adaptado de um romance de Lionel White, “Clean Break”. Foi produzido pela United Artists e conta a história de um assalto concebido com mão de mestre por um criminoso profissional, mas que acaba mal. Com este filme Kubrick consegue chamar à atenção alguns produtores de Hollywood.

 

Horizontes de Glória (1957)

Horizontes de Glória (1957)

“Horizontes de Glória” viria a ser a sua próxima longa-metragem, adaptando o romance de Humphrey Cobb que tinha lido com apenas catorze anos, um filme de guerra, mais especificamente a 1ª Grande Guerra. “Paths of Glory” (“Horizontes de Glória”, 1957) dá-nos uma visão muito dura da luta nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial. Conta a história de um pelotão que se recusa a cumprir uma missão suicida, ordenada pelo general francês Mireau. Este dá ordem aos seus oficiais de comando para escolherem três soldados para serem julgados e executados por cobardia. O Coronel Dax (Kirk Douglas) será o oficial que os vai defender. “Horizontes de Glória” é uma obra-prima, caracterizada por um grande rigor e seriedade no tratamento de temas complexos. O filme foi proibido em alguns países, como a França. No entanto, o filme teve algum sucesso, tendo revelado Kubrick a Hollywood.

 

Spartacus (1960)

Spartacus (1960)

Em 1959, Kirk Douglas contrata Kubrick para realizar um filme que vai produzir sozinho e no qual é ator, depois de ter despedido Anthony Mann, que realizara já algumas cenas. “Spartacus” é um filme colossal a cores e filmado em 70mm que arrecadou cerca de 12 milhões de dólares, a maior receita de bilheteira de 1960. A boa relação entre Kubrick e Douglas não durou muito tempo, pois este não deixava Kubrick aplicar as suas ideias, tendo sido obrigado a filmar tal como Douglas ordenava. Apesar do enorme sucesso que o filme teve, Kubrick decidiu nunca mais aceitar projetos em que não tivesse total liberdade criativa.

 

Lolita (1962)

Lolita (1962)

Assim, surge “Lolita”, que Kubrick adquiriu os direitos do romance “Lolita” do russo Vladimir Nabokov, ainda durante as rodagens de “Spartacus”. Este romance conta a história de um professor, Humbert, que casa com uma viúva para poder possuir Lolita, a filha dela, de doze anos. O forte desempenho de “Lolita” nas bilheteiras deveu-se em parte à controvérsia gerada pela igreja católica, por mostrar uma relação amorosa entre um homem de meia-idade e uma adolescente. No entanto, o filme torna-se num sucesso de crítica, depois da sua estreia em 1962, no Festival de Veneza.

 

Doutor Estranhoamor (1964)

Doutor Estranhoamor (1964)

O próximo filme de Kubrick seria ainda mais controverso. “Dr. Estranho Amor” (1964) é uma adaptação do romance “Red Alert”, de Peter George, um thriller da Guerra Fria, que satirizou a tensão nuclear vivida pelo mundo nos anos 50 e 60. Apesar da seriedade do tema, Kubrick concluiu que se tratava de uma loucura, todo aquele conflito entre as grandes forças políticas da altura, EUA (capitalismo) e a União Soviética (socialismo), pelo que ‘brincou’ com o tema. “O problema atómico é o único em que não há possibilidade de alguém aprender algo com a experiência. No dia em que algo acontecesse, restaria tão pouco do mundo que conhecemos, que a experiência não serviria a ninguém. Por isso me pareceu um problema merecedor de ser abordado dramaticamente.”, (1) disse Kubrick. O filme foi muito controverso na época, mas conseguiu agradar ao público em geral, pela sua irreverência e humor anárquico. A carreira de Kubrick melhorava bastante em cada filme, apreciado pelo público e pela crítica. Chegou a um ponto em que tinha liberdade criativa total, sem qualquer imposição dos estúdios. Stanley Kubrick estava prestes a tornar-se num dos maiores realizadores de sempre.

 

2001: Odisseia no Espaço (1968)

2001: Odisseia no Espaço (1968)

O seu próximo projeto, “2001: Odisseia no Espaço”, é realizado numa época em que a corrida ao espaço estava em constante exploração, com a URSS e os EUA a lideraram essa corrida, ao mandarem homens para o espaço. O argumento de “2001…” foi escrito ao mesmo tempo que o livro de Arthur C. Clarke e retrata um artefacto extraterrestre encontrado na lua. Kubrick disse uma vez que, “O conceito de Deus está no centro de 2001…, mas não o conceito das imagens tradicionais e antropomórficas de Deus. Não acredito em nenhuma das religiões monoteístas terrestres, mas tenho a certeza de que se poderia construir uma fascinante e interessante definição “científica” de Deus, sabendo nós que só na nossa galáxia há 100 biliões de estrelas, que cada estrela pode ser um Sol que dá vida, e que só no universo visível existem cerca de 100 biliões de galáxias. As qualidades que alguns seres extraterrestres poderão ter desenvolvido até à incorporeidade são muito semelhantes às que habitualmente se atribuem a Deus. Foi nisso que residiu o meu fascínio pelo tema.” (2). “2001…” é considerado o melhor filme de ficção científica de sempre, o verdadeiro ‘messias’ deste género. O filme estreou em 1968, um ano antes de o Homem ir à Lua, e não foi muito bem aceite pela crítica. Mas um mês após a sua estreia o público jovem acolheu com entusiasmo o filme. A música “Danúbio Azul”, de Joham Strauss, ficou imortalizada neste filme, com as belíssimas imagens do espaço. Kubrick criou uma obra única que mudaria por completo o cinema e o género de ficção científica.

 

Laranja Mecânica (1971)

Laranja Mecânica (1971)

Logo a seguir, Kubrick começa as suas pesquisas para o seu próximo filme, “Napoleon”. Um projeto grandioso e arrojado, que Kubrick sonha em tornar realidade. Mas mais tarde abandona o projeto, depois de em 1970 ter estreado um filme britânico sobre a mesma temática, “Waterloo”, realizado por Sergei Bondarchuk, que acabou por ser um fracasso de bilheteira e o financiamento foi retirado a Kubrick. Ele começa a dedicar-se a um novo projeto, adaptando o polémico romance de Anthony Burgee, “Laranja Mecânica” (1971). “Laranja Mecânica” é uma violenta sátira da cultura da juventude. É talvez o único filme que conseguiu captar, a expressão cinematográfica, do lado mais sombrio dos anos sessenta. A reação pública não foi a melhor, chegando ao ponto de ter recebido ameaças de morte. “Laranja Mecânica” foi retirado dos cinemas ingleses, ao fim de 61 semanas de exibição. Kubrick passou a intervir na distribuição do seu filme, o que fez com que, apesar de todos estes percalços, “Laranja Mecânica” fosse o segundo filme mais lucrativo na história da Warner, a seguir a “My Fair Lady”.

 

Barry Lyndon (1975)

Barry Lyndon (1975)

Em 1972 a Warner Bro. aceita financiar o substituto de “Napoleon”, “Barry Lyndon”, de William Thackeray, que conta a ascensão e queda de um aventureiro irlandês. Este próximo filme seria um épico de época e para isso usou o material mais moderno da altura, para poder filmar o filme quase todo em interiores na Grã-Bretanha e na Irlanda. Mandou fazer umas lentes especiais na NASA, só para o seu filme, para que conseguisse captar a luz natural das velas. O que tornou a luz do filme muito natural e magnifica, recriando bem o espírito e o ambiente da época. Kubrick usou cópias de pinturas, do séc. XVIII, em termos de luz e de posicionamento das personagens. Até aqui ninguém tinha feito nada assim. Kubrick mais uma vez faz uma revolução no cinema. O filme estreou em 1975 e a recepção do filme não foi a melhor nos EUA, já na Europa, foi recebido como uma obra magistral.

 

Shining (1980)

Shining (1980)

Em 1978, Kubrick aceita a proposta da Warner de realizar “Shining” de Stephen King. Kubrick achava que este era um filme otimista, que o público iria gostar, por ser um filme acerca de fantasmas, pois “qualquer filme que indique que há algo depois da morte é optimista.” (3). Mais uma vez Kubrick cria algo revolucionário, quer ao nível artístico e tecnológico. O filme é lembrado pelas famosas cenas de sequência, que foram filmadas com uma steadycam, sendo o primeiro filme a usar esta técnica. “Shining” está cheio de referencias a Freud e cheio de simbolismos que tornam o filme bastante complexo. É um filme estranho e inquietante que para ter chegado a este nível de qualidade foram precisas muitas repetições, batendo o recorde do número de takes, uma conversa é filmada cento e quarenta e sete vezes. O filme estreia em 1980, foram mais de dois anos de rodagem, o que mostra bem o perfeccionismo de Kubrick e aquilo que ele exigia dos seus atores. “Shining” foi um enorme sucesso comercial em todo o mundo.

 

 Nascido para Matar (1987)

Nascido para Matar (1987)

Em 1985 os pais de Kubrick morrem e no final de Agosto do mesmo ano a produção de “Nascido para Matar” arranca. Baseado no romance de Gustav Hasford, “The Short Timers”, “Nascido para Matar” é considerado um dos grandes filmes sobre a guerra do Vietname. O filme divide-se em duas partes, ambas narradas desde o ponto de vista do soldado Joker: a primeira, passa-se no campo de treinos, na Academia dos Fuzileiros Navais, onde os soldados se preparam para partirem para a guerra do Vietname; a segunda parte, é passada no campo de batalha, no Vietname, onde o soldado Joker trabalha como jornalista, registando a opinião dos soldados sobre a participação dos Estados Unidos na guerra, bem como o tratamento que os militares davam aos nativos. “Nascido para Matar” estreou em 1987, sete anos depois do seu último filme, e marca o regresso aos filmes de guerra. Este é talvez o seu filme com mais ação. O filme foi, mais uma vez, um sucesso de público.

 

De Olhos Bem Fechados (1999)

De Olhos Bem Fechados (1999)

No inicio dos anos 90 Kubrick começa a desenvolver um novo projeto, uma adaptação do romance de Aldiss, agora rebatizado “Inteligência Artificial”. “A.L.” transformou-se num projeto de tal modo ambicioso que Kubrick decidiu que o filme deveria ser produzido por ele e realizado por Spielberg, por achar que o filme se aproximava mais da sensibilidade de Spielberg do que da dele. Assim, “De Olhos Bem Fechados” seria o seu próximo filme, adaptado do romance de Arthur Schnitzler, “Traumnovelle” e levaria dois anos ser realizado. A história conta a relação de um casal que está a passar por uma crise, interpretado pelo casal maravilha de Hollywood, da altura, Tom Cruise e Nicole Kidman. Kubrick disse que este era o seu melhor filme de sempre. Kubrick morreu a 7 de Março de 1999, quando o filme estava ainda em pós-produção, sem ter visto a sua estreia (estreou a 13 de Julho de 1999).

 

Fontes:

1) Retirado do livro “Kubrick”, de Enrico Ghezzi, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, Novembro de 2003, página 36;

2) Retirado do livro “Kubrick”, de Enrico Ghezzi, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, Novembro de 2003, página 38;

3) Retirado do documentário “Stanley Kubrick – A Life in Pictures” (2001) de Jan Harlan;

 

Artigo escrito por: Eduardo Magueta e Tiago Resende