La Clef: histórica sala de cinema parisiense reabre pelas mãos de coletivo ativista

O primeiro filme a ser mostrado no La Clef, a 27 de junho, será “Duas Horas na Vida de Uma Mulher”, de Agnes Varda
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La Clef, o histórico cinema de Paris, situado no Quartier Latin, na Rue de la Clef, e fundado por Claude Franck-Forter em 1973, vai reabrir após cinco anos a lutar pela sobrevivência.

Os realizadores e estudantes expulsos pela polícia em 2022, depois de terem ocupado aquela sala de cinema, serão agora proprietários depois de a adquirirem por 2.7 milhões de euros.

Em 2019, após o fecho oficial da sala, um coletivo composto por gente muito diversa, deu início à ocupação do espaço e começou a passar filmes diariamente, para além de dar lugar a debates com nomes como os de Leos Carax, Frederick Wiseman, Céline Sciamma e Adèle Haenel.

Cinéma Revival, o grupo ativista responsável pela campanha de recolha de donativos com destino a salvar o cinema, conseguiu os fundos necessários para o comprar ao seu anterior proprietário, Caisse d’Epargne, uma cooperativa bancária.

Após mais de um ano de negociações e adiamentos entre as duas partes, para que o grupo tivesse tempo suficiente para recolher os fundos necessários, o proprietário acabaria por baixar o preço de venda dos 2.9 para os 2.35 milhões de euros, sobretudo pelos custos envolvidos na futura renovação do espaço.

De entre as contribuições, contam-se cinco mil donativos individuais que resultaram em 400 mil euros e de entre os quais se incluem nomes conhecidos do cinema mundial, caso de David Lynch, Wang Bing, Mathieu Amalric, Alain Cavalier, Valérie Massadian, Leos Carax, Céline Sciamma, Sophie Fillières, Agnès Jaoui e Irène Jacob, entre muitos outros.

O restante valor é proveniente de grandes donativos como o do realizador Quentin Tarantino e dois patrocinadores que fizeram questão de permanecer anónimos. Relembre-se que Tarantino, como grande defensor do cinema visto em sala, é dono de dois cinemas em Los Angeles.

O grupo tem planos para abrir o cinema Le Clef ao público durante quatro dias, entre 27 e 30 de junho, com sessões de cinema gratuitas, para depois o fechar por um ano para obras de renovação. Um café comunitário, duas salas de cinema e duas salas de pós-produção serão instaladas para gerar lucros que possam suportar os custos de funcionamento da sala, já que os bilhetes não terão um valor fixo e cada espectador doará o valor que achar conveniente.

O primeiro filme a ser mostrado no La Clef, a 27 de junho, será “Duas Horas na Vida de Uma Mulher”, de Agnes Varda, que esteve previsto para 2022, quando o cinema foi definitivamente fechado. A filha de Agnes, a produtora Rosalie Varda, estará presente.

La Clef reger-se-á sobretudo pelo sentido de comunidade e, por isso, a grande maioria das suas operações de programação terão por base o voluntariado. Esta é, aliás, a sua marca identificativa desde a fundação, algo que permitiu que se diferenciasse numa cidade como Paris, conhecida no passado pela sua grande densidade de cinemas de cariz independente. Essa realidade tem paulatinamente vindo a mudar, já que vários dos seus cinemas independentes têm vindo a fechar portas.