«Liberdade» – Entre a Liberdade e a Força Pequena das Indignações

Kirill Mikhanovsky oferece-nos uma visão pessoal sobre as dificuldades da vida e a forma otimista de a enfrentar.  Desde o início do filme que ficamos a perceber como Kirill valoriza a liberdade e o pragmatismo americanos. O realizador enfatiza o poder fazer, o poder agir. E isso não espanta, se tivermos em conta as marcas que um russo carrega dentro de si, depois de terem vivido sob um estado totalitário que acabou por oprimir profundamente o seu povo, quando a essência da sua ideologia pedia que o libertassem. Então, que se cumpra a liberdade, onde ela nos seja possível viver – talvez queira sublinhar Kirill.

E essa possibilidade só se oferece a quem luta para sobreviver a cada dia. Vic (Chris Galust) é um desses lutadores, com pé a fundo no acelerador de uma carrinha que transporta pessoas com incapacidades motoras. Esta carrinha ganha vida, tanto pela força bruta do trabalho do seu motorista, como das pessoas que o vão ocupando.

Durante este dia de trabalho de Vic, notamos o quanto os níveis de paciência e irritabilidade das pessoas difere. Enquanto tenta colocar a carrinha que conduz no mesmo ritmo de aceleração que o nível de exigência do seu patrão, Vic vai sendo metralhado pela impaciência daqueles que transporta, pela pressão do seu patrão, pelas questões familiares que surgem, ou pelo dono de um carro ao qual retirou um dos espelhos.

O ritmo da montagem acaba por se evidenciar, quando notamos que as próprias falas dos atores vão fazendo a ponte entre planos. A forma do filme parece querer passar essa sensação de inquietude, a pressão e a aceleração com que as próprias personagens se apresentam. Este ritmo acaba por ser travado, várias vezes, pelas manifestações que vão encontrando no caminho. O realizador parece querer passar a ideia de que as reclamações afetadas acabam por se tornar uma barreira para as ações mais urgentes e humanas. Não há entendimento possível quando toda esta energia que se desperdiça nas manifestações de indignação pessoal fica apenas fechada dentro do indivíduo. Talvez o realizador não nos queira passar a ideia de que a manifestação é um mal, ou que é sempre um impedimento à verdadeira ação, mas que a volatilidade de certas manifestações acaba por desperdiçar uma energia que deveria estar voltada para a união, tirando efetividade e verdade a certos movimentos políticos.  O realizador mostra isto entrecortando o ritmo da montagem com o aparecimento destas manifestações.

O triângulo de atores Lauren ‘Lolo’ Spencer, Chris Galust e Maxim Stoyanov – que são Tracy, Vic e Dima, respetivamente – agarram o filme por completo. Os três vão alimentado a narrativa e fazendo com que os restantes (não) atores se evidenciem mais nos seus papéis. Cabe-lhes a tarefa de distribuir o foco e dar-lhes uma nova visibilidade.

O filme acaba por nos apresentar uma visão interessante sobre esta relação entre o quotidiano laboral, a relação humana e a manifestação política, expondo os problemas que daí advêm. Conseguimos, do interior da carrinha conduzida por Vic, sentir a tensão que existe entre essas diferentes dimensões que acabam por se tocar de diferentes formas. Sentimos a vertigem da velocidade que é exigida a Vic, o fervilhar das emoções que esse dia a dia acarreta, as pressões que se vão juntando e imprimindo velocidade a todas essas nossas pequenas exigências, que vão ofuscando a verdade das necessidades mais urgentes.

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