Depois de a vermos actuar em filmes como “Frances Ha” (2012), de Noah Baumbach, ou em “Para Roma com Amor”, de Woody Allen, Greta Gerwig realiza agora um filme na forma de um autorretrato.

Lady Bird (Saoirse Ronan) é uma adolescente rebelde, dona de uma energia singular que se faz explodir diante dos nossos olhos. A explosão desta energia que Lady Bird contém dá forma à sua identidade e também ao próprio filme.

A primeira explosão que nos é dada a ver acontece na primeira cena. Lady Bird não segura o impulso e, durante uma discussão com a mãe, abre a porta do carro e atira-se, mesmo com este ainda em movimento. Esta é Lady Bird, a adolescente que mostra em todas as suas atitudes uma afirmatividade completa, que toma a liberdade de se baptizar a si mesma numa acto de rebeldia contra os pais. Esta energia ainda em estado selvagem é também a força que lhe permite experimentar-se a si mesma e enfrentar, com punhos de aço, toda a moral que a vai envolver como uma teia da qual ela tem de se desenvencilhar.

A moral está presente no ambiente familiar, na sua relação com a mãe e também na educação religiosa que escolheram para ela. O seu gosto pelas artes forma nela um espírito que se mostra avesso a todas essas regras que lhe querem impor, como se a vida dela tivesse de vir de fora, e por isso, Lady Bird necessita explodir para afastar de si todas essas formas de vida que não são suas.

Há nesta joranada existencial de Lady Bird um pouco das três metamorfoses do espírito, que Nietzsche retrata na sua famosa obra, “Assim Falava Zaratustra”. Existe uma primeira fase onde os valores são absorvidos passivamente, aceites e seguidos sem questionamento, como que numa afirmatividade fraca, sem uma verdadeira força moral, tal como um camelo que se baixa para que lhe possam colocar em cima todos os pesos. A segunda fase da metamorfose é aquela onde Lady Bird se encontra, a fase do Leão. Este, ganha a coragem necessária para negar os valores que foram absorvidos e com toda a ferocidade vai tentar destruí-los. As tensões familiares com a mãe, a descoberta de novos amores, novos amigos, toda esta rebelião moral serve para chegar a uma nova fase, a fase da criança. Depois da negação, chega a fase em que Lady Bird começa a reconhecer o que realmente tem valor para ela, como se agora fosse a partir dela que os valores são criados. As verdadeiras amizades voltam, e no final, até o seu nome de batismo ganha um novo valor. Estas metamorfoses não são mais do que Lady Bird a descobrir a verdade de si mesma e a conquistar aquilo que lhe é mais íntimo, aquilo que ela é.

Os desempenhos de Saoirse Ronan e de Laurie Metcalf são ambos brilhantes e dão ao filme tudo aquilo que ele precisa. As actrizes conseguem tonar transparentes as emoções que vivem dentro de cada personagem: a rebeldia, a cumplicidade, o amor e o carinho que se escondem sempre por trás das carcaças morais endurecidas por orgulho ferido. A cena final mostra como todas estas emoções que se escondiam começam a querer sair das muralhas da carcaça orgulhosa e brotam nos rostos das personagens, para nos dizer que o amor pulsa como uma força bruta, mas que a moral às vezes tem tanta força que acaba por reduzir o mundo a um amontoado de carcaças morais que confinam a paixão como se a sua manifestação fosse um mal absoluto. Como as personalidades gélidas acabam por se impor sempre com mais eficácia sobre aquelas mais emotivas, que deixam emergir a verdade do que sentem, este choro de Laurie Metcalf, na última cena, afecta-nos profundamente, como se também em nós, essas forças fossem chamadas a reagir para reconhecermos e lembrarmos os nossos momentos em que o orgulho consumiu a parte mais vital que nos constitui.

Este filme não é apenas mais um coming of age, feito à base dos clichés do costume. Transparece nele uma sinceridade incrível, sem recorrer a artifícios formais que muitas vezes não passam de uma pseudopoesia. O filme consegue ir ao encontro das nossas emoções mais universais e isso só se consegue quando se conta uma história onde possamos reconhecer-nos com alguma nostalgia, como quando alguém nos conta a história da sua vida e em cada palavra conseguimos ver a nossa história.

Realização: Greta Gerwig
Argumento: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts 
EUA – 2017
Comédia
Sinopse
: Apesar de Christine “Lady Bird” McPherson lutar contra isso, é exatamente igual à sua extremamente apaixonada, profundamente opinativa e muito teimosa mãe, que trabalha incansavelmente como enfermeira para sustentar a sua família depois do pai ter perdido o emprego. Uma história passada em Sacramento, Califórnia, em 2002, no meio de um cenário de rápida mudança da economia americana.

«Lady Bird» - É preciso um pouco de caos para ver a verdade brilhar
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