Com a estreia de “Le Mans ‘66: O Duelo”, muitos fãs dos desportos motorizados puderam finalmente ver a história de Carroll Shelby e Ken Miles (e da mítica corrida das 24 Horas de Le Mans do ano de 1966) no grande ecrã. Esta “história baseada em factos verídicos” centra-se na rivalidade entre a Ford e a Ferrari, marcas que travaram nessa década uma aguerrida batalha pela supremacia nas pistas, e que o filme realizado por James Mangold se esforçou por enfatizar, usando o sempre útil e com resultados comprovados “tratamento de Hollywood”.

Este modelo hollywoodesco é assente em princípios bem definidos, alguns dos quais serão enunciados de seguida. Primeiramente, dita que os protagonistas deverão ser actores de renome, que possam atrair as audiências apenas pelo seu estatuto de estrela. Nesse capítulo, tanto Matt Damon (no papel de Shelby) e Christian Bale (no papel de Miles) estão num nível em que se podem considerar praticamente apostas ganhas. Apesar do interesse comercial, Damon e Bale mostram a razão de serem dos actores mais conceituados da actualidade, capazes de elevarem a qualidade do filme só com a sua presença. Uma das boas utilizações recentes do chavão “juntar o útil ao agradável”.

Em segundo lugar, é mandatório que todos filmes tenham um antagonista. “Le Mans ‘66” destaca-se nesse ponto, focando-se na já mencionada guerra entre a Ford e a Ferrari. Direcciona quase sempre a empatia para o lado dos americanos e o antagonismo para os italianos, mostrando a facilidade com que o ponto de vista pode determinar quem são os heróis e quem são os vilões.

Após juntar um par de nomes famosos, há que arranjar (ou criar) um interesse amoroso. Neste caso, a mulher de Ken Miles assume essa vaga. Sente-se, contudo, que apenas está lá porque as regras tradicionais da criação de histórias ditam que o protagonista (neste caso, Ken Miles) precisa de uma motivação para a sua jornada sob a forma de uma relação amorosa. E parece que as regras são para ser seguidas mesmo que isso implique a criação de personagens tão unidimensionais.

Há também que “limar” a história, um bom eufemismo que pretende significar moldar a realidade de forma a torná-la mais enquadrada com a famosa “estrutura em 3 atos” e com outros lugares-comuns cinematográficos. Se necessário, poder-se-á inventar ou alterar os factos quanto baste. Neste capítulo, algumas incoerências históricas poderão ser perdoadas caso se defenda que a exactidão pode ser deteriorada em prol da arte. Problemas haverá quando em vez de arte, a substituição é feita a pensar na caixa registadora. São assuntos, apesar disso, que já não causam muita confusão ao normal espectador moderno.

A última variável da equação é uma grande cena climática. É na corrida de Le Mans de ‘66 que o filme homónimo (pelo menos nos cinemas nacionais) mostra aquilo que se propôs a ser: um filme de corridas de carros visualmente espectaculares e o mais realistas possível. Pouca gente (mesmo entre entusiastas das corridas de automóveis) ficará desiludida com a epicidade da corrida final, o momento pelo qual toda a gente aguardava. As sequências da corrida final mostram também que, na hora de escolher onde aplicar os milhões, foi à recta final do filme que estes foram dirigidos.

Não se deve, contudo, achar que este uso formulaico da sétima arte significa um produto final menos conseguido, pois “Le Mans ‘66” será certamente um dos filmes do ano e não se deverá considerar que todo e qualquer filme deverá ser inovador em termos de estrutura e da sua abordagem ao cinema. Apesar disso, em última instância e em jeito de nota, não deixa de ser irónico que parte da moral que o filme deixa é a de nem sempre dar ouvidos aos executivos, embora seja o produto de um estúdio em que provavelmente todas as decisões foram tomadas pelos colarinhos brancos.

«Le Mans '66: O Duelo» – Hollywood vai a Le Mans
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