«La Civil» – comove Cannes mas é ofuscado pela verdadeira história que lhe deu origem

Como adaptar a vida de uma mãe que virou símbolo e orgulho nacional de um país após uma caçada implacável aos assassinos da sua filha? A relação dos mexicanos com a história verdadeira de Miriam Rodríguez Martínez não podia ser outra a não ser intocável. Num país devastado pela violência e pela impunidade, Miriam virou sinónimo de luta e justiça.

Ignorada pelas autoridades mexicanas, Miriam passou os três últimos anos da sua vida fazendo o que parecia impossível, e não descansou enquanto não botou na cadeia cada um dos membros da máfia responsável pelo sequestro e morte de sua filha de 20 anos.

O caso virou comoção nacional quando Miriam foi assassinada na porta de sua casa no dia das mães em 2017. Mas só em dezembro do ano passado, quando a epopéia de Miriam foi contada num artigo do New York Times de muita repercussão é que o caso atingiu proporções mundiais e não demorou muito para que os direitos fossem adquiridos para o cinema e a televisão.

No entanto, já havia uma outra produção em marcha inspirada pela saga de Rodríguez. “La Civil”, o filme de estreia da realizadora romena Teodora Ana Mihai. Aqui Miriam vira Cielo, uma impressionante Arcelia Ramírez que praticamente aparece em todas as cenas do filme e que o carrega nas costas. Somos apresentados à nossa heroína e a sua filha Laura. Uma certa noite, após um encontro com o namorado, Laura desaparece.

No dia seguinte Cielo é contactada por membros de uma facção para pagar o resgate da filha. A mãe então corre a pedir ajuda ao pai (Álvaro Guerrero) com quem já não fala por causa de um divórcio que não acabou bem e, num esforço conjunto, arranjam os 150 mil pesos do resgate. Só que assim como muitas outras histórias com o mesmo destino no México, Laura nunca retorna a casa.

O filme carrega uma poderosa denuncia: quer expôr a realidade trágica do México atual, a dos sequestros e da guerra às drogas, resultado da corrupção do estado e da polícia que o representa. Mihai quer falar da impotência e do medo que a sociedade mexicana vive, sendo controlada e aterrorizada pela máfia e seus cartéis.

O filme de Mihai estreou em Cannes (Un Certain Regard) revolto de expectativas e com bastante repercussão na imprensa mexicana; a maioria orgulhosamente dando conta de uns “oito minutos de aplauso” quando da sua premiére no Debussy Theatre. Nada mal para uma realizadora quase desconhecida e com apenas três curtas no currículo. Dá-se a impressão de que a popularidade da história de Miriam deve ter repercutido no comitê de seleção do festival.

No entanto, se o filme se beneficiou do timing correto ou das suas boas intenções, ainda assim ele sofre com a herança do seu relato original. Adaptar uma história tão protegida, e envolta de uma certa mitificação, precisava de mais liberdade e espaço para respirar. O facto de ser uma realizadora europeia à frente do projeto talvez colabore para que haja um certo desapego… mesmo assim, o peso de tal responsabilidade se sente no ecrã.

Mihai abre o seu thriller com a intensidade de um filme noir, construindo um estado de apreensão que é admirável. Mas quando lá pela segunda metade, a protagonista veste a máscara de justiceira (literalmente: numa cena em que Cielo está coberta de negro da cabeça aos pés, apenas os olhos à mostra, é encorajada por um militar a espancar um dos seus algozes), e a narrativa vira um filme de ação, as coisas começam a se arrefecer.

Mesmo com estes percalços pelo caminho, “La Civil” não é, de todo, um filme mau. Longe disso. Mas fica-se com a impressão de que Miriam merecia um filme que lhe fizesse melhor justiça.

«La Civil» – comove Cannes mas é ofuscado pela verdadeira história que lhe deu origem
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